Folha de S. Paulo
Ora se discute se EUA adotariam planos
parecidos com o de certa esquerda brasileira
Tesouro americano anuncia que vai intervir
mais no mercado de dívida do governo
Juros dos Estados
Unidos chegaram ao nível mais alto em quase 20 anos nesta terça
(18), contaminando mercados do Ocidente. Nesta quarta, os economistas de Donald Trump anunciaram
que vão intervir mais no mercado de títulos da dívida do governo —de
juros para prazos mais longos.
O valor é pequeno, tais intervenções não são
novidade. Importa é que o governo americano agiu em momento de febre, em que
essas taxas
de juros poderiam ficar descabeladas. Interessante, discute-se
nos EUA se o governo pode adotar medidas que diferem pouco de planos de certa
esquerda brasileira.
Entre outros problemas, muito maiores, juros americanos influenciam também o que vai ser das nossas taxas de juros, do real e da Bolsa. Uma alta pode até estourar uma suposta bolha de inteligência artificial (IA).
Trocando em miúdos, o Departamento do Tesouro
dos EUA, o Ministério da
Fazenda deles, vai aumentar a recompra de títulos da dívida do
governo de prazo de 10 a 30 anos (pegando dinheiro emprestado com a venda de
títulos "curtos").
A recompra em princípio aumenta o preço dos
títulos, a taxa de juros cai (é a mesma coisa). Oficialmente, o Tesouro quer
evitar que o mercado pouco líquido (sem dinheiro) de certos títulos provoque
altas em tese artificiais das taxas, em momentos de estresse.
As taxas dos títulos de dívida pública são as
taxas de financiamento de déficits e dívidas de governos. São o piso das demais
taxas; se sobem, levam o resto consigo, como juros de financiamento de empresas
ou de compra de casa. São influenciadas pela taxa básica dos bancos centrais,
mas definidas no mercado. Sobem desde o segundo semestre de 2022, por causa da
inflação da pandemia e mais dívida do governo. Desde março, voltaram a subir
mais.
Qual o problema? Essa é a discussão. O risco
de inflação maior por causa da guerra contra
o Irã pesou um pouco, mas muito pouco no caso de juros longos
(expectativas de inflação de longo prazo estão comportadas). O Fed sob
nova administração está sob desconfiança da praça.
A alta de juros no Japão levaria menos
dinheiro japonês para financiar o déficit público dos EUA. Isso no curtíssimo
prazo. De fundamental, déficits e dívidas americanos (e mundo rico) crescendo
sem limite devem ter aumentado o "prêmio" (o extra de juros) que os
donos do dinheiro cobram para emprestar a prazo mais longo (o que é mais
arriscado por vários motivos).
A demanda da dinheirama que financia a
ampliação do complexo IA pressiona juros. A promessa de mais gasto com guerra e
armas é motivo; o investimento redundante e doméstico em "setores de
segurança nacional" também. Pode ser de tudo isso um pouco.
Se os motivos são esses, intervenção do
Tesouro não vai conter juros. Especula-se se Kevin Warsh, novo presidente
do Fed,
tentaria levar o BC deles a entrar no jogo, comprando títulos de longo prazo a
fim de achatar juros e salvar o setor privado rico, como o Fed fez
nas crises desde 2008 até a pandemia.
Seria contra os planos declarados de Warsh
(menos títulos em poder do Fed,
mais definições de mercado). É o que propõem economistas de certa esquerda ou
admirados por ela no Brasil (que não estão no governo).
Do desastre da crise de 2008 (obra da
finança) a 2022, os juros foram
anormalmente baixos no mundo rico. Era barato financiar déficit de governo. Não
mais. Com taxas mais altas e déficits contínuos, a dívida pública cresce
rápido. Parece o Brasil? É. Passou também a ser a conversa nos EUA.
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