quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Trump tenta dar um jeitinho na alta dos juros e disfarçar que estoura déficit e dívida, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ora se discute se EUA adotariam planos parecidos com o de certa esquerda brasileira

Tesouro americano anuncia que vai intervir mais no mercado de dívida do governo

Juros dos Estados Unidos chegaram ao nível mais alto em quase 20 anos nesta terça (18), contaminando mercados do Ocidente. Nesta quarta, os economistas de Donald Trump anunciaram que vão intervir mais no mercado de títulos da dívida do governo —de juros para prazos mais longos.

O valor é pequeno, tais intervenções não são novidade. Importa é que o governo americano agiu em momento de febre, em que essas taxas de juros poderiam ficar descabeladas. Interessante, discute-se nos EUA se o governo pode adotar medidas que diferem pouco de planos de certa esquerda brasileira.

Entre outros problemas, muito maiores, juros americanos influenciam também o que vai ser das nossas taxas de juros, do real e da Bolsa. Uma alta pode até estourar uma suposta bolha de inteligência artificial (IA).

Trocando em miúdos, o Departamento do Tesouro dos EUA, o Ministério da Fazenda deles, vai aumentar a recompra de títulos da dívida do governo de prazo de 10 a 30 anos (pegando dinheiro emprestado com a venda de títulos "curtos").

A recompra em princípio aumenta o preço dos títulos, a taxa de juros cai (é a mesma coisa). Oficialmente, o Tesouro quer evitar que o mercado pouco líquido (sem dinheiro) de certos títulos provoque altas em tese artificiais das taxas, em momentos de estresse.

As taxas dos títulos de dívida pública são as taxas de financiamento de déficits e dívidas de governos. São o piso das demais taxas; se sobem, levam o resto consigo, como juros de financiamento de empresas ou de compra de casa. São influenciadas pela taxa básica dos bancos centrais, mas definidas no mercado. Sobem desde o segundo semestre de 2022, por causa da inflação da pandemia e mais dívida do governo. Desde março, voltaram a subir mais.

Qual o problema? Essa é a discussão. O risco de inflação maior por causa da guerra contra o Irã pesou um pouco, mas muito pouco no caso de juros longos (expectativas de inflação de longo prazo estão comportadas). O Fed sob nova administração está sob desconfiança da praça.

A alta de juros no Japão levaria menos dinheiro japonês para financiar o déficit público dos EUA. Isso no curtíssimo prazo. De fundamental, déficits e dívidas americanos (e mundo rico) crescendo sem limite devem ter aumentado o "prêmio" (o extra de juros) que os donos do dinheiro cobram para emprestar a prazo mais longo (o que é mais arriscado por vários motivos).

A demanda da dinheirama que financia a ampliação do complexo IA pressiona juros. A promessa de mais gasto com guerra e armas é motivo; o investimento redundante e doméstico em "setores de segurança nacional" também. Pode ser de tudo isso um pouco.

Se os motivos são esses, intervenção do Tesouro não vai conter juros. Especula-se se Kevin Warsh, novo presidente do Fed, tentaria levar o BC deles a entrar no jogo, comprando títulos de longo prazo a fim de achatar juros e salvar o setor privado rico, como o Fed fez nas crises desde 2008 até a pandemia.

Seria contra os planos declarados de Warsh (menos títulos em poder do Fed, mais definições de mercado). É o que propõem economistas de certa esquerda ou admirados por ela no Brasil (que não estão no governo).

Do desastre da crise de 2008 (obra da finança) a 2022, os juros foram anormalmente baixos no mundo rico. Era barato financiar déficit de governo. Não mais. Com taxas mais altas e déficits contínuos, a dívida pública cresce rápido. Parece o Brasil? É. Passou também a ser a conversa nos EUA.

 

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