O Estado de S. Paulo
Se não caminharmos para reformas na política e na Justiça, o desgaste aumentará e o fantasma que ronda o mundo pode reaparecer com força no Brasil
O chanceler da Alemanha disse que ficou chocado com a vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt. No entanto, essa vitória já era prevista pela quase totalidade dos observadores. Aqui, no Brasil, as pessoas parecem chocadas com a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) como se ela fosse um raio em céu azul. No entanto, os contornos dessa crise já se desenhavam há algum tempo. Ela pode ser inédita, mas não inesperada.
Há muitos pontos de reflexão se não nos
detivermos apenas no destino de ministros que se associaram ao banqueiro Daniel
Vorcaro. As coisas não vinham bem no STF a começar pela compreensão de que os
ministros nomeados deveriam ser aliados incondicionais do presidente que os
indica. A indicação política foi contaminada pela polarização. Bolsonaro queria
um ministro terrivelmente evangélico; Lula indicou dois aliados e sua última
indicação foi barrada pelo Congresso. Existe uma tendência a naturalizar escolhas
políticas, em detrimento das condições determinadas pela Constituição. Era de
esperar que o confronto existente na sociedade se espelhasse ali, com todos os
perigos que isso representa.
Não houve reação social à decisão de
ministros de permitirem que seus parentes advogassem na Corte. Em alguns
processos envolvendo bilhões de reais, parentes de mais de um ministro eram os
advogados. De certa forma, essa decisão amplia as rendas familiares de forma
exponencial.
Numa das análises sobre o STF no exterior, um
jornal alemão chegou a dizer que a cobiça tinha arruinado a reputação dos
ministros. Já era uma reação ao contrato entre o Banco Master e a família de
Alexandre de Moraes, um acordo aparentemente com o escritório da mulher de
Moraes, mas no fundo algo que envolvia diretamente o ministro, a julgar pela
troca de mensagens.
Alexandre de Moraes combateu o bolsonarismo.
Os outros ministros o apoiaram, mas deixaram que ele fosse a encarnação da
luta. Era mais cômodo para eles. Também foi mais cômodo para a maioria não se
intrometer nesse processo repressivo corrigindo seus excessos.
Nesse sentido, a experiência moderna do
Brasil não foi muito diferente de outros países. A escritora iraniana Azar
Nafisi conta, em seu livro Leia Perigosamente, que a revolução islâmica foi
muito dura com os seus adversários. Mas ninguém se importava muito, porque
afinal as vítimas eram pessoas com quem não se concordava ou mesmo se
desprezava. Essas soluções nunca dão bons resultados. Em alguns casos, a
repressão se amplia, mas o silêncio de qualquer forma desumaniza aqueles que
deveriam protestar, mas não o fazem.
Escrevi alguns discretos artigos sobre o
tema, lembrando que a generosidade dos vencedores poderia ser um fator decisivo
para abrandar o clima de hostilidade entre os brasileiros. Nos casos em que me
envolvi pessoalmente, como o de uma jovem de Minas, que estava presa, fui
atendido por Moraes, que a libertou imediatamente. Fiquei grato a ele, mas
segui recebendo muitas denúncias.
O clima sempre foi de punição. Moraes era
aplaudido em shows onde as pessoas gritavam “sem anistia”. Vozes que sugeriam
outros caminhos para lidar com o problema tendiam a desaparecer. Esse clima de
apoio ostensivo pode ter estimulado o ministro Moraes a seguir seu caminho em
busca da fortuna material.
Todas essas coisas me vêm à cabeça no momento
em que a extrema direita vence na Saxônia-Anhalt. O Brasil teve uma experiência
de vitória de uma corrente radical em 2018. Bolsonaro fracassou na sua
Presidência, tanto que, ao contrário dos outros, não conseguiu se reeleger.
Era para termos contido essa experiência
radical. Mas ela volta a ser perigosa agora, nas eleições de 2026. Cabe uma
pergunta importante: era para termos superado o problema. Como explicar que ela
volte a aparecer como uma alternativa?
Essa é uma discussão importante.
Infelizmente, não há clima para ela, pois as paixões não permitem dúvidas ou
ambiguidades. Elas são preto e branco.
A vitória sobre Bolsonaro foi vista e
proclamada como uma vitória da democracia. Dentro dos limites, ou até mesmo
estourando os limites financeiros, foram realizadas políticas sociais de peso.
A democracia triunfante em 2022, no entanto, não conseguiu responder à sensação
de desânimo da população. Ela manteve muitos dos erros que deram a vitória a
Bolsonaro.
Poderíamos ter feito de outro modo? Que
mudanças deveriam ser feitas para que o distanciamento entre a política e as
pessoas não fosse tão grande? Que políticas, como a segurança pública,
precisaríamos adotar com seriedade e eficácia para evitar que o mercado
eleitoral fosse inflacionado com imitadores de Bukele?
Tenho ainda uma visão de que a continuidade
triunfará nas eleições, graças à popularidade do candidato e à dispersão e
inexperiência da direita. No entanto, a vitória seria uma espécie de fim de
linha. Se não caminharmos para reformas na política e na Justiça, o desgaste
aumentará e o fantasma que ronda o mundo pode reaparecer com força no Brasil.
Se isso ocorrer, não teremos direito, como o chanceler alemão, de nos considerarmos chocados. Essas coisas não acontecem por acaso e têm uma longa gestação no trabalho incessante dos adversários e nas vacilações do processo democrático.

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