sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A eleição e o Brasil que vira lixo da festa dos quengos de tribunais, finança e política, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Maré de lama pega tanta gente e já é tão confusa que pode parar de afetar votos

No Datafolha, Flávio para de subir; avaliação do governo Lula passa por despiora

Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes viajaram no mesmo jatinho, segundo reportagem da revista Piauí. Bolsonaro disse que não pegou carona em avião de Daniel Vorcaro, mas no de Willer Tomaz, seu amigão de safári e muito mais, acusado de estar enrolado na roubança do INSS. "Desculpe, foi engano", como se dizia ao telefone antigamente. O escândalo seria outro, nos corrige Flávio. O tal avião, enfim, seria de uso compartilhado dos escandalosos, por assim dizer —seria propriedade de sócios, entre eles Vorcaro e Tomaz.

As notícias dessa comunhão dos infernos não pararam por aí, nesta quinta (24) de maré muito alta de lama. A questão mais imediata é o efeito político-eleitoral do conhecimento progressivo do fato de que o Brasil virou lixo da festa dos quengos.

Esta havia sido até agora uma eleição disputada no meio da sujeira que vaza de porões policiais e judiciais, como se sabe. Até certo momento, pareceu que vazamentos e operações policiais poderiam ser decisivos, letais para esse ou aquele candidato. A torrente de lama é tão enorme, porém, além de confusa ou de difícil compreensão, dadas algumas tecnicalidades, que pode parecer para a massa de eleitores que todos sejam sujeira do mesmo saco sem fundo.

No mínimo, as suspeitas cada vez piores sobre metade do Supremo e novas vorcarices não pareciam fazer mais efeito notável nas pesquisas de voto para presidente, até esta quinta. No entanto, a chuva de lama vai ficar mais grossa, vide os vazamentos da irmandade de Davi Alcolumbre com Daniel Vorcaro ou escândalo chegando até o nariz de Kassio Nunes Marques. Não parece exagero suspeitar que se tenha guardado bomba para as vésperas do dia do primeiro turno.

Por enquanto, Flávio Bolsonaro (PL) não se aproxima mais de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na votação de primeiro turno, segundo o Datafolha —o eleitor camuflado ou migrante, porém, costuma despejar votos na extrema direita no final da disputa. A avaliação do governo Lula despiora desde o início de setembro. Embora ainda esteja no vermelho, baixou de 11 pontos negativos para 6 (trata-se da diferença entre as notas "ótimo/bom" e "ruim/péssimo").

Quem sabe seja o primeiro efeito do reajuste do Bolsa Família, que apenas vai cair na conta dos beneficiados a partir de 19 de outubro. O desespero levou Lula a anunciar também a proibição total das "bets", o que pode render décimos cruciais de votos. A providência contra a desgraça da jogatina é vexaminosamente tardia, vai dar em confusão legal e não deve barrar de vez o jogo. Mas o que está em discussão aqui, agora, são os efeitos políticos de medidas e gestos políticos.

Parte do governismo tenta convencer Lula a estender a mão para o microcentro, aquele eleitorado que ajudou a elegê-lo em 2022. Lideranças e pessoas notáveis desse universo fazem apelos públicos e mandam mensagens para a campanha lulista. Esse pessoal detestou Lula 3, mas tem muito medo de Bolsonaro 2. O presidente até agora apenas decidiu jantar com "o PIB", empresários.

Assim como o reajuste de Bolsa Família e proibição de "bets" vieram muito tarde, sintoma de governo alheado da realidade, o alô para o microcentro teria resultado também incerto. Mas, depois de quatro anos de incúria política e erros econômicos, não resta muito mais alternativa.

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