quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A eleição e o dólar, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Até agora, pesquisas de intenção de voto não têm afetado de forma significativa os preços dos ativos

Na ausência de um evento externo, como uma piora no cenário geopolítico ou uma alta antecipada dos juros básicos nos Estados Unidos, muitos analistas apostam que o câmbio deva provavelmente oscilar numa faixa estreita até o desfecho da eleição presidencial brasileira, com a cotação do dólar sendo negociada entre R$ 5,05 e R$ 5,20 na maior parte do tempo.

Isso porque, diante do quadro político atual, os investidores não estão prevendo uma grande surpresa na corrida eleitoral: um pleito bastante polarizado, com ligeira vantagem do presidente Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro. A perspectiva para a eleição presidencial parece tão consolidada – disputa acirrada entre apenas dois candidatos – que o mercado prevê um período de baixa volatilidade no câmbio até o segundo turno, no dia 25 de outubro.

As pesquisas de intenção de voto não têm afetado significativamente os preços dos ativos. Nem semanas atrás, quando Lula aparecia com uma vantagem maior, nem agora, quando a corrida está tecnicamente empatada, após a recuperação recente de Flávio. Talvez a razão seja que os investidores já sabem o que esperar do programa econômico dos dois candidatos. Sob um novo governo Lula, o mercado espera uma política fiscal expansionista, com mais gastos e também uma carga tributária pesada. Já a percepção atual de um eventual governo do senador do PL é a de que haveria um maior controle das despesas públicas.

Com base nesse julgamento prévio dos investidores, ninguém parece disposto a fazer apostas firmes de mais longo prazo para a direção do dólar. Todo mundo vai esperar o resultado da eleição para que o ocupante do Palácio do Planalto divulgue sua equipe ministerial e as primeiras medidas concretas para a economia. Como a piora do risco fiscal do Brasil tem sido acentuada nos últimos meses, diante de uma trajetória adversa do déficit fiscal e da dívida pública, a grande pergunta é: o vencedor do pleito presidencial fará um tão necessário ajuste nas contas públicas assim que assumir o cargo?

Para a corrida eleitoral fazer preço no câmbio seria preciso uma surpresa no discurso de Lula ou de Flávio para a economia. Exemplo: se Lula anunciasse que, num novo mandato, o seu ministro da Fazenda seria alguém como Henrique Meirelles, que foi o presidente do Banco Central no seu primeiro governo. Ninguém espera um anúncio desses.

Parece até contraditório: uma eleição barulhenta, com embates acalorados e hostis entre os eleitores da esquerda e da direita, e ainda assim um comportamento manso do câmbio. Logo o câmbio!

 

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