sábado, 12 de setembro de 2026

A eleição não encerrará a crise, por Murillo de Aragão

Veja

As urnas distribuem poder, mas não corrigem as instituições

Quando escrevo este artigo, faltam 25 dias para o primeiro turno da eleição. Para quem tem telhado de vidro, três semanas podem parecer uma eternidade, sobretudo num ambiente em que revelações constrangedoras surgem quase diariamente e se incorporam à disputa política. Muita coisa ainda pode acontecer até o eleitor chegar à urna.

O que chama atenção não é apenas a exposição dos candidatos presidenciais, mas a dificuldade das instituições para assegurar que o processo eleitoral transcorra dentro do mínimo de normalidade. A disputa de 2026 apresenta, nesse sentido, duas características que a diferenciam das anteriores.

A primeira é a entrada explícita da geopolítica na campanha. O tarifaço de Donald Trump, os movimentos do bolsonarismo nos EUA e um cenário internacional tumultuado transformaram questões externas em componentes da disputa doméstica.

A segunda novidade talvez seja ainda mais relevante: o STF tornou-se questão eleitoral. No 7 de Setembro, Flávio Bolsonaro afirmou que quem votar em Lula estará votando em Alexandre de Moraes. Um ministro do Supremo passou a ser apresentado como razão para votar ou deixar de votar em determinado candidato à Presidência. A judicialização da política e a politização da Justiça não são fenômenos recentes. O que parece novo é o estágio no qual a atuação de ministros da Corte ingressa diretamente no cálculo eleitoral.

“Chama atenção a dificuldade para assegurar que o processo transcorra dentro da normalidade”

Surge daí uma situação paradoxal. Decisões destinadas, em tese, a proteger a ordem institucional podem produzir efeitos políticos favoráveis justamente aos que se apresentam como adversários do Supremo. Com provocação, pode-se dizer que Alexandre de Moraes corre o risco de transformar-se involuntariamente em cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro, porque suas decisões passaram a integrar a narrativa utilizada pela oposição para mobilizar eleitores.

O problema mais grave está além dos candidatos. As instituições e seus líderes demonstram dificuldade para processar, dentro de uma dinâmica constitucional rápida e previsível, crises como as do INSS e do Banco Master. Há autoridades mencionadas, agentes privados investigados e fatos que exigem esclarecimento, mas predomina a impressão de lentidão e paralisia.

Cria-se a impressão de que parte do sistema prefere esperar para ver como fica após a eleição. Questões graves avançam em ritmo de samba-­canção enquanto todos observam as pesquisas e calculam o cenário posterior às urnas. É uma situação perigosa, porque instituições não deveriam funcionar de acordo com conveniências eleitorais. Em menos de um mês, o Brasil conhecerá uma nova composição do Congresso e saberá quais forças disputarão o segundo turno presidencial.

A correlação política poderá mudar substancialmente. O que dificilmente acontecerá é a eleição, por si só, resolver a crise institucional. As urnas distribuem poder e conferem legitimidade aos eleitos, mas não corrigem instituições que perderam capacidade de funcionar com previsibilidade, equilíbrio e respeito aos próprios limites. A eleição poderá encerrar uma campanha. Não encerrará a crise. Talvez seja depois das urnas que o problema institucional revelará a sua verdadeira dimensão.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012

Nenhum comentário:

Postar um comentário