sábado, 12 de setembro de 2026

Presenças Impróprias e Ausências Lastimáveis, por Elimar Nascimento *

Revista Será?

Outra vez a nação está atolada no lodaçal dos malfeitos. O escândalo do Banco Master atingiu um novo patamar. O envolvimento de juízes, procuradores, senadores, deputados, ministros, burocratas e governadores ganha contornos mais nítidos. A sensação é de que meio mundo se locupletou. Daniel Vorcaro é um astro. Ninguém conseguiu tanto. Nenhum escândalo neste século envolveu tanto dinheiro e tantas autoridades públicas. A OAB e o presidente da República pedem que todas as investigações se tornem públicas e que cesse a quebra seletiva de sigilo, como a promovida pelo ministro André Mendonça. O presidente do STF, ministro Fachin, tem diante de si um desafio que jamais imaginou.

O escândalo do Banco Master tem muitos efeitos, nem todos ainda claros. Um desses efeitos, decorrente dos últimos acontecimentos, é que a disputa eleitoral saiu da campanha, das ruas e das mídias e ganhou um novo locus. Agora, por incrível que pareça, o teatro é o STF. E cada personagem desse teatro age em função de seus interesses: pessoais e eleitorais, de poder e do vil metal. É uma consequência clara do crescente protagonismo da Alta Corte no processo político.

A divulgação do relatório de investigação da Polícia Federal sobre os telefonemas de Vorcaro mostrou o ministro Alexandre de Moraes como conselheiro do malfeitor. As intenções do ministro André Mendonça, relator do processo, parecem ser duas (podem existir outras): a primeira, contribuir para a eleição de seu candidato, Flávio Bolsonaro, e para o fortalecimento da extrema direita no Senado; a segunda, contribuir para anular o processo que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro, que o indicou ao STF, e propiciar o impeachment de seu “inimigo” na Corte.

Por sua vez, a reação de Moraes, pego em flagrante como conselheiro do malfeitor, parece visar à nulidade do processo do Banco Master, para que ele se salve das penalidades. Vorcaro não vai deixar de agradecer, assim como Ibaneis, Ciro Nogueira, Jaques Wagner e os demais citados nas investigações em curso. Reza a lenda que boa parte dos ministros do STF está torcendo para que isso aconteça; pelo menos cinco já foram citados.

Se um dos efeitos do escândalo do Banco Master foi criar uma nova arena de disputa eleitoral, outro foi aumentar a despolitização. Não se discutem propostas; no máximo, promessas, muitas de caráter populista.

As questões estratégicas do desenvolvimento do país caem no esquecimento. Se já não estavam presentes na campanha eleitoral, agora menos ainda.

Praticamente ninguém fala do ajuste das contas públicas e, se o faz, é de forma genérica e pueril. Sem esse ajuste, estaremos condenados a um crescimento econômico medíocre.

Sobre a educação de qualidade para todas e todos paira um silêncio criminoso. Nos últimos resultados do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (PISA), recentemente publicados, o Brasil mantém o 67º lugar, na mesma posição do Líbano. Ficou na 71ª posição em matemática e na 52ª em leitura. Em ciências, manteve o 67º lugar, atrás do Uruguai, do Chile, do México, da Costa Rica, do Peru e da Colômbia. Com a educação lastimável que temos, não haverá futuro na sociedade do conhecimento que se ergue diante de nós.

E, finalmente, ninguém se pronuncia sobre a crise ecológica que vivemos nem sobre as mudanças climáticas que nos ameaçam.

Um dia desses, a TV do Senado me entrevistou a respeito das propostas para o próximo presidente sobre a “questão ambiental”. Arrependo-me de não ter começado dizendo que não existe essa questão; o que existe é uma questão civilizacional. Ou mudamos nossa forma de produzir e nosso padrão de consumo, ou as aquisições civilizacionais podem ir para as calendas gregas. Caminhamos para um desastre que os reacionários negam e a população, incluindo os políticos, ignora.

Desculpem-me a conclusão: não caminhamos rumo ao futuro; chafurdamos no lodaçal do presente. Pena. E corremos o risco de retroceder.

*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

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