O Estado de S. Paulo
O próximo governo terá de enfrentar de imediato após as eleições temas sensíveis de política externa
Política externa nunca foi tema relevante nas
campanhas para eleições presidenciais. Os temas sociais e econômicos, a
violência e a corrupção sempre estiveram em primeiro plano nos programas de
governo, na publicidade midiática e nos debates públicos. Agora, pela primeira
vez, os temas externos, relacionados a questões internas, fazem parte das
preocupações dos candidatos e dos eleitores.
A diplomacia no século 21, a partir de um mundo em grande transformação, deixou de ter uma função de superação de dificuldades e de conflitos. Os princípios e valores que informaram as preocupações diplomáticas nas últimas décadas foram substituídos, na principal potência global, por seus interesses econômicos e políticos e são representados por pessoas que não fazem parte do governo e algumas que nem são funcionárias de Estado. Poder por meio da força é a palavra de ordem.
Nos últimos 30 anos, a diplomacia brasileira
vem perdendo espaço no contexto dos sucessivos governos por razões de política
interna e de mudanças externas. Internamente, emergiu uma tecnocracia que
passou a representar interesses setoriais no exterior, como a área econômica, o
setor agrícola, o de defesa e o de polícia. Externamente, o mundo se
transformou pela rapidez da informação, pela facilidade dos contatos entre
chefes de Estado com conversas e encontros frequentes.
Nos últimos 20 anos, um novo elemento
contribuiu para o esvaziamento do Itamaraty: a politização e a partidarização
da política externa e a atração de lealdades ao presidente, ao ministro e às
ideias por eles defendidas. Essa tendência vem acompanhada pela redução de
recursos orçamentários e de crescentes dificuldades enfrentadas pelos
diplomatas em termos de fluxo de carreira que tornaram o seu trabalho mais
difícil e suas funções diplomáticas mais burocráticas e menos estimulantes para
o desempenho de suas missões. Exemplos recentes desse esvaziamento político são
a dualidade de funções entre a assessoria presidencial e o ministro do
Exterior, a perda da coordenação das negociações internas nas áreas de comércio
exterior, meio ambiente e agendas multilaterais (direitos humanos, energia,
costumes, gênero e outras).
Como uma das dez maiores economias do mundo,
impõese ao futuro governo uma visão estratégica e um programa de governo que
represente um conjunto de ações concretas e de prioridades econômicas,
políticas e sociais para os próximos quatro anos e a médio prazo, para a
segurança econômica e a consolidação do lugar do Brasil no mundo como uma
potência média regional e um ator relevante em questões globais, como a
política ambiental e mudança do clima, a segurança alimentar, a transição
energética justa e minerais críticos – para a incorporação de avanços
tecnológicos –, a atração de investimentos produtivos e a expansão do comércio
exterior. Deve ser reconhecido, porém, que o Brasil, apesar da retórica, não
dispõe de excedente de poder para influir em outros temas sensíveis globais,
como guerras, revigoramento do multilateralismo e disputas hegemônicas.
É preocupante que pouco tenha sido discutido,
em termos de política externa, no curso do debate eleitoral. A interferência
dos EUA nas eleições com sucessivas declarações críticas do governo brasileiro,
sobretudo se o resultado das urnas mostrar uma diferença muito reduzida, pode
abrir a possibilidade de contestação dos resultados dentro e fora do País. A
resposta do governo Lula tem sido firme, especialmente com a divulgação do
documento norte-americano de 21 demandas nas negociações sobre tarifas e a
refutação da crítica quanto a não confrontação do crime organizado. A
Estratégia de Segurança Nacional de Washington e a nova prioridade da política
externa norteamericana sobre a América Latina, em que os EUA pretendem exercer
forte influência e domínio, coloca grandes desafios para o Brasil. Tanto Lula
quanto o chanceler Mauro Vieira fizeram pronunciamentos públicos dizendo que,
na defesa da soberania, o Brasil não vai se curvar e que não vai aceitar
ingerência em assuntos internos nacionais, refletindo tradicional posição do PT
contra os EUA.
O candidato de oposição enviou carta a Marco
Rubio em que, entre outros temas, diz que se ganhar a eleição, pretende, no
período de transição, formar um grupo de trabalho com o governo de Washington
para examinar a ampliação da cooperação bilateral, demonstrando forte tendência
ideológica, com alinhamento automático aos EUA.
O próximo governo terá de enfrentar de imediato após as eleições temas sensíveis de política externa. O contencioso comercial e os atritos políticos e diplomáticos com os EUA estarão no topo da agenda. A questão do combate ao crime organizado e as ameaças de interferência no combate às organizações terroristas, a regulamentação das big techs, tanto pelo Executivo quanto pelo Supremo Tribunal Federal (STF). À luz do novo marco regulatório, como ficará a compra de empresa brasileira, de capital externo, Serra Verde, produtora de minerais críticos, por consórcio norteamericano, integrado pelo Pentágono. E, dependendo do resultado da eleição, a criação, durante a transição, de grupo de trabalho com o governo de Washington. São questões que afetam diretamente os interesses brasileiros e ameaçam a soberania nacional.

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