quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ainda há uma alternativa ao caos global, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Há dez anos, Guterres assumia a secretaria-geral da ONU, e a vitória de Trump nas eleições dos EUA era improvável

Mundo de hoje é o de Putin, Netanyahu e outros genocidas; as Nações Unidas acabaram por se resumir a papel defensivo

Em novembro de 2016, em Nova York, fui à Assembleia Geral das Nações Unidas para assistir à eleição oficial de António Guterres como secretário-geral da ONU. A decisão já vinha encaminhada do Conselho de Segurança mas, ainda assim, o ambiente era de expectativa.

Num banco a poucos metros de mim, Samantha Power, então embaixadora dos Estados Unidos, rascunhava o seu discurso para a ocasião, em que falou de Timor-Leste e do malogrado diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Outros representantes falaram da reforma da instituição, de direitos humanos ou dos objetivos de desenvolvimento do milênio.

Era outro mundo. Poucos dias depois, fui ao Museu de História Natural da cidade, onde um especialista em estatística garantia que Hillary Clinton seria eleita presidente dos EUA. Sendo assim, caberia a ela nomear para a Suprema Corte o substituto (ou substituta) do juiz conservador Antonin Scalia.

Falava-se da possibilidade de que essa nova composição, mais progressista, pudesse vir a aplicar uma moratória federal na pena de morte. O ambiente na cidade era de otimismo. Cinco sedes de campanha de Hillary distribuíam ingressos para o que imaginavam ser a sua festa de vitória. Tentei também, por interesse histórico, conseguir bilhetes para a festa de Donald Trump; mas foi impossível, a própria campanha parecia não acreditar na sua vitória.

Na verdade, não acreditei. Como europeísta, tinha vivido a fundo a história do referendo do brexit e da surpresa da vitória de última hora, no fio da navalha, da opção de saída da União Europeia, que então todos julgavam impossível. A partir daí, a minha atitude perante a história da nossa última década foi sempre de "otimismo trágico": a cada passo esperando o pior e tentando dele extrair algum sentido.

Quer isso dizer que houve ali uma bifurcação na história. O planeta para que foi eleito António Guterres, e no qual ele teria sido um extraordinário secretário-geral, não é o mundo que aconteceu na prática. Este é o mundo de Vladimir Putin, Binyamin Netanyahu e outros genocidas. As Nações Unidas acabaram por se resumir a um papel defensivo.

E agora? A comparação com outros ciclos históricos sugere-me que o pior ainda está para vir. Afinal, estamos ainda nos anos 20. É nos anos 30 que as piores tragédias acontecem.

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