O Globo
A pouco dias da eleição, as pesquisas mostram
dois candidatos à presidência empatados, mas com os blocos de eleitores se
movendo
Dentro de cinco dias estaremos diante da urna
eletrônica e o que a democracia nos oferece é uma enorme avenida. Escolher o
próximo presidente, renovar dois terços do Senado, eleger os deputados da
Câmara Federal, das assembleias legislativas e os governadores. Com a campanha
curta, e drenada por temas estranhos à natureza da escolha, as pesquisas nos
mostram um país em que dois candidatos ao Planalto estão empatados, mas com
blocos de eleitores se movendo. A pesquisa Quaest, encomendada por este jornal,
traz informações relevantes, só que ainda há muitas dúvidas.
A sondagem foi melhor para Lula do que para Flávio Bolsonaro em dois pontos cruciais. Aumentou de 5 para 11 pontos percentuais a vantagem de Lula sobre Flávio no eleitorado feminino. Eu disse aqui, colunas atrás, que o presidente estava perdendo essa dianteira no eleitorado feminino, e as mulheres foram decisivas na vitória de Lula em 2022. Isso se reverteu. Outra boa notícia para Lula é a redução da distância que ele estava de Flávio Bolsonaro na região Sudeste, que concentra 42% do eleitorado brasileiro e tem os três maiores colégios eleitorais do Brasil, São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. A diferença há uma semana era de seis pontos, agora caiu para dois: 35% para o candidato do PL, 33% para o petista.
A religião dominou o debate nos últimos dias,
com Nossa Senhora Aparecida no centro da controvérsia. A acusação do senador
Flávio Bolsonaro de que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tivera
participação no boato reacendeu a polêmica que já estava perdendo a força no
final do domingo. Não era verdade a informação que incendiou as redes sobre a
destituição de Aparecida como padroeira do Brasil, mas a acusação à CNBB também
não tinha fundamento. “Não se combate uma mentira com outra mentira”, disseram
os bispos.
Na pesquisa, subiu de 43% para 48% a intenção
de votos em Lula entre os católicos. Nos evangélicos, Lula subiu quatro pontos,
de 23% para 27%, e Flávio Bolsonaro caiu de 49% para 46%. O campo da pesquisa
foi feito de sexta a domingo. Traz parte do reflexo dessa briga religiosa.
O que espanta é o desinteresse numa eleição
tão decisiva para definir o Executivo e o Legislativo dos próximos anos. E, de
certa forma, o Judiciário. Na pesquisa espontânea, 31% estão ainda indecisos
sobre o voto para presidente, 23% se dizem nada interessados nas eleições. O
voto nulo e branco é alto. Ainda podem mudar o voto, 16% dos que disseram ter a
intenção de votar em Lula, 19% dos que escolheram Flávio Bolsonaro, 35% dos
eleitores de Caiado, 47% dos de Augusto Cury e 40% de Renan Santos.
Há um menor engajamento nesta eleição. Talvez
isso se explique pelo fato de as taxas de rejeição dos dois principais
candidatos terem estado consistentemente acima de 50% durante os últimos meses.
Talvez pelo fato de essa campanha ter sido engolida pela crise do Supremo
Tribunal Federal e pelo escândalo do banqueiro trambiqueiro, hoje preso, Daniel
Vorcaro. Para complicar, nos últimos dias uma batalha religiosa instaurou-se
nas redes e nas campanhas.
O eleitor tem preocupações, a vida do país
tem emergências, há perigos reais no horizonte do Brasil, e esta campanha será
conhecida como a que mais fugiu da discussão de propostas e projetos de
governo.
O debate da Globo, marcado para a próxima
quinta, ficou ainda mais relevante. Claro que todos criticarão o presidente
Lula, mas qualquer incumbente é sempre o alvo preferencial nos debates. Se
comparecer, será a chance de Lula apresentar o que fez em quatro anos e em nome
do que está pedindo mais quatro. A campanha de Flávio Bolsonaro é um deserto de
ideias. A de Lula também, porém tem a seu favor os resultados de três governos
e de uma longa vida política. Flávio Bolsonaro é um senador sem projetos e sem
relatorias. Não tem uma biografia parlamentar relevante. Na pesquisa, 52% dos
entrevistados disseram que Lula é que ganhará a eleição, e 32% disseram que é
Flávio Bolsonaro.
Cada pesquisa, seja de que instituto for,
traz uma coleção de números mostrando evoluções por dentro dos grupos e das
regiões, ainda que a disputa permaneça tão empatada quanto estava em abril.
Haverá emoção até o final. Muito provavelmente, a disputa presidencial terminará
só no segundo turno. Do voto deste domingo sairá a composição da Câmara e de
dois terços do Senado. Não é pouco o que decidiremos dentro de alguns dias.

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