terça-feira, 29 de setembro de 2026

Dias finais, por Merval Pereira

O Globo

O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos na guerra religiosa, que nunca foi parte das campanhas políticas.

Os últimos dias de campanha trazem novas discussões, mais debates estéreis, mas nada de propostas para o futuro do país. Discute-se se o voto útil funcionará para evitar um segundo turno — parece improvável — ou se Nossa Senhora Aparecida deixará de ser a padroeira do Brasil. Perde-se tempo numa guerra religiosa que não deveria nem ser cogitada, quanto mais disputada. O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos nesse tipo de embate, que nunca foi parte das campanhas políticas, a não ser em casos pontuais e não institucionais.

O país é laico, mas não é imune a mentiras grosseiras. Por isso, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), não deveria ter se intrometido, à custa de um desvio jurídico, para, a pretexto de defender a liberdade de expressão, defender, na verdade, a difusão de notícias falsas. Um ministro do Supremo interferir em decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é sinal claro de que a disputa pelo poder está aberta. Quantas notícias menos prejudiciais como essa foram retiradas do ar pelo famoso inquérito das fake news nos últimos sete anos?

A exibição do lado eleitoral das decisões dos ministros dos tribunais superiores era suposta, mas não tão explícita como agora. E tem deixado a sociedade descrente da Justiça. Pior ainda, transforma as decisões monocráticas dos ministros do STF em parte da campanha. A cada decisão do ministro tal, o outro lado espera resposta do ministro qual, a ponto de o STF ter passado a fazer parte da campanha, com dois grupos se digladiando em público.

A disputa da eleição presidencial está e será acirradíssima. Tudo indica que movimentações internas nas pesquisas mostram avanços de Lula, mas em alguns setores ele perde, e Flávio avança. No final das contas, fica tudo empatado.

O debate da Globo poderá ser definitivo. Flávio já disse que vai e desafiou Lula, ainda em dúvida. A eleição está muito apertada para ele abrir mão da possibilidade de exposição no horário nobre da Globo. Ficará mal para ele se não for. Será uma admissão de fraqueza, e o debate pode definir o empate do segundo turno. Tudo indica que ele está achando um absurdo ter de disputar e debater com Flávio. Está surpreso com a pontuação dele nas pesquisas. Isso abala muito quem tem uma vida política exitosa e não entende por que não está com posição mais tranquila do que aparece nas pesquisas.

Lula indiscutivelmente é um dos grandes líderes populares do Brasil. Chega ao final da carreira política, aos 80 anos, desafiado pelo filho do adversário, que não tem nenhuma história política para justificar essa posição. É o fantasma do pai de Flávio que disputa a eleição; não o próprio Flávio. E essa é a diferença. O grupo político petista acha que Lula não deve ir, porque será atacado por todos os lados pelos outros concorrentes, todos potenciais aliados de Flávio no segundo turno. Mas a participação no debate foi decidida pelas regras do TSE, não há como mudá-las.

Além do mais, se a esquerda tem apenas Lula como representante, essa é uma limitação imposta pela própria política eleitoral do PT, que não compreende uma aliança alargada para a centro-direita. Só quando subordinada ao petismo. Por isso a propalada união nacional proposta na eleição de 2022 por Lula não se realizou. A direita, em contrapartida, deu um exemplo de unidade em São Paulo, com a retirada da candidatura do ex-ministro bolsonarista Ricardo Salles ao Senado, para possibilitar que as duas vagas em disputa sejam ocupadas por seus candidatos.

 

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