Folha de S. Paulo
Desgosto antissistêmico, que vem desde 2013,
piora com notícias de crime no poder
Mais dificuldades na economia, corrupção e
tolerância com autocratas são alerta
O Brasil prepara a cama para quem venha a
tentar uma solução autoritária? Para um autocrata eleito pela coalizão dos
desesperados com os espertos do status quo?
Imagine-se uma situação em que seja extensa a sensação de baderna e descontrole, de expansão do crime e de ameaça a valores que constituem a identidade de seu grupo; um ambiente de notícias de corrupção, de padecimento socioeconômico e de cinismo em relação ao sistema de governo, sentimentos então exacerbados por pânicos político-morais manejados de modo a dar sentido a tudo isso.
Em escala menor, havia ingredientes dessa
lista entre os mal-estares que precederam a revolta de
2013. Nenhum grupo político deu consequência imediata às
insatisfações de então, de resto voltadas contra os partidos que estavam ali.
No entanto, passou a se organizar um movimento que viria a se valer do desgosto
antissistêmico, aprofundado pela Grande
Recessão. Tal movimento chegou ao poder em 2018, com Jair
Bolsonaro. Desde então conta com o apoio de um terço a metade do
eleitorado.
O risco de autoritarismo vai além daquele
representado pela candidatura de Flávio
Bolsonaro (PL),
que em parte se baseia na ideia de restauração de Bolsonaro 1 e, pois, de negação de
que houve tentativa de golpe e de afirmação do plano de controlar
instituições como polícia e Justiça. Além disso, tal candidatura elogia
autocratas, de Bukele
a Orban,
passando por Trump,
ou a eles se associam.
Para certos grupos sociais, o bolsonarismo
seria apenas um Cavalo de Troia no qual galopariam para defender reformas ou
interesses econômicos —em vez de cavalcantes, podem ser cavalgados. Não é
destino. Graças, artimanhas e reconfigurações da política e até do ambiente
econômico podem dar em resultados diversos. Mas o campo arruinado está aberto
para aventuras políticas diversas.
O Supremo,
quase metade sob suspeita de corrupção, está dividido entre grupos
que disputam a maioria de votos pelo poder de controlar a política, seus
acordões, favores empresariais e o que passa por Justiça —o conflito vai além
desta eleição. A disputa eleitoral de 2026 também é corrida para subverter
ainda mais o STF.
O crime das facções entranhou-se no poder em
estados como o Rio de Janeiro e infiltra-se em cidades como São Paulo. Domina a
amazônia, aproveitando-se da destruição, e por ali também organiza a empresa
bandida (associada a empresas "legais") de drogas, armas, minérios,
gado e madeira.
Entrincheirou-se
nos combustíveis e tem domínios na
finança, a mesma que administra o dinheiro da corrupção política e
empresarial. O Congresso é disputa de feudos para a apropriação de recursos
estatais a fim de eternizar dinastias e grupos políticos, empresariais ou
puramente criminais. A facilidade com que Daniel
Vorcaro comprou a elite no poder reforça a ideia de que o comércio
político seja ainda mais extenso.
O país passará
no mínimo por um período de dificuldades econômicas. Parte da
solução do problema envolve a disputa mais acirrada pelo Orçamento —no curto
prazo, perdas e ganhos, embora vá muito além disso, o que a desinformada
esquerda não entende. O cinismo ou a revolta em relação ao sistema político não
vai diminuir em tempos de dureza econômica e instituições destruídas. Diante da
paisagem arruinada e do conflito sociopolítico, a ideia de solução autocrática
pode atrair adeptos das piores intenções ou das piores ilusões.
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