domingo, 20 de setembro de 2026

Brasil de instituições em ruína e mal-estar econômico facilita projetos autoritários, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Desgosto antissistêmico, que vem desde 2013, piora com notícias de crime no poder

Mais dificuldades na economia, corrupção e tolerância com autocratas são alerta

O Brasil prepara a cama para quem venha a tentar uma solução autoritária? Para um autocrata eleito pela coalizão dos desesperados com os espertos do status quo?

Imagine-se uma situação em que seja extensa a sensação de baderna e descontrole, de expansão do crime e de ameaça a valores que constituem a identidade de seu grupo; um ambiente de notícias de corrupção, de padecimento socioeconômico e de cinismo em relação ao sistema de governo, sentimentos então exacerbados por pânicos político-morais manejados de modo a dar sentido a tudo isso.

Em escala menor, havia ingredientes dessa lista entre os mal-estares que precederam a revolta de 2013. Nenhum grupo político deu consequência imediata às insatisfações de então, de resto voltadas contra os partidos que estavam ali. No entanto, passou a se organizar um movimento que viria a se valer do desgosto antissistêmico, aprofundado pela Grande Recessão. Tal movimento chegou ao poder em 2018, com Jair Bolsonaro. Desde então conta com o apoio de um terço a metade do eleitorado.

O risco de autoritarismo vai além daquele representado pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que em parte se baseia na ideia de restauração de Bolsonaro 1 e, pois, de negação de que houve tentativa de golpe e de afirmação do plano de controlar instituições como polícia e Justiça. Além disso, tal candidatura elogia autocratas, de Bukele a Orban, passando por Trump, ou a eles se associam.

Para certos grupos sociais, o bolsonarismo seria apenas um Cavalo de Troia no qual galopariam para defender reformas ou interesses econômicos —em vez de cavalcantes, podem ser cavalgados. Não é destino. Graças, artimanhas e reconfigurações da política e até do ambiente econômico podem dar em resultados diversos. Mas o campo arruinado está aberto para aventuras políticas diversas.

O Supremo, quase metade sob suspeita de corrupção, está dividido entre grupos que disputam a maioria de votos pelo poder de controlar a política, seus acordões, favores empresariais e o que passa por Justiça —o conflito vai além desta eleição. A disputa eleitoral de 2026 também é corrida para subverter ainda mais o STF.

O crime das facções entranhou-se no poder em estados como o Rio de Janeiro e infiltra-se em cidades como São Paulo. Domina a amazônia, aproveitando-se da destruição, e por ali também organiza a empresa bandida (associada a empresas "legais") de drogas, armas, minérios, gado e madeira.

Entrincheirou-se nos combustíveis e tem domínios na finança, a mesma que administra o dinheiro da corrupção política e empresarial. O Congresso é disputa de feudos para a apropriação de recursos estatais a fim de eternizar dinastias e grupos políticos, empresariais ou puramente criminais. A facilidade com que Daniel Vorcaro comprou a elite no poder reforça a ideia de que o comércio político seja ainda mais extenso.

O país passará no mínimo por um período de dificuldades econômicas. Parte da solução do problema envolve a disputa mais acirrada pelo Orçamento —no curto prazo, perdas e ganhos, embora vá muito além disso, o que a desinformada esquerda não entende. O cinismo ou a revolta em relação ao sistema político não vai diminuir em tempos de dureza econômica e instituições destruídas. Diante da paisagem arruinada e do conflito sociopolítico, a ideia de solução autocrática pode atrair adeptos das piores intenções ou das piores ilusões.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário