terça-feira, 15 de setembro de 2026

Briga no escuro, por Merval Pereira

O Globo

Fachin terá de ter muito pulso para dirigir a sessão hoje, porque ainda haverá várias tentativas de adiamento

A diversificação de ações para tentar adiar a sessão que deve começar hoje de manhã no Supremo Tribunal Federal (STF) demonstra que o grupo que apoia o ministro Alexandre de Moraes receia perder a parada e está disposto a uma briga de foice no escuro, à Tarantino. O ministro Gilmar Mendes já avisou:

— Quem não gosta de pisão não vai ao bailão.

O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, mostra-se firme na decisão de realizá-la e, como será o primeiro a votar, dará o rumo do debate, tanto limitando-o ao tema único de hoje, o pedido de investigação de Moraes, quanto determinando a melhor maneira de preservar a instituição máxima da nossa Justiça e, por tabela, da própria democracia brasileira. Os que se gabavam de ter salvado a democracia durante a tentativa de golpe do bolsonarismo e suas consequências hoje põem em risco o que consideram ter salvado, pois o poder que ganharam no correr dos tempos fez o que os deuses já previam e os homens definiram na História: poder em excesso corrompe completamente.

No STF, o grupo que tenta não realizar a votação hoje manobra para adiar a sessão com várias artimanhas. Uma delas seria algum ministro pedir vista, o que adiaria a decisão em até 90 dias, depois da eleição, portanto. Mas há um movimento de antecipar o voto, da turma a favor da investigação de Moraes. Se isso acontecer, e ficar firmada a maioria, serão 90 dias com ele já marcado, embora os ministros ainda possam mudar de votos nesse período. Moralmente, será uma condenação, com a presença de ex-ministros e ex-presidentes do STF que querem a investigação.

Fachin terá de ter muito pulso para dirigir a sessão hoje, porque ainda haverá várias tentativas de adiamento. O caso Master em si não tem influído na decisão do eleitor na hora de escolher seu candidato à Presidência, como mostra a recente pesquisa da Quaest, mas inflama a militância da direita e os bolsonaristas. O reflexo pode estar na primeira vez em que Flávio Bolsonaro ultrapassa numericamente Lula no segundo turno, ainda que em empate técnico.

É sinal de que a disputa continua acirradíssima. Tudo indica que será assim até o final, como em 2022. Os outros candidatos ficaram na poeira. Pela mudança apontada no segundo turno, podemos ver que a tendência da maior parte dos votos dos outros candidatos é ir para Flávio. Lula perdeu muito apoio dos independentes, que votaram nele em 2022, porque não cumpriu a promessa de união nacional. Flávio tem conquistado a maioria dos votos desse grupo e está com votação forte no Sudeste, região com maior número de eleitores. A tendência no momento é a favor de Flavio, mas a diferença é muito pequena, um empate técnico que permanece há algumas semanas.

Neste momento o candidato oposicionista avança sobre nichos eleitorais que já foram majoritários em favor de Lula: mulheres, Sudeste, independentes. Ficaram também reduzidas as escolhas do presidente em setores em que ainda é majoritário, sugerindo perda de tração às vésperas da eleição. No Sudeste, maior região eleitoral do país, onde estão os três maiores eleitorados (São Paulo, Minas e Rio), Flávio abriu 16 pontos sobre Lula.

A abertura, pelo ministro Flávio Dino, do sigilo da investigação sobre o filme “Dark horse”, hagiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, pode trazer novos dados que prejudiquem a campanha oposicionista, mas o que realmente poderia mudar a tendência seria provar que o dinheiro de Vorcaro sustenta a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

 

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