Folha de S. Paulo
Sucessão de decisões extravagantes mostra
falta de confiança no presidente da corte
Ministros investem contra adversários antes de responder a questionamentos de Fachin
O comportamento estratégico dos integrantes
do Supremo Tribunal
Federal tem contribuído para aprofundar a crise
em que a corte mergulhou, minando os esforços que o ministro Edson Fachin fez
nos últimos dias para encontrar uma solução que possa obter apoio do colegiado.
A sucessão de decisões individuais extravagantes dos ministros em guerra aberta mostra que nenhum deles confia na capacidade do presidente do tribunal de gerir a crise. Todos tentam se antecipar aos seus movimentos e arregimentar aliados para prevalecer sobre os adversários.
O ministro André
Mendonça alertou Fachin para o que estava por vir após receber o
relatório da Polícia
Federal sobre o relacionamento do ministro Alexandre
de Moraes com o banqueiro Daniel
Vorcaro, mas atropelou o presidente da corte ao divulgar a papelada no dia
seguinte.
Mendonça tinha a opção de manter o relatório
sob sigilo até que o plenário tivesse condições de analisá-lo e deliberar sobre
os próximos passos, mas preferiu torná-lo público antes, para evitar que um
conchavo engavetasse tudo para proteger Moraes de novos constrangimentos.
Ao agir assim, Mendonça contrariou a si
mesmo. Em março, quando a PF entregou a Fachin um relatório sobre os negócios
do ministro Dias Toffoli com
o Banco
Master e o colegiado discutiu seu afastamento do caso, a portas
fechadas, Mendonça alinhou-se aos defensores de Toffoli.
Desta vez, Fachin demorou dois dias para
reagir. Anunciou que levaria o caso de Moraes ao plenário do tribunal, mas
antes pediu
explicações aos dois ministros beligerantes, à PF e à Procuradoria-Geral da
República, dando a todos cinco dias úteis de prazo para responder.
Ninguém esperou o feriado para a cabeça
esfriar. No mesmo dia, Moraes
divulgou os relatórios de inteligência da polícia que lançam suspeitas
sobre a conduta de Mendonça à frente do caso Master e de outras investigações e
os encaminhou a Fachin para que tomasse providências.
Moraes requisitou os informes da PF horas
depois da divulgação do relatório sobre seus contatos com Vorcaro. Para
justificar a ordem à polícia, no âmbito do inquérito das fake news, disse
apenas que recebera notícias sobre a existência dos informes, sem dizer onde
nem como.
Se Fachin esperava ganhar tempo para
articular uma saída para a crise, suas esperanças foram por água abaixo em
poucas horas. Moraes, que ainda não prestou esclarecimentos sobre a natureza de
suas relações com o ex-dono do Master, preferiu retaliar Mendonça antes.
Fachin pediu que Mendonça e a
Procuradoria-Geral da República se manifestassem sobre os informes policiais
divulgados por Moraes, abrindo outro prazo de cinco dias para responderem.
Mendonça decidiu agir por conta própria e mandou
afastar Andrei Rodrigues da direção-geral da PF.
Ao fazê-lo, Mendonça respondeu a uma petição
do Partido
Novo, que pedia a prisão preventiva do delegado. O ministro podia ter
simplesmente ignorado o pedido, argumentando que a sigla não tinha legitimidade
para se meter no caso, mas preferiu usá-lo como pretexto para nova investida.
Mendonça submeteu sua decisão ao crivo da
Segunda Turma do tribunal, certo de que tinha os votos necessários para
referendá-la. Em questão de minutos, os ministros Luiz Fux e Kassio
Nunes Marques apoiaram o colega, e Gilmar Mendes entrou
em campo para suspender o julgamento.
A Advocacia-Geral da União recorreu a Fachin
contra a decisão de Mendonça. O presidente da corte pediu que Mendonça se
manifestasse, agora com três dias de prazo. Quem não esperou desta vez
foi Flávio
Dino, que, despachando em outro processo, restituiu o cargo a Andrei
Rodrigues.
Horas depois, Fachin pôs a bola no chão.
Suspendeu as decisões de Mendonça e Dino, mantendo Rodrigues na direção da PF,
retirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news e marcou o julgamento
do seu caso para o dia 15. O tempo dirá se assim conseguirá conter o tumulto e
as intrigas na corte.
Como os prazos estabelecidos por Fachin ainda
estão correndo, nenhum dos envolvidos na refrega apresentou os esclarecimentos
que o presidente do tribunal pediu. Todos preferiram usar seus poderes
individuais para desgastar os adversários, minando a autoridade de Fachin e o
deixando sem outra saída.

Um bom resumo!
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