Folha de S. Paulo
Campanha de Douglas Ruas aposta na omissão do
passado e na memória curta do eleitor
Infiltração do crime organizado nas
estruturas de poder é resistente no Rio de Janeiro
Desvincular-se ou esconder antigos aliados e
chefes políticos é um truque das campanhas eleitorais que apostam na omissão do
passado. No Rio de Janeiro, a amnésia é geral.
Candidato bolsonarista ao Palácio Guanabara, Douglas Ruas praticamente apagou do currículo os dois anos à frente da Secretaria de Cidades, investigada pelo aumento de R$ 45 milhões no valor de um contrato, o dobro do limite legal. Ruas dá a impressão de sequer ter conhecido Cláudio Castro, que renunciou para não ser cassado e enfrenta acusações de corrupção e desvio de dinheiro, com a Polícia Federal batendo à sua porta quase toda semana.
Ruas usa de ironia ao avaliar a gestão de
Cláudio Castro. Segundo ele, a grande realização do ex-governador foi a criação
do programa Limpa Rio, para drenagens e prevenção de enchentes, do qual ninguém
ouviu falar ou viu os resultados.
Como bom representante da extrema direita, o
ex-policial defende teto de gastos para equilibrar as contas públicas —o que o
governador interino Ricardo Couto conseguiu fazer em apenas seis meses,
enxugando a máquina pública e afastando os conglomerados do crime que operam na
fronteira da legalidade.
Ruas é mais um que promete endurecer o
combate à violência. Mas não toca no cerne da questão. A infiltração do crime
organizado nas estruturas de poder, que cobra um alto preço à economia
fluminense: R$ 31 bilhões por ano, ou 2,3% do PIB, segundo relatório da Firjan.
A lista de corruptores é democrática. Vai do empresário foragido Ricardo Magro
—apontado como maior sonegador de impostos do país— ao bicheiro Adilsinho, o
mais sanguinário da nova geração.
Os repórteres Igor Mello e
Flávio VM Costa revelaram a análise das planilhas de Adilsinho apreendidas
na Operação Unha e Carne, da PF. Elas sugerem pagamentos para 61 pessoas, a
maioria políticos. Os principais são aliados da família Bolsonaro: Cláudio
Castro (R$ 3,63 milhões), Rodrigo Bacellar (R$ 5,43 milhões), Hélio Lopes (R$
323,2 mil), Alexandre
Ramagem (R$ 91,8 mil).
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