Folha de S. Paulo
Novas regras não terão efeito enquanto não
houver disposição de obediência ao que dizem as normas em vigor
No momento, a pregação por mudanças é puro
exercício de retórica populista para surfar na onda da ocasião
A defesa
de reformas faz parte do roteiro habitual em momentos de conturbação como o
atual.
Dessa costumeira toada discursiva dão
notícias as propostas de mudanças no Judiciário, nas regras de indicação dos
ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e até no rito
de processo de impeachment de magistrados da corte.
Quando as pessoas não sabem direito o que fazer nem o que dizer, mas precisam se posicionar de alguma forma, costumam sugerir pactos e reformas.
Os pactos desmoralizaram-se pelo excesso de
uso retórico com zero de efetividade e tendência de degenerar para acordos de
impunidade. Na crise em curso, então, sobraram as reformas às quais aderem o
presidente da República, congressistas, juristas, candidatos e curiosos em
geral.
Ocorre, porém, que uma coisa é falar e outra,
localizada a léguas de distância, é fazer. No momento, essa história como via
de solução para a balbúrdia em tela limita-se ao campo do palavrório e das boas
intenções, cujas residências sabemos onde sentam praça: no inferno da desordem.
Na teoria, tais reações soam como resposta à
altura, mas na prática são totalmente interditadas pela inclinação generalizada
ao descumprimento de quaisquer regras. Se as vigentes são desacatadas pelo
tribunal guardião da legalidade, não há de se esperar reverência a novas
normas.
O mesmo tipo de desconfiança alcança os
Poderes Legislativo e Executivo, que cobram mudanças nos protocolos, mas fazem
letra morta dos ritos impostos pela Constituição.
Os presidentes, em sua prerrogativa de
indicação, substituem os critérios de reputação ilibada e notório saber
jurídico pelo dever de lealdade pessoal. Os senadores não exercem a contento a
tarefa de escrutinar com rigor técnico os indicados.
O pecado de origem não está no aludido
sistema, cuja reformulação não fará seus operadores alterarem as respectivas
condutas questionáveis diante de um quadro apenas formalmente modificado.
De nada adianta a regra forte se a carne permanece fraca.

Nenhum comentário:
Postar um comentário