quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Candidatos e a ambição de mudar emendas, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Alguma retomada do controle sobre as emendas está na cabeça de Lula e de outros postulantes ao Planalto

No final dos anos 1990, um grupo de 37 parlamentares até então sem projeção se viu sob os holofotes no que ficou conhecido como o escândalo dos anões do Orçamento, sobre desvios de verbas federais. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que os investigou por seis meses terminou em 1994.

Fernando Henrique Cardoso (PSDB) seria eleito naquele ano, em primeiro turno, surfando na popularidade do ex-ministro da Fazenda responsável pelo Plano Real. Foi com esse poder das urnas que conseguiu recuperar para o Palácio do Planalto o domínio sobre uma parcela significativa do Orçamento que antes tinha seu destino decidido no Congresso Nacional, contou à coluna o cientista político Sérgio Praça, professor visitante no programa de pós-graduação em Gestão Pública e Sociedade da Universidade Federal de Alfenas.

O presidente tucano conseguiu que o Legislativo aprovasse, em setembro de 1995, uma resolução que disciplinou as emendas.

"Fernando Henrique contava com uma coalizão de cinco partidos, que tinha 75% do plenário", comentou. "Uma coisa que hoje é impossível, porque o sistema é muito mais fragmentado."

Além de contar com uma base parlamentar ampla, o governo tucano empreendia uma agenda de privatizações, o que demonstrava seu comprometimento com o equilíbrio das contas públicas. Havia também uma comoção gerada pela CPI. Por fim, a estabilização da moeda deu mais transparência aos gastos públicos. "Os próprios parlamentares tinham noção de que precisavam se organizar depois do fim da hiperinflação", comentou. Tudo isso contribuiu para aprovar a resolução.

Mais de 30 anos depois, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinalizou embate com o Legislativo, na convenção partidária que confirmou sua candidatura à Presidência. Falou em abandonar o modo "paz e amor" e adotar uma versão "porreta". Um ponto de possível atrito são as emendas ao Orçamento, que neste ano somam R$ 50 bilhões, quase um quarto das despesas não obrigatórias do governo federal.

As condições são hoje muito diferentes das de 1995. Mas alguma retomada do controle sobre as emendas está na cabeça de Lula e de outros postulantes ao Planalto.

Dos seis principais candidatos, cinco as tratam como um problema para as contas públicas. Também apontam para o risco de o dinheiro, ao atender demandas paroquiais, ser gasto sem planejamento. Apenas o programa de Augusto Cury (Avante) não cita as palavras "emendas" e "orçamento".

Ronaldo Caiado (PSD) fala em dar "transparência integral" às emendas, informando autoria, beneficiário, objeto, custo e andamento físico. Os dados constariam de um painel. Propõe também aproximá-las do planejamento nacional, para "impedir que a fragmentação do Orçamento inviabilize políticas estruturantes", e pactuar com o Congresso critérios de planejamento.

Na visão de Renan Santos (Missão), as mudanças nas emendas são parte de uma reforma do federalismo fiscal brasileiro, que passa pelo fortalecimento dos municípios, hoje reféns, a seu ver, de "forças políticas externas" via "clientelismo de emendas e transferências federais".

Flávio Bolsonaro (PL) situa as mudanças nas emendas como parte do esforço para organizar melhor o Orçamento. Prega "mais transparência, controle e rastreabilidade às emendas parlamentares, priorizando sua alocação em políticas públicas prioritárias do Plano Plurianual".

A limitação do valor das emendas a um percentual "reduzido" do Orçamento discricionário é defendida por Romeu Zema (Novo). Ele também fala em condicionar as emendas à observação de critérios de "interesse público e transparência".

No plano de Lula, o atual sistema de emendas parlamentares é classificado como uma grave distorção. "As emendas impositivas e o orçamento secreto são práticas que mudaram as relações entre o Executivo e o Legislativo, sequestram o Orçamento público, dispersam os recursos e reduzem a eficiência alocativa", diz.

Praça assina com Acir Almeida e Maria Dominguez um estudo para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em que sugerem aperfeiçoamentos ao sistema.

As propostas não têm como objetivo restabelecer de forma ampla o controle do Executivo sobre o Orçamento, e sim "aproximar as decisões parlamentares das prioridades setoriais sem suprimir sua prerrogativa distributiva".

O estudo sugere, por exemplo, que os ministérios aperfeiçoem as cartilhas de prioridades que editam todo ano para guiar a alocação dos recursos das emendas. Propõe também criar um índice de risco para melhorar o controle no uso das verbas.

O poder do Congresso sobre as emendas vem marginalmente sendo relativizado. Com a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF), as chamadas emendas Pix passaram a ter alguma disciplina, disse Praça.

Um eventual confronto entre Executivo e Legislativo em torno das emendas promete chamar a atenção. Mas, para quem paga as contas - o contribuinte - seria mais útil saber se o dinheiro foi bem gasto e se gerou bons resultados.

 

 

 

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