Folha de S. Paulo
Presidente do STF não tem poder legal nem
força política, por ora, de conter desastre
Eleição é jogada de vez ao porão das disputas
de poder políticas e judiciárias
Edson Fachin, presidente do STF (Supremo
Tribunal Federal), ora não tem controle sobre o duelo
de morte entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, também disputa de
grupos de poder no Supremo e suas articulações na Polícia Federal e na política
partidária. A eleição já seria disputada na delegacia, no porão do sistema de
Justiça. Agora, é disputada na lama excrementícia que inunda o porão.
Ainda que pretenda pegar o touro à unha, Fachin não pode decretar o fim ou o controle de investigações (em curso ou por serem abertas). Também não tem poder político de controlar o tiroteio. Pelo menos 6 de 9 ministros estão envolvidos na disputa (o décimo ministro é Fachin).
Alguém vai conseguir propor acordo (ou
acordão)? Alguém quer? Note-se que o próximo presidente da República deve
nomear quatro ministros do STF. Ministros do STF amigos do candidato vencedor
vão influenciar a escolha dos novos colegas. É muito poder em jogo na mesa.
Quem se beneficia?
Beneficiam-se investigados, como Daniel
Vorcaro e turma do mundo de negócios financeiros e políticos, entre
outros. Inquéritos
podem ser anulados por causa da suprema baixaria.
Beneficia-se Flávio Bolsonaro (PL), metido
com Vorcaro e muito mais, pois não é difícil associar
Moraes a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e porque maus ares tendem a
prejudicar quem está no governo (seca, preço do tomate, crise financeira,
baixaria disseminada na política etc.).
O lulismo ora está sem ação. Não pode
defender Moraes. Pedir "investigações" é inócuo. A turma não achou
ainda outro rumo a dar para a campanha, já abalada pela baixa popularidade de
Lula. Moraes não tem o que dizer sobre seus rolos. Os rolos de Mendonça estão
em degrau inferior de investigação. Quem controla vazamentos da PF, que bateram
mais em Lula? O que foi feito do dinheiro que Bolsonaros ganharam de Vorcaro?
Nada vaza.
Mendonça
decapitou a direção da PF com base em argumentos que Moraes e outros
utilizaram para combater espionagens, arbitrariedades e crimes do governo de
Jair Bolsonaro. Mendonça disse que o documento a que Moraes recorreu
para acusá-lo era "surreal", tratando da "superlativa
gravidade e ilicitude na produção dos ‘relatórios de inteligência".
Afirmou, pois, que Moraes foi omisso ou cúmplice de "ilícito".
Em tese, os dois, Mendonça e Moraes, estão
certos e estão errados. Mas o caso é agora apenas disputa de poder, que pode
até recorrer a argumentos supostamente jurídicos como apêndice.
O torcimento da lei vem de longe. Tudo tem
cara de rolo lavajatista, um movimento messiânico e demagógico que manipulou a
Justiça, apodreceu ainda mais a política e acabou com bandidos livres. As
fichas são sujas.
Mendonça assumiu o lugar de Sérgio Moro no
Ministério da Justiça em setembro de 2020. Moro acusara Jair Bolsonaro de
querer manipular a PF. Na posse, Mendonça disse que Jair vinha sendo
"...há 30 anos um profeta no combate à criminalidade. Assumi o compromisso
de lutar por ideias de uma vida que o senhor tem combatido".
Dias Toffoli era suspeito no caso Master,
pois ele e família tinham negócios com a turma de Vorcaro. Foi saído da
relatoria do caso. Não foi investigado. Outro acordão.
Gilmar Mendes impediu Lula de tomar posse no
ministério de Dilma Rousseff em 2016, um dos tapas terminais no processo de
deposição. Moraes impediu que Alexandre Ramagem, ora foragido, tomasse posse na
direção da PF (seria subordinado de Moro) em 2020.
Não para.
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