Folha de S. Paulo
Presidente já sofria impacto pela associação
com Alexandre de Moraes, mas agora é obrigado a agir
Tensão estimula sugestões pouco ortodoxas e
de alto risco, como convocar Conselho da República
A inaudita decisão do ministro André
Mendonça de determinar
o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e
do chefe de inteligência do órgão, Leandro Almada, trouxe o governo Lula (PT) de vez para a
crise do Supremo Tribunal Federal.
Se o presidente já vinha sendo fustigado pela
escalada do embate entre Mendonça e o colega Alexandre
de Moraes, agora a confusão envolve diretamente seu governo. A
Advocacia-Geral de Lula deverá defender Andrei.
É possível argumentar que isso é o dever da
Presidência, admitindo aí que Mendonça tenha extrapolado na sua decisão, como
sugere a PF. Mas Lula, que vinha manobrando para tentar se manter olímpico
no caso, terá de tomar um lado de forma mais óbvia.
Isso agrava a situação do presidente, que já é alvo de campanha pela associação tática que promoveu ao longo de seu mandato com Moraes, o homem que mandou Jair Bolsonaro para a cadeia.
Desde que o envolvimento do ministro do
inquérito das fake news com o ex-banqueiro Daniel
Vorcaro tomou ares de escândalo, na semana passada, o presidente
buscou distanciar-se da crise do outro lado da praça dos Três Poderes.
Pediu investigação ampla e transparente,
seguindo o manual para
essas situações. Contava talvez com o acórdão sendo insinuado pelos
atores próximos de Moraes.
Quando o ministro avançou o sinal e
atacou Mendonça, a intenção era colocar o colega na defensiva. Numa
acomodação, estaria em posição favorável. Só que a resposta veio apoiada nos
frágeis papéis apresentados como evidência de má conduta do rival, que reagiu
com força nesta terça-feira (8).
Tudo indica uma nova escalada, e quem conhece
Moraes diz que ele está pronto para ir além —a referência de Mendonça ao
Grande Irmão orwelliano em sua decisão não foi casual. Só que agora
Lula está, para fins de opinião pública, no seu lado da trincheira.
Como o ato do 7 de Setembro em São Paulo
evidenciou, Flávio
Bolsonaro (PL)
já havia tomado partido do ministro "terrivelmente evangélico"
indicado por seu pai ao Supremo.
Anteviu
novas revelações sobre sua própria relação com Vorcaro, e seu aliado
Silas Malafaia chegou a cobrar posição justamente dos ministros que nesta terça
avaliariam a medida de Mendonça.
ior para a corte e seu presidente, Edson
Fachin, até aqui incapaz de conter as salvas de artilharia de lado a lado. A
pancadaria ganhou um respiro com o pedido
de vista de Gilmar Mendes acerca do caso da PF, mas não parece ser boa
aposta acreditar que ele irá durar.
Os fumos do conflito, como sempre ocorre em
Brasília, já começam a estimular exotismos. O advogado Marco Aurélio Carvalho,
próximo de Lula, defensor de Lulinha e integrante da campanha, sugeriu, por
exemplo, a
convocação do Conselho da República para lidar com a "crise
institucional sem precedentes".
O dito colegiado tem por atribuição
aconselhar o presidente sobre a adoção de estado de defesa ou de sítio. Só essa
correlação já fornece uma sinalização problemática do campo lulista: a sugestão
do recurso a instrumentos extremos.
A história recente, na qual o conselho foi
avocado duas vezes, é dura para quem brincou com a ideia.
Em 2016, parlamentares próximos de Dilma
Rousseff (PT) consultaram o Exército acerca da possibilidade, ouvindo
um não do então comandante Eduardo Villas-Bôas.
O general temia o uso de tropas contra os
manifestantes que, ao fim, viram Dilma impedida. Em 2019, ele revelou a
história, cujo conhecimento a petista negou, e ficou por isso.
Em 2021, no auge da apoplexia golpista quando
estava no poder, Bolsonaro
disse que convocaria o conselho ante uma multidão no mesmo 7 de
Setembro, só que em Brasília. Depois, em São Paulo, pregou desobediência a
Moraes e disse que nunca seria preso.
Era balela, e a tal reunião nunca ocorreu.
Dois dias depois, sob pressão e com o centrão de malas prontas para tomar de
assalto seu governo, Bolsonaro
já baixava o tom. Voltaria a tentar um autogolpe depois, pelo que foi
condenado a 27 anos e três meses de prisão.

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