Correio Braziliense
A novidade é a velocidade com
que o candidato do Avante assumiu o terceiro lugar na disputa. Cury passou a
ser lembrado como opção presidencial
Nas primeiras rodadas de debates e entrevistas, marcadas pelas dificuldades de
Lula e Flávio Bolsonaro para explicar seus passivos políticos, Augusto Cury se
projetou como candidato menos interessado em prolongar a guerra entre os dois
campos e mais empenhado em associar tecnologia, eficiência administrativa e
cuidado com as pessoas. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nessa segunda-feira
mostra que sua estratégia deu certo. No cenário estimulado sem Pablo Marçal,
Cury saltou de 2% para 11% em uma semana. Lula oscilou de 41% para 39%,
enquanto Flávio recuou de 37% para 33%. Ronaldo Caiado permaneceu com 5%; Renan
Santos, com 3%; e Romeu Zema passou de 3% para 1%.
A novidade é a velocidade com que o candidato do Avante atravessou a barreira
dos dois dígitos e assumiu o terceiro lugar na disputa. Na espontânea, quando o
entrevistador não apresenta nomes, o avanço de 1% para 8% reforça a relevância
do movimento. Cury passou a ser lembrado como opção presidencial. Não se deve
confundir esse resultado com voto consolidado, mas é um equivoco
desconsiderá-lo. A pesquisa ouviu 2.005 eleitores entre 28 e 30 de agosto, com
margem de erro de dois pontos percentuais.
Como a coleta começou antes da entrevista de Cury à Globo, exibida no sábado,
não é possível atribuir todo o salto à sabatina. O desempenho na Band, outras
entrevistas e a circulação de vídeos também compõem o ambiente dessa ascensão.
Cury percebeu uma demanda que a polarização pautada por ataques recíprocos
tende a sufocar. Parte do eleitorado deseja saber quem poderá melhorar sua
vida. Seu lema, “mente capitalista e coração social”, de caráter
liberal-social, ganhou singularidade numa campanha dominada por acusações.
Conciliar iniciativa privada, responsabilidade administrativa e proteção dos
vulneráveis atrai simpatia dos eleitores. Na Globo, Cury apresentou a proposta
de um ministério de robótica e inteligência artificial, defendeu a
digitalização da máquina pública e associou a modernização à contenção de
despesas. Propôs microfinanciamento para pequenas empresas e o emprego de
aplicativo de alerta e drones no enfrentamento da violência contra mulheres.
Procurou dar à tecnologia o papel de atividade fim para tornar o governo mais
eficiente e rápido nas respostas às demandas da população.
Em vez de restringir o debate ao tamanho do Estado, Cury enfatiza seu
funcionamento. Para quem enfrenta burocracia, atendimento precário e
insegurança, a qualidade dos serviços importa. A promessa de um governo
tecnológico é música, pois conecta modernização econômica e necessidades
cotidianas. Mas não dispensa explicações. Inteligência artificial não cria
recursos por decreto, drones não substituem uma rede de proteção e digitalização
não garante atendimento a quem está excluído da internet.
Mudança de foco
Agora, Cury terá que apresentar mais concretude nas propostas: custos,
prioridades, equipes e condições de execução. Mudou o foco, propôs um rumo
politicamente atraente, porém, sem demonstração de viabilidade. E nada impede
que os demais candidatos ajustem suas narrativas para contemplar com mais
ênfase essas agendas. Seu comportamento também conta. No debate da
Bandeirantes, ao contestar os ataques de Renan Santos aos eleitores de Lula,
defendeu a divergência sem desumanizar o adversário. Esse gesto ajuda a
explicar sua capacidade de conversar com públicos distintos.
Cury tira votos de quem? O cruzamento com a eleição anterior oferece uma
resposta mais consistente do que a simples comparação dos totais. Entre os
entrevistados que declaram ter votado em Jair Bolsonaro no segundo turno de
2022, 13% agora escolhem Cury. Entre os antigos eleitores de Lula, são 7%. Há,
portanto, penetração mais intensa no eleitorado que apoiou Bolsonaro. Cury
alcança 22% entre os jovens de 16 a 24 anos, e 17% entre os eleitores com
ensino superior. Entre aqueles que rejeitam simultaneamente Lula e Flávio,
chega a 19%.
Esses recortes sugerem uma candidatura alimentada pelo desejo de renovação e
pela recusa da escolha obrigatória entre os favoritos. A ameaça é maior para
Flávio, porque Cury oferece ao eleitor conservador ou liberal descontente com o
PT uma saída que não depende da defesa de Bolsonaro. Se continuar crescendo,
poderá questionar a ideia de que somente o candidato do PL tem condições de
enfrentar Lula. Entretanto, para disputar o segundo lugar, precisa tornar essa
possibilidade real.
Para Lula, o risco é diferente. A fragmentação da oposição pode beneficiá-lo
inicialmente, mas Cury disputa também eleitores que votaram no petista para
impedir a volta do bolsonarismo. Uma alternativa percebida como moderada pode
enfraquecer esse voto defensivo. Além disso, ao enfatizar qualidade dos
serviços, transfere a cobrança para os resultados do governo, terreno no qual o
presidente não pode responder apenas com críticas ao adversário. Cury ainda
está 22 pontos atrás de Flávio. No segundo turno entre os favoritos, o placar
permanece em 46% a 45%, e a Nexus não testou um confronto diretor de Lula com o
escritor.
Cury não é agressivo,adoro pessoas assim.
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