Valor Econômico
Aval é carimbo para formação de equipe capaz
de confirmar ou dissipar o medo do eleitor de mudar
Ainda que votasse unida, a avenida Faria Lima
teria dificuldade de eleger um vereador na capital. A atenção de um punhado de
seus eleitores mobilizou a cúpula das duas principais campanhas por um único
motivo. Este é o momento em que o eleitor olha para o lado, se dá conta de que
tem uma eleição e faz o cálculo se a mudança vale a pena ou pode piorar o que
está aí. O apoio naquela avenida serve de aval para o desafiante atrair uma
equipe capaz de minorar a desconfiança do eleitor em relação a uma mudança para
pior. Simples assim.
Há um mês, no auge da repercussão do “Dark Horse”, o senador Flávio Bolsonaro (PL) não conseguia ser recebido pela banca. Nunca houve muita dúvida da maior proximidade da pauta econômica, mas o custo institucional de um retorno do bolsonarismo mantinha a cancela fechada. Com a entrada da dupla Fabio Luís/Marco Aurélio Ribeiro nas paradas de sucesso dos vazamentos da PF, a diferença se estreitou, a perspectiva de poder se tornou real, e, em uma semana, Flávio teve três encontros importantes.
Recebeu André Esteves (BTG) em sua casa em
Brasília e foi recebido por Luiz Carlos Trabuco, na sede do Bradesco em
Osasco. O presidente do Conselho de Administração do banco não tem lado, mas
ficou registrada a ausência de convite para visita semelhante do presidente
Lula.
O gestor que acompanhou Flávio na visita,
Marcelo Kayath (QMS Capital), o trouxe à sua casa em São Paulo para, no mesmo
dia, encontrar empresários e banqueiros, entre eles interlocutores de Lula como
Milton Maluhy (Itaú), recém -chegados ao assento como Gilson Finkelsztain
(Santander) e parceiros do BNDES como Fernando Simões (Simpar).
Kayath conheceu Flávio por meio de seu irmão,
o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Já havia promovido outro encontro, de quórum
mais reduzido - em número e faturamento - em sua casa em Miami. Violonista
premiado internacionalmente, amigo do ministro da Fazenda, Fernando Haddad,
Kayath foi anfitrião de jantares para o presidente Lula em 2022. Chegou a ser
convidado para uma diretoria do Banco Central. Fosse a Presidência, não teria
declinado. Desta vez, a despeito de a proposição ter testemunhas, nega ter sido
convidado pelo candidato do PL para a Fazenda.
No relato de um presentes do jantar, Flávio
manteve a linha dura na segurança, disse que o Centrão não o apoia e, por isso,
sente-se livre para um governo técnico. Passou a bola para Daniella Marques,
ex-presidente da Caixa Econômica Federal. A discípula do ex-ministro Paulo
Guedes focou na redução de juros a partir de corte de gastos com medidas como
um pente fino em benefícios pagos a quem rejeita carteira assinada para
continuar a recebê-los.
Este comensal sentiu-se numa reprise de “O
passado condena”, filme de Alan Pakula, da década de 1970. Flávio não lhe
passou confiança ou conhecimento mas, ainda assim, está disposto a embarcar
mais uma vez no bolsonarismo com um voto é-o-que-temos-para-hoje.
Não é uma visão compartilhada por todos.
Outro interlocutor de Flávio Bolsonaro o avalia como mais convincente que o
pai, mas tem dúvidas sobre os riscos institucionais trazidos por sua eleição.
Desgosta do descompromisso do atual governo com o fiscal, mas teme que o Brasil
vire um Rio de Janeiro ou, ainda, que um governo capaz de permitir a fusão
entre Master e BRB coloque o país entre México e Rússia.
Difícil dizer se Flávio teria conseguido toda
esta arregimentação se a nova rodada BTG-Nexus já estivesse na praça. Nela, o
best-seller da auto-ajuda, Augusto Cury (Avante), chegou a 11% com um debate,
sabatinas e um ganho de seguidores nas redes que o coloca próximo dos 20
milhões. Desidratou quase todos, mas, sobretudo, o candidato do PL. Na avaliação
da Eurasia, se Cury chegar a 15% em duas semanas, ameaça a vaga de Flávio no 2º
turno.
A maior cartada de Lula contra a expectativa
de poder de Flávio, porém, é o jantar desta segunda no Palácio do Alvorada. O
peso dos 16 banqueiros e empresários presentes dirime as suspeitas de que o
poder econômico lhe tenha dado as costas. Entre os ministros, aposta de
permanência em eventual reeleição, ausência mais relevante é a das Minas e
Energia, Alexandre Silveira.
As sondagens que resultaram nos convites para
o jantar foram feitas pelo presidente do PT, Edinho Silva, pelo ex-ministro da
Fazenda e candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, e por André
Esteves.
O PT pretendia fazer um encontro com
empresários antes do lançamento da candidatura de Lula na Vila Euclides, em São
Bernardo do Campo, em 16 de agosto. A ideia era reunir, num jantar na véspera
ou num café da manhã daquele dia, um grupo mais amplo. O presidente, porém,
vetou. Como o mote do lançamento era uma “volta às origens” de sua militância
sindical, um encontro com empresários colado naquele evento não cairia bem.
Não está descartado um outro encontro para o
detalhamento do plano de governo. O desta segunda foi restrito a donos ou
integrantes da família dos acionistas majoritárias de seus bancos/empresas e
presidentes de conselhos com quem Lula, nos dois primeiros mandatos, já teve
relação mais próxima e de quem acabou se distanciando neste.
Os números gerais de PIB, desemprego,
inflação e reservas internacionais não preocupam o conjunto da banca e do
empresariado. A maior preocupação vem do crescimento dos gastos públicos que
requereria, na visão de um deles, um corte de aproximadamente 2% do PIB. Não se
espera que Lula se comprometa com a meta.
A expectativa é que o presidente, que costuma ouvir mais do que falar nesses encontros, se valha de Dario Durigan e Geraldo Alckmin para fazer os acenos sobre o que esperar das medidas de seu quarto mandato. Ou, para ficar no idioma dos comensais, se transformar no é-o-que-temos-para-amanhã.

Muito bom! Não sei até que ponto a presença dos 16 convidados de Lula ontem significa realmente apoio, muitos talvez queiram apenas ouvi-lo e se mostrarem abertos a apoiá-lo, mas sem se comprometer necessariamente com isto.
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