segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Depois da Independência: quem decide o futuro do Brasil? Por Sami Sternberg

Correio Braziliense

O objetivo oculto da interferência externa sobre o Brasil é impactar diretamente a maneira como a população enxerga as próprias instituições e a capacidade do país de lidar com seus desafios internos

Enquanto o Brasil passa por mais um 7 de setembro que simboliza sua autonomia e soberania, o país convive com ações de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro que saíram da esfera especulativa e se tornaram realidade. Não há dúvidas de que as sucessivas medidas econômicas, políticas e diplomáticas tomadas pelo atual governo dos Estados Unidos e seus aliados geram impactos diretos na corrida eleitoral do país. Mas a maior vítima dessa engrenagem de ingerência e desinformação é algo que transcende os diferentes espectros ideológicos: a integridade da democracia brasileira.

O objetivo oculto da interferência externa sobre o Brasil é impactar diretamente a maneira como a população enxerga as próprias instituições e a capacidade do país de lidar com seus desafios internos. Os alvos são diversos, desde a política de comércio exterior, o Pix como meio de pagamento de massa, a integridade do Poder Judiciário e do direito à liberdade de expressão, as autoridades dos Três Poderes por meio da aplicação de sanções individuais e revogação de vistos, até as estratégias de combate ao crime organizado e, mais recentemente, o nosso sistema eleitoral.

Esse método é característico do autoritarismo: normalizar práticas de ingerência que antes seriam inaceitáveis pelo volume e consistência das narrativas; e contaminar a percepção pública ao aliar desinformação a estratégias de comunicação nas redes sociais. O mérito dos ataques não mais importa, dando lugar às emoções que as comunicações provocam em uma sociedade onde mais da metade da população usa as redes sociais como fonte primária de informação.

O caso do sistema eleitoral é emblemático. A memória de um país orgulhoso por criar um sistema eletrônico de votação com tecnologia nacional, transparente e auditável há exatos 30 anos vem sendo paulatinamente desgastada, a ponto de pelo menos um em cada três brasileiros externar desconfiança sobre as urnas. A desinformação cumpre papel central nisso, agravada por manifestações recentes de representantes do governo dos Estados Unidos e atores políticos brasileiros que colocam em xeque, sem qualquer fundamentação técnica, a integridade do nosso sistema eleitoral. A quem interessa, em todo o espectro democrático, deteriorar a confiança no instrumento mais precioso para o exercício pleno da nossa cidadania?

O Brasil não é uma peça isolada nesse cenário. O século 21 vem sendo marcado por uma onda global de autocratização, na qual líderes eleitos utilizam mecanismos formais para corroer freios e contrapesos e debilitar as instituições que mantêm democracias em pé. O relatório mais recente do V-Dem, referência global na mensuração do estado da democracia, aponta que retrocedemos a índices comparáveis aos da década de 1970, com três em cada quatro pessoas no mundo vivendo sob regimes autoritários e um registro  recorde de 44 países em processo simultâneo de autocratização. Esse retrato mundial é um alerta para toda a sociedade brasileira de que viver sob uma democracia não é algo dado, e exige construção contínua.

Isso não significa que nossas instituições sejam imunes a críticas ou que o processo eleitoral não possa ser aperfeiçoado. O que observamos, porém, é um debate conduzido por narrativas de descredibilização e desinformação pautadas por interesses geopolíticos externos. Há um abismo entre esse pseudodebate e uma discussão democrática guiado por evidências, transparência e tolerância a divergências, onde um povo de um país discute — de maneira independente — quais serão os rumos do país. Quando o debate é pautado de fora e se formula apenas como ferramenta de enfraquecimento institucional, ultrapassamos o limite do dissenso e colocamos em risco nossa própria soberania.

A democracia não é um arranjo estático, mas, sim, uma construção dinâmica que exige o compromisso cotidiano de cada um e cada uma de nós. Refutar interferências externas é um compromisso coletivo da sociedade brasileira e de seus representantes que desejam um país capaz de caminhar com os próprios pés. Somente o respeito intransigente às regras do jogo democrático e a proteção ao voto de 158 milhões de eleitores garantirão a soberania popular como único guia do futuro do país.

 

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