Correio Braziliense
O objetivo oculto da interferência externa
sobre o Brasil é impactar diretamente a maneira como a população enxerga as
próprias instituições e a capacidade do país de lidar com seus desafios
internos
Enquanto o Brasil passa por mais um 7 de setembro que simboliza sua autonomia e soberania, o país convive com ações de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro que saíram da esfera especulativa e se tornaram realidade. Não há dúvidas de que as sucessivas medidas econômicas, políticas e diplomáticas tomadas pelo atual governo dos Estados Unidos e seus aliados geram impactos diretos na corrida eleitoral do país. Mas a maior vítima dessa engrenagem de ingerência e desinformação é algo que transcende os diferentes espectros ideológicos: a integridade da democracia brasileira.
O objetivo oculto da interferência externa
sobre o Brasil é impactar diretamente a maneira como a população enxerga as
próprias instituições e a capacidade do país de lidar com seus desafios
internos. Os alvos são diversos, desde a política de comércio exterior, o Pix
como meio de pagamento de massa, a integridade do Poder Judiciário e do direito
à liberdade de expressão, as autoridades dos Três Poderes por meio da aplicação
de sanções individuais e revogação de vistos, até as estratégias de combate ao
crime organizado e, mais recentemente, o nosso sistema eleitoral.
Esse método é característico do
autoritarismo: normalizar práticas de ingerência que antes seriam inaceitáveis
pelo volume e consistência das narrativas; e contaminar a percepção pública ao
aliar desinformação a estratégias de comunicação nas redes sociais. O mérito
dos ataques não mais importa, dando lugar às emoções que as comunicações
provocam em uma sociedade onde mais da metade da população usa as redes sociais
como fonte primária de informação.
O caso do sistema eleitoral é emblemático. A
memória de um país orgulhoso por criar um sistema eletrônico de votação com
tecnologia nacional, transparente e auditável há exatos 30 anos vem sendo
paulatinamente desgastada, a ponto de pelo menos um em cada três brasileiros
externar desconfiança sobre as urnas. A desinformação cumpre papel central
nisso, agravada por manifestações recentes de representantes do governo dos
Estados Unidos e atores políticos brasileiros que colocam em xeque, sem
qualquer fundamentação técnica, a integridade do nosso sistema eleitoral. A
quem interessa, em todo o espectro democrático, deteriorar a confiança no
instrumento mais precioso para o exercício pleno da nossa cidadania?
O Brasil não é uma peça isolada nesse
cenário. O século 21 vem sendo marcado por uma onda global de autocratização,
na qual líderes eleitos utilizam mecanismos formais para corroer freios e
contrapesos e debilitar as instituições que mantêm democracias em pé. O
relatório mais recente do V-Dem, referência global na mensuração do estado da
democracia, aponta que retrocedemos a índices comparáveis aos da década de
1970, com três em cada quatro pessoas no mundo vivendo sob regimes autoritários
e um registro recorde de 44 países em processo simultâneo de autocratização.
Esse retrato mundial é um alerta para toda a sociedade brasileira de que viver
sob uma democracia não é algo dado, e exige construção contínua.
Isso não significa que nossas instituições
sejam imunes a críticas ou que o processo eleitoral não possa ser aperfeiçoado.
O que observamos, porém, é um debate conduzido por narrativas de
descredibilização e desinformação pautadas por interesses geopolíticos
externos. Há um abismo entre esse pseudodebate e uma discussão democrática
guiado por evidências, transparência e tolerância a divergências, onde um povo
de um país discute — de maneira independente — quais serão os rumos do país.
Quando o debate é pautado de fora e se formula apenas como ferramenta de
enfraquecimento institucional, ultrapassamos o limite do dissenso e colocamos
em risco nossa própria soberania.
A democracia não é um arranjo estático, mas,
sim, uma construção dinâmica que exige o compromisso cotidiano de cada um e
cada uma de nós. Refutar interferências externas é um compromisso coletivo da
sociedade brasileira e de seus representantes que desejam um país capaz de
caminhar com os próprios pés. Somente o respeito intransigente às regras do
jogo democrático e a proteção ao voto de 158 milhões de eleitores garantirão a
soberania popular como único guia do futuro do país.

Nenhum comentário:
Postar um comentário