segunda-feira, 7 de setembro de 2026

De espancamentos e chacinas, por Miguel de Almeida

O Globo

Só faltou acrescentar que deveria ter o destino do ciclista de Copacabana, morto a pauladas por seguranças

Um recorte de 1978: em “Um homem chamado Opinião”, de Márcio Pinheiro, sobre o publisher Fernando Gasparian, criador do jornal “Opinião”, célebre órgão de oposição à ditadura, há a inauguração de sua Livraria Argumento, na paulistana Rua Oscar Freire. Impressiona a lista de presentes: entre eles, Fernando Henrique Cardoso, Paul Singer, José Arthur Giannotti, Florestan Fernandes, Antônio Cândido e Francisco Weffort. Todos professores universitários, intelectuais que participavam do debate público. Sofreram todos sob o regime militar — cassados ou exilados —, mas buscaram vencer o arbítrio. Cada um, a seu jeito, esteve na base da formação do PSDB ou do PT.

Agora, o recorte de 2026: em nota, dias atrás, a direção da UFRJ e muitos de seus professores dubiamente se referiram a um aluno linchado em seu espaço como “agente provocador”. Sem retórica: isso é apoio ao espancamento. O estudante se viu acusado de estar com roupa e adereços nazistas por um colega que se disse incomodado “enquanto pessoa preta”. Era um broche antinazista. Mesmo assim, foi agredido por uma dezena de universitários — de fato, uma milícia; essa sim fascista.

O espancado se tornou culpado. E, argumenta-se, merecedor da sova. Só faltou acrescentar que deveria ter o destino do ciclista de Copacabana, morto a pauladas por seguranças clandestinos.

Algumas décadas separam os professores amigos de Gasparian dos docentes apoiadores de espancadores da UFRJ. No primeiro corte, o Brasil vive sob uma ditadura , sem liberdades básicas como habeas corpus e com censura e o cotidiano de desaparecimento de opositores. Estar ali reunido, em torno de uma nova livraria, já era passível de prisão; afinal, todos tinham folha corrida de oposição aos militares.

No segundo corte, o Brasil vive sob democracia há 40 anos. Ainda é assolado por heranças do regime arbitrário, a começar pela péssima educação que resultou em professores universitários e alunos que socam seus colegas em nome — em nome do quê? De estar contribuindo com o processo civilizatório?

O espancamento do aluno e a solidariedade aos milicianos universitários mostram que os golpistas bolsonaristas não são uma exceção ou uma doença extemporânea. Ambos são parentes, pai e filho. A sociedade brasileira, sempre violenta (onde Bukele é modelo!), ainda guarda amor pelo pelourinho.

Há muito se fala que o woke traz em sua gênese componentes de extrema direita. Antes de chegarmos ao caso da UFRJ, houve no passado a milícia dos Panteras Negras e o apoio de Angela Davis à prisão de opositores na União Soviética por serem “anticomunistas”. O woke chegou já com as mãos sujas. Cancelamentos, segregação racial e destruição de biografias vivem agora seu apogeu, mas têm raízes nos atos dos regimes nazifascistas e soviéticos. Nasceram infectados.

E o Brasil se enrola nas pernas e na desigualdade econômica, com reflexos na educação política, desde o início da República (para não ir muito longe). A geração pós-Getúlio ditador nos deu Brasília, Bossa Nova, Cinema Novo, Tropicália, “Grande sertão: veredas” e “A máquina do mundo”. Teve a infelicidade de ser contemporânea do Pós-Guerra e do fantasma inventado da Guerra Fria com seus comunistas que comiam criancinhas. Mesmo trôpega, tinha um caminho, até que veio 1964. Os anos da ditadura liquidaram a diversidade do pensamento de esquerda e geraram uma direita ainda mais atrasada. Ou existe argumento para se acoelhar sob os braços de Trump?

Difícil acreditar que a extrema direita seja resultado das falcatruas petistas. Talvez em parte. Como tenho poucas dúvidas de que a esquerda traga em seu corpo o positivismo herdado da caserna pelo militar Luís Carlos Prestes. Entre outros casos, está aí a visão estatizante diante da agonia dos Correios.

No Brasil, não se pode culpar apenas a esquerda de turno, a que defende espancamento nas universidades. Ou a direita, que saliva feliz com as chacinas nos morros. Em algum lugar da nossa história, perdemos a civilidade e o sonho. Na inauguração da Argumento, lá em 1978, aquela geração formada no pós-Getúlio estava colocada no acostamento pelos militares. Com sua visão de mundo castrada, seus planos interrompidos em 1964, não deixava de lutar por liberdade e democracia.

Algo deu errado na geração pós-redemocratização. É um pessoal que reza para pneus, tenta golpes, espanca inocentes nas calçadas de Copacabana, sonha com Bukele e soca estudante dentro dos corredores universitários, sob o sorriso cúmplice e maléfico dos professores.

 

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