O Globo
Só faltou acrescentar que deveria ter o
destino do ciclista de Copacabana, morto a pauladas por seguranças
Um recorte de 1978: em “Um homem chamado Opinião”, de Márcio Pinheiro, sobre o publisher Fernando Gasparian, criador do jornal “Opinião”, célebre órgão de oposição à ditadura, há a inauguração de sua Livraria Argumento, na paulistana Rua Oscar Freire. Impressiona a lista de presentes: entre eles, Fernando Henrique Cardoso, Paul Singer, José Arthur Giannotti, Florestan Fernandes, Antônio Cândido e Francisco Weffort. Todos professores universitários, intelectuais que participavam do debate público. Sofreram todos sob o regime militar — cassados ou exilados —, mas buscaram vencer o arbítrio. Cada um, a seu jeito, esteve na base da formação do PSDB ou do PT.
Agora, o recorte de 2026: em nota, dias
atrás, a direção da UFRJ e muitos de seus professores dubiamente se referiram a
um aluno linchado em seu espaço como “agente provocador”. Sem retórica: isso é
apoio ao espancamento. O estudante se viu acusado de estar com roupa e adereços
nazistas por um colega que se disse incomodado “enquanto pessoa preta”. Era um
broche antinazista. Mesmo assim, foi agredido por uma dezena de universitários
— de fato, uma milícia; essa sim fascista.
O espancado se tornou culpado. E,
argumenta-se, merecedor da sova. Só faltou acrescentar que deveria ter o
destino do ciclista de Copacabana,
morto a pauladas por seguranças clandestinos.
Algumas décadas separam os professores amigos
de Gasparian dos docentes apoiadores de espancadores da UFRJ. No primeiro
corte, o Brasil vive sob uma ditadura , sem liberdades básicas como habeas
corpus e com censura e o cotidiano de desaparecimento de opositores. Estar ali
reunido, em torno de uma nova livraria, já era passível de prisão; afinal,
todos tinham folha corrida de oposição aos militares.
No segundo corte, o Brasil vive sob
democracia há 40 anos. Ainda é assolado por heranças do regime arbitrário, a
começar pela péssima educação que resultou em professores universitários e
alunos que socam seus colegas em nome — em nome do quê? De estar contribuindo
com o processo civilizatório?
O espancamento do aluno e a solidariedade aos
milicianos universitários mostram que os golpistas bolsonaristas não são uma
exceção ou uma doença extemporânea. Ambos são parentes, pai e filho. A
sociedade brasileira, sempre violenta (onde Bukele é modelo!), ainda guarda
amor pelo pelourinho.
Há muito se fala que o woke traz em sua
gênese componentes de extrema direita. Antes de chegarmos ao caso da UFRJ,
houve no passado a milícia dos Panteras Negras e o apoio de Angela Davis à
prisão de opositores na União Soviética por serem “anticomunistas”. O woke
chegou já com as mãos sujas. Cancelamentos, segregação racial e destruição de
biografias vivem agora seu apogeu, mas têm raízes nos atos dos regimes
nazifascistas e soviéticos. Nasceram infectados.
E o Brasil se enrola nas pernas e na
desigualdade econômica, com reflexos na educação política, desde o início da
República (para não ir muito longe). A geração pós-Getúlio ditador nos
deu Brasília,
Bossa Nova, Cinema Novo, Tropicália, “Grande sertão: veredas” e “A máquina do
mundo”. Teve a infelicidade de ser contemporânea do Pós-Guerra e do fantasma
inventado da Guerra Fria com seus comunistas que comiam criancinhas. Mesmo
trôpega, tinha um caminho, até que veio 1964. Os anos da ditadura liquidaram a
diversidade do pensamento de esquerda e geraram uma direita ainda mais
atrasada. Ou existe argumento para se acoelhar sob os braços de Trump?
Difícil acreditar que a extrema direita seja
resultado das falcatruas petistas. Talvez em parte. Como tenho poucas dúvidas
de que a esquerda traga em seu corpo o positivismo herdado da caserna pelo
militar Luís Carlos Prestes. Entre outros casos, está aí a visão estatizante
diante da agonia dos Correios.
No Brasil, não se pode culpar apenas a
esquerda de turno, a que defende espancamento nas universidades. Ou a direita,
que saliva feliz com as chacinas nos morros. Em algum lugar da nossa história,
perdemos a civilidade e o sonho. Na inauguração da Argumento, lá em 1978,
aquela geração formada no pós-Getúlio estava colocada no acostamento pelos
militares. Com sua visão de mundo castrada, seus planos interrompidos em 1964,
não deixava de lutar por liberdade e democracia.
Algo deu errado na geração pós-redemocratização.
É um pessoal que reza para pneus, tenta golpes, espanca inocentes nas calçadas
de Copacabana, sonha com Bukele e soca estudante dentro dos corredores
universitários, sob o sorriso cúmplice e maléfico dos professores.

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