O Globo
Um regime alquebrado é para ser curado, não
aniquilado. A receita é expulsar o agressor, não abrigá-lo
Uma pergunta se impõe, ao fim da semana — mais uma — desastrosa. A quem interessa a implosão da democracia? Às brasileiras e aos brasileiros, certamente, não. Em uma década, o país impôs impeachment à única mulher já eleita presidente da República; enfrentou e puniu tentativa de golpe de Estado. Agora, flerta novamente com o abismo. Quem foi para o feriado da Independência sem uma ruga de preocupação está mal informado. O risco é crescente e difuso: parte do golpismo continuado da extrema direita bolsonarista; cruza a ameaça de interferência estrangeira pelos Estados Unidos de Donald Trump no processo eleitoral; passa pela disputa fratricida entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF); esbarra no escândalo financeiro protagonizado por Daniel Vorcaro e sua teia; cruza com um Legislativo ensimesmado. Por fim, encontra o desencanto da população com um sistema político carcomido e desprovido de representatividade.
A democracia brasileira nunca chegou ao
patamar sonhado por quem nela acredita. Mas abandoná-la não tornará o país
melhor. Um regime alquebrado é para ser curado, não aniquilado. A receita é
expulsar o agressor, não abrigá-lo. Quatro anos atrás, perto das eleições,
pesquisa Quaest revelava
que 58% dos brasileiros se declaravam muito interessados no pleito. O embate
entre Jair
Bolsonaro, o presidente golpista, e Luiz Inácio Lula da
Silva produziu engajamento. No mês passado, a proporção estava em 36%; na
quarta passada, no primeiro levantamento de setembro, o percentual oscilou um
ponto percentual para cima. Pouco ou nada interessados somavam 63% em agosto,
62% agora, como se a democracia segura estivesse. É um desinteresse espantoso,
a um mês da escolha de presidente, 54 senadores, 513 deputados federais, 27
governadores e todos os integrantes das assembleias estaduais.
Felipe Nunes, diretor da Quaest, conta que
interesse no pleito é variável usada pelos pesquisadores para avaliar
abstenção. Quanto menos engajado, maior a probabilidade de não comparecer à
votação. Desencanto é resposta natural de um eleitorado que não se enxerga no
leque de candidaturas, não se comove com a campanha, desconfia do sistema. É
também combustível para mais fragmentação e/ou ascensão de outsiders e
candidatos a autocratas. Contra a ameaça à democracia, radicalizá-la, como
ensina Sueli Carneiro, filósofa, escritora, ativista. Há que elevar a
participação política, reivindicar inclusão, repelir o autoritarismo, exigir
dos candidatos seriedade, obediência à Constituição, planos concretos para os
problemas que nos atormentam.
Já que viraram moda na política — e até no
Supremo — as referências bíblicas e as mensagens religiosas, trago contribuição
da mitologia iorubá, também parte de nossas origens. Oxaguiã é orixá
relacionado a progresso, inovação, reconstrução. É divindade que rejeita o
comodismo. Inventou o pilão para preparar, mais rapidamente e em maior
quantidade, seu prato predileto, o inhame pilado, e repartir com a comunidade,
conta o professor e babalorixá Márcio de Jagun.
É também ele que faz do conflito evolução.
Luiz Antonio Simas, historiador, escritor e pesquisador das afrobrasilidades,
lembra que um itan (narrativa sagrada) dos mais populares trata da demolição,
repetidamente, por Oxaguiã do palácio de Ogum como forma de obrigar o povo a
reconstruí-lo melhor. É coisa de quem não se conforma com a mediocridade nem
com a acomodação; de quem não tolera a resignação nem o comodismo.
— Se esse caminho vem como irê
(positividade), é um marco de reconstrução, do fazer melhor. Se a tendência é
de negatividade, dá para dizer que o comportamento de destruição e reconstrução
está se tornando obsessivo — completa.
Na consulta espontânea sobre intenção de
voto, quatro em dez entrevistados (42%) pela Quaest se disseram indecisos;
no Datafolha,
26%. Num instituto e no outro, há muita gente por decidir. Quase metade do
eleitorado (45%) diz que o principal motivo para escolher o candidato é a
qualidade das propostas. A proporção pouco varia entre mulheres e homens,
pobres e ricos, católicos e evangélicos, brancos e negros, mais ou menos
escolarizados, morador de uma região ou outra. Os eleitores estão quase tão
preocupados com promessas quanto indecisos sobre o candidato. Tudo somado devia
nutrir o debate, germinar o entusiasmo, jamais abrir mão da democracia e deixar
que vençam aqueles que a desprezam. No Judiciário, no Legislativo ou no
Executivo.

Bolsonaro engajava mais que seu filho,dizem as pesquisas e as boas línguas,rs.
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