O Supremo vandalizado
Por CartaCapital
O ministro André Mendonça produz o seu 8 de
Janeiro particular
Duas reportagens de capa assinadas por André Barrocal servem de prelúdio para o espetáculo em curso. Embora manjado, o golpe nunca deixa de enganar os incautos. E de produzir os efeitos desejados, em maior ou menor medida. Na edição 1410, de 29 de abril, sob o título “Na Mira”, CartaCapital detalha o especial interesse do ministro André Mendonça em recolocar o desafeto Alexandre de Moraes no centro das investigações sobre as falcatruas do Banco Master. No número 1425, de 12 de agosto, descrevemos os pesos e medidas do “juiz torcedor”, Mendonça, empenhado em desviar o foco das denúncias contra Flávio Bolsonaro, representante do clã que o instalou em uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.
Nestes meses, o magistrado “terrivelmente
evangélico” cumpriu sua missão com a devoção de um talibã. Os vazamentos das conversas de Fábio Luís, filho do
presidente Lula, com a empresária Roberta Luchsinger, na esteira do inquérito
que apura os desvios no INSS, foram uma tentativa de igualar o campeonato da
corrupção quando a opinião pública estava interessada em conhecer o destino do
dinheiro repassado pelo banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar a
“obra-prima” Dark Horse, cinebiografia de um condenado por tentativa de golpe.
Nem se compara, porém, à mais ousada emboscada de Mendonça. A exposição, na
terça-feira 1º, das relações de Moraes com Vorcaro reverbera além do gabinete
do ministro alvejado. Incita a desconfiança pública em relação ao STF e se
estende à Procuradoria-Geral da República e ao comando da Polícia Federal.
É desnecessário afirmar que Moraes deve
muitas e convincentes explicações, se possível. A oferta de cartões de crédito
aos filhos do ministro, os agrados variados à família, a revisão pelo
magistrado do contrato do escritório da esposa, Viviane Barci, e as mensagens
enviadas pelo banqueiro às vésperas de sua prisão tornam praticamente
insustentável a sua permanência na Corte. Caso a maioria dos pares decida
rejeitar a abertura de um inquérito contra o colega, a crise institucional
contaminará todo o ambiente.
Tão importante quanto escrutinar o
comportamento de Moraes é, no entanto, decifrar as intenções de Mendonça. E o
timing. O escudeiro da família Bolsonaro partiu para o tudo ou nada e decidiu
produzir um 8 de Janeiro particular, ao vandalizar a instituição da qual faz
parte. Abriu o sigilo de um relatório preliminar a respeito de Moraes horas
depois de vir à tona um pagamento extra de Vorcaro a Flávio. Optou por abrir as
portas do inferno, conforme a avaliação de fontes do tribunal.
A terra arrasada planejada pela República de
Curitiba desaguou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018, desfecho só possível
por conta da demolição da institucionalidade pela Lava Jato, com aval das
Cortes superiores. Mendonça agora salga o solo para que nada frutifique.
Há, ressalte-se, uma notável diferença: os
entusiastas da operação camicase do ministro não poderão, como fizeram após
2018, alegar inocência se a barbárie miliciana se reinstalar no País. Eles
sabem muito bem o que fazem. •
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.
STF deve rechaçar manobra de Moraes no caso
Master
Por O Globo
É essencial que Fachin mantenha normalidade
processual, com transparência e firmeza nas decisões
Diante de sua mais aguda crise em tempos
democráticos, o Supremo Tribunal Federal (STF) só tem um caminho a seguir: não
se deixar contaminar por preferências políticas — ao menos, não mais do que já
aparenta estar — e permitir que os indícios de envolvimento do ministro
Alexandre de Moraes em ilegalidades sejam investigados. O último capítulo da
crise foi revelador: para salvaguardar sua honra, em vez de se defender abrindo
mão de seus sigilos bancários e telefônicos, Moraes preferiu pedir investigação
contra o ministro André Mendonça, usando um relatório da Polícia Federal (PF)
que a própria instituição diz ter sido feito com base em fontes fracas de
informação e não ter valor como prova. Por que ele faria tal pedido, que apenas
cria tumulto processual? Talvez para desviar a atenção das revelações
comprometedoras a respeito de suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro.
A atitude de Moraes, amparada em bases tão
frágeis, é ainda mais curiosa quando se sabe que ele questionou a competência
de Mendonça para pedir investigação a partir de um relatório da PF repleto de
indícios concretos de sua ligação com o famigerado banqueiro — no que foi, para
perplexidade geral, apoiado pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Há,
ainda, outra questão a esclarecer, esta de natureza factual: se Moraes não é
relator dos casos mencionados pela PF em seu pedido de investigação contra Mendonça
— os inquéritos sobre as falcatruas no Banco Master, de Vorcaro, e as fraudes
no INSS —, por que e quem na PF lhe forneceu tal relatório com menção a outros
ministros? A resposta a tal questão traria luzes sobre as tensões que testam a
integridade da mais alta Corte do país e sobre o papel da PF nessa trama.
O relatório da PF sobre Mendonça é o terceiro
envolvendo ministros do STF no imbróglio do Master. O primeiro dizia respeito
ao então relator do caso, o ministro Dias Toffoli. A PF demonstrou, com base em
evidências persuasivas, que o resort Tayayá — que, depois veio a se saber,
tinha Toffoli como sócio oculto — havia sido vendido a um fundo enredado na
extensa teia de falcatruas do Master. Com base nisso, era evidente que o
ministro deveria se declarar suspeito para conduzir o caso. Mas, apesar de
todas as evidências, o episódio do Tayayá não resultou em investigação. Houve
apenas uma nota conjunta do Supremo, emitida após reunião administrativa dos
ministros, defendendo Toffoli e transferindo a relatoria a outro ministro —
Mendonça foi então sorteado. A saída encontrada para transmitir a impressão de
unidade da Corte e, ao mesmo tempo, preservar e prestigiar Toffoli foi emitir a
nota e deixar por conta dele a renúncia da relatoria e a declaração de
impedimento para votações no caso.
O segundo relatório veio à tona nesta semana,
com evidências contra Moraes. Mostra que o próprio Moraes editou o contrato
milionário por meio do qual o banco de Vorcaro remunerava o escritório de
advocacia de sua mulher, além de fornecer aviões, helicópteros e cartões de
crédito a seus familiares. E também que Vorcaro o consultou se deveria sair do
país dois dias antes de ser preso, além de pedir que Moraes intercedesse junto
ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da PF, Andrei
Rodrigues, para bloquear as investigações contra o Master. O mesmo Gonet que,
numa violação dos princípios éticos mais básicos, assinou o parecer da PGR
defendendo a nulidade do relatório — fato que, por si só, põe em xeque sua
permanência à frente da PGR e mais ainda deste caso.
Há, por fim, o terceiro relatório, frágil e
oportunista, insinuando desvios e motivação política nas investigações
conduzidas por Mendonça. Moraes usou essa análise da inteligência da PF, que
não se sabe como nem por que foi produzida, como uma manobra para incluir Mendonça
no abstruso inquérito 4781, o inquérito das fake news, criado em 2019 sem
objeto definido e instrumento de um sem-número de abusos que há muito tempo
justificam seu encerramento. O pedido de investigação de Mendonça chegou à
presidência do STF depois de uma reunião de três horas entre Moraes e o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), responsável por encaminhar
pedidos de impeachment de ministros da Corte.
O ministro Edson Fachin, presidente do STF,
entendeu por bem desmembrar esse pedido do inquérito das fake news — que se
comprometeu a encerrar —, reuni-lo às evidências contra Moraes e deu um prazo
de cinco dias úteis para todas as partes, inclusive Gonet e Rodrigues,
prestarem esclarecimentos. A sociedade brasileira espera que essa decisão permita
elucidar os graves fatos que pesam sobre Moraes e, por extensão, sobre o
próprio STF. Isso só será possível com autorização do plenário da Corte para
que ele seja investigado. Afinal, como Fachin disse nesta sexta-feira, “nenhuma
autoridade está acima da Constituição”.
Fachin assumiu a presidência do Supremo propondo um código de ética para os ministros do tribunal. Até agora, no meio do seu mandato, nada conseguiu. Diante de um país estarrecido com o que se passa na Corte que preside, esperam-se dele transparência e firmeza. Repetir a “solução” Toffoli ou permitir que manobras processuais tornem a investigação um faz de conta seria um escárnio, um golpe perigoso na fragilizada credibilidade da instituição e, por conseguinte, na democracia brasileira. É essencial que seja mantida a normalidade processual, com o prosseguimento das investigações sob a relatoria de Mendonça, que até aqui vem se conduzindo corretamente em suas funções, apesar de todas as pressões sofridas.
Moraes ataca Mendonça e acerta a República
Por Folha de S. Paulo
Em vez de se defender, Moraes prefere
fustigar quem trouxe à luz essas informações, usando inquérito anômalo
O ato diversionista não muda a situação;
escritório de sua família manteve contrato de R$ 131 mi com quem saqueava o
sistema financeiro
Na República vigora a impessoalidade.
Defenda-se de quem o acusa, apresente os seus argumentos diante das imputações
da outra parte. Um juiz imparcial, após o devido processo, decidirá o direito.
O ministro Alexandre de
Moraes atingiu a República ao alvejar seu colega André
Mendonça.
Em vez de expor argumentos ante os
gravíssimos indícios de promiscuidade com o maior fraudador bancário da
história nacional, levantados
pela Polícia Federal, preferiu usar superpoderes em causa própria e
metralhar o juiz que presidiu a elaboração do relatório. Para isso acionou mais
uma vez a anomalia jurídica que, com a cumplicidade dos seus pares, cultiva
desde 2019 —o inquérito da autoproteção, mal denominado "das fake
news".
A institucionalidade deu lugar à pistolagem.
Moraes afirma na sua peça, sustentada em relatórios
de valor probatório para lá de duvidoso de agentes da PF, que
Mendonça exorbitou das suas prerrogativas, direcionou o inquérito e agiu sob
motivação partidária.
Não pôde repetir o tratamento conferido a
críticos menos ilustres —restrição de liberdades, censura, violação do sigilo
de fonte. Mas chegou perto. No subtexto, acusa o colega de conspirar contra a
democracia.
O ato diversionista de Moraes não muda a sua
situação. Um facínora manteve um contrato extravagante, de R$ 131 milhões, com
o escritório da família do ministro enquanto saqueava o sistema financeiro
nacional e corrompia à direita, ao centro e à esquerda.
Mensagens que tinham o condão tecnológico de
apagar-se após a visualização mostram uma intensa troca com o ministro às
vésperas da prisão do arremedo de banqueiro. A família Moraes desfrutava do jato
do fraudador, e seus filhos usufruíam de cartões de crédito do Banco Master.
Não parece ter passado pela cabeça do
magistrado a opção de sustentar, à luz do sol, que as informações que o
desabonam estariam erradas, que jamais atuou em prol dos interesses do dono do
Master nem trocou as mensagens que têm sido imputadas a ele em relatório
policial; ou o porquê de Daniel
Vorcaro ter escolhido sua esposa para representá-lo por meio de
um contrato de dezenas de milhões de reais.
Fez bem o presidente do STF, Edson Fachin,
ao retirar o
pedido de Moraes do inquérito de exceção e ao exigir dele e de
Mendonça, do diretor da Polícia
Federal, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet,
explicações sobre aspectos formais e substanciais dos casos. Fachin tenta
reintroduzir o império dos ritos e protocolos num terreno que ameaça descambar
para o vandalismo.
O que está em jogo é uma instituição vital da
República, o Supremo Tribunal Federal. A crise passou do ponto de ser
administrável por pactos pessoais e oligárquicos de impunidade. O mal-estar é
tamanho que apenas um processo sóbrio e profundo de prestação de contas e
responsabilização poderá aplacá-lo.
Trump e Venezuela fazem acordo esdrúxulo por
petróleo
Por Folha de S. Paulo
Casa Branca acerta com governo tutelado da
vice de ex-ditador acesso a cerca de 20% das reservas do país
A Nabep, fundada por controverso empresário
venezuelano, terá concessão de 17 campos por cem anos, e os EUA deterão 35% de
seu capital
Passados oito meses da captura do
ditador Nicolás
Maduro e de tutela sobre o governo remanescente da Venezuela,
os Estados
Unidos fecharam um esdrúxulo acordo para garantir seu acesso a
cerca de 20% das reservas estimadas de petróleo do
país caribenho.
Não virá de Donald Trump nenhum
constrangimento com o entendimento firmado com uma presidente interina, Delcy
Rodríguez, ex-bolivariana convicta, que era vice de um regime
mantido à base de fraudes eleitorais globalmente denunciadas.
A estranheza prossegue com a concessão por
cem anos de 17 campos de petróleo à North American Blue Energy
Partners (Nabep), companhia fundada em 2024 pelo controverso empresário
venezuelano Alejandro Betancourt. O governo americano deterá 35% de seu
capital.
Está subentendida, nos termos do acordo, a
destinação dos campos operados atualmente por empresas chinesas e russas para a
joint venture Nabep-Casa Branca. O pacto é mais claro ao fixar o direito dos
EUA a 20% do petróleo comercializado, a preço de custo, e a sua preferência na
venda dos 80% restantes.
Delcy Rodríguez argumenta que o acordo
resultará em investimento de US$ 100 bilhões na estrutura petroleira
venezuelana e US$ 209 bilhões em receitas. Mas as cifras podem crescer. A
Chevron, única petroleira americana no país, anunciou a injeção de US$ 7 bilhões
em cinco anos para dobrar sua
produção a 600 mil barris por dia.
Há expectativa de retorno da Exxon Mobil e da
ConocoPhillips, ambas dos EUA, e de a Nabep criar outras joint ventures para a
exploração. Para uma economia altamente dependente do setor, degringolado por
corrupção e desinvestimento ao longo dos 27 anos de domínio chavista, o acordo
pode parecer auspicioso.
Entretanto não deixa de indicar uma pretensão
monopolista dos EUA sobre a reserva petrolífera venezuelana. O quão aberto o
governo tutelado será para atrair e prover segurança jurídica aos investimentos
oriundos de outros países —exceto a China e
a Rússia,
já vetadas— muito dirá sobre tal suspeita.
A opacidade da negociação é criticada por
aliados e opositores do regime decrépito. O fato de o acordo ter sido aprovado na
terça-feira (1) pela Assembleia Nacional, presidida por Jorge
Rodríguez, irmão de Delcy, em nada reforça sua legitimidade.
Tampouco parece promissora a redemocratização da Venezuela, dado que a Trump não interessa o risco de um governo eleito questionar seu pacto.
Alexandre de Moraes vandaliza o Supremo
Por O Estado de S. Paulo
Ao declarar guerra ao colega André Mendonça,
o ministro, suspeito de ser ‘consigliere’ de Vorcaro, causa mais dano ao STF do
que a horda de arruaceiros do 8 de Janeiro
Sem quebrar um copo, o ministro Alexandre de
Moraes infligiu ao Supremo Tribunal Federal (STF) um dano mais grave do que o
causado pelos arruaceiros que tomaram a Corte de assalto no fatídico 8 de
janeiro de 2023. Na quinta-feira passada, Moraes vandalizou a instituição em
nome de sua defesa pessoal.
O gatilho para a ira do ministro foi a
revelação, feita por este jornal, de novos e inquietantes pormenores da promíscua
– e potencialmente criminosa – relação entre ele e Daniel Vorcaro, que, como se
sabe, celebrou um contrato de serviços advocatícios no valor de R$ 131 milhões
com o escritório da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes. O teor das
dezenas de mensagens extraídas de celulares de Vorcaro pela Polícia Federal
(PF) sugere que Moraes atuava como uma espécie de consigliere do banqueiro
vigarista – nada menos.
Diante desse fato escabroso, o único caminho
republicano seria Moraes se afastar voluntariamente do cargo, poupando o
Supremo de ser atirado na fossa moral em que ele mesmo se meteu. Mas, em vez
disso, o ministro acionou o “modo sobrevivência” e usou o famigerado inquérito
das fake news, seu brinquedo de pequeno tirano, para declarar guerra ao colega
André Mendonça, o relator das investigações sobre o Banco Master no STF, que
ousou levantar o sigilo do relatório da PF e, assim, expôs o grau de
proximidade entre Moraes e Vorcaro.
Já um tal de “relatório de inteligência” – em
tese, também feito pela PF – do qual Moraes se valeu para acusar Mendonça de
improbidade administrativa, abuso de autoridade e violação da Lei Orgânica da
Magistratura Nacional, a bem da verdade, é uma peça tosca que mal vale o papel
em que foi escrita. Não tem cabeçalho oficial, não é assinado por um delegado
federal e consiste em uma série de ilações sobre objetivos políticos de
Mendonça. No corpo do próprio texto, pasme o leitor, consta a advertência de
que se trata de um documento “sem caráter decisório e sem valor probatório” e,
ademais, de “baixa a moderada confiabilidade”. Foi com base nisso que Moraes
pediu – e o presidente do STF, Edson Fachin, em boa hora recusou – que Mendonça
fosse incluído no rol de investigados do inquérito das fake news.
É preciso dizer sem rodeios: o sr. Alexandre
de Moraes e todos os que o protegem no STF – a começar pelo decano do tribunal,
Gilmar Mendes – se tornaram, não de agora, a maior fonte de instabilidade
democrática no País. Essa ala daninha da Corte traiu o espírito norteador da
criação do Supremo Tribunal Federal, em 1891, e a transformou nessa aberração
corporativista que ameaça afundar o Brasil em uma crise de tal magnitude que,
no limite, pode pôr em risco a própria democracia.
Para salvar a pele, Moraes ainda tenta impor
uma falsa equivalência entre legítimas dúvidas técnicas a respeito da atuação
de Mendonça como relator do caso Master e as suspeitas gravíssimas que pesam
sobre si mesmo. Ao que tudo indica, Moraes aposta na confusão generalizada
para, ao fim e ao cabo, evitar ter de responder sobre o mérito dessas
suspeitas, fixando-se na forma como foram expostas. Também não se pode condenar
quem veja em sua campanha iracunda a pavimentação do caminho até a nulidade de
todas as investigações sobre o caso Master no STF – sonho de todos em Brasília
que colocaram suas almas à venda para servir aos interesses comerciais de
Vorcaro.
Para piorar, o subproduto dessa crise é a
instrumentalização escancarada da PF: ora acionada por Moraes para produzir
“relatórios” a seu feitio, ora orientada pelo decano do STF a praticar
desobediência civil, ignorando decisões de Mendonça que considere “ilegais”,
ora ameaçada pelo próprio Mendonça com o afastamento de seu diretor-geral,
Andrei Rodrigues. Uma corporação que deve primar pela atuação legal, técnica e
republicana virou joguete nas mãos de autoridades movidas por suas próprias
agendas.
O STF se reergueu fisicamente dos escombros
do 8 de Janeiro. É incerto, porém, se será capaz de se libertar do cativeiro em
que foi aprisionado por Moraes, que faz da Corte refém de suas ambições. Agora
cabe a Fachin liderar essa histórica missão de resgate. Se decidir fazê-lo,
tomando as decisões que lhe cabem nessa hora grave, o ministro presidente pode
estar certo de que terá do jornal O Estado
de S. Paulo todo o apoio de que precisar.
Ao sabor das pesquisas
Por O Estado de S. Paulo
Não há preocupação genuína de Lula sobre os
problemas causados pelas apostas online. Há, apenas, cálculo eleitoral e pressa
para arranjar bandeiras a serem exploradas na campanha
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse
que o governo prepara uma medida “drástica” contra as bets a ser lançada nos
próximos dias. Antes fosse uma preocupação genuína – afinal, não faltam
indícios de que as apostas online estão por trás de problemas seriíssimos como
o aumento do endividamento das famílias, a queda no consumo de bens e serviços,
a escalada dos transtornos de saúde mental e esquemas de lavagem de dinheiro.
Nada disso sensibiliza Lula, mas apenas o impacto que uma decisão mais dura
teria sobre sua popularidade.
Pesquisa Latam Pulse Brasil, da AtlasIntel,
mostrou que a percepção da população sobre as bets já era majoritariamente
negativa em abril. Ao menos 63,2% acreditavam que as apostas online trazem
apenas prejuízos para a sociedade e 70% responderam que elas contribuíram muito
para a ruína financeira das famílias. Nada mais natural. Quanto mais o tempo
passa, maiores tendem a ser as perdas dos apostadores. É esse, precisamente, o
modelo de negócios de qualquer jogo de azar, uma das razões pelas quais este
jornal mantém posição contrária à liberação da jogatina desde 1946, ano em que
foi proibida por lei no País.
O aspecto mais revelador da pesquisa
AtlasIntel, no entanto, foi o fato de que a maioria dos entrevistados (35,3%) atribuiu
ao governo Lula a disseminação das bets no País. Pudera. Embora as apostas
online tenham sido liberadas no fim de 2018, foi somente após a regulamentação,
aprovada no fim de 2023, que elas garantiram onipresença na publicidade e no
patrocínio de times de futebol e competições esportivas.
De fato, não faltou esforço da equipe
econômica para trabalhar pelo projeto de lei para taxar as bets em 2023. Tudo
que o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, buscava à época eram fontes
de receita para sustentar o arcabouço fiscal. A regulamentação, obviamente, não
salvou a arrecadação nem foi capaz de reequilibrar as contas públicas, mas foi
um incentivo pernicioso à ludopatia.
Mas os ventos mudaram, a reeleição de Lula
não está garantida e sua equipe de campanha perdeu todo o pudor de usar a
máquina pública para conquistar os votos necessários para alçá-lo a um quarto
mandato. Nessa saga, o presidente mostrou estar disposto a fazer qualquer
negócio, mesmo que tenha de passar por cima de medidas que seu próprio governo
defendeu enfaticamente no passado recente.
Na mesma toada pretensamente fiscal, e sob
intenso tiroteio da oposição, o governo se empenhou em aprovar a taxação das
blusinhas no Congresso em 2024. Mas, para surpresa e fúria do varejo e da
indústria nacionais, bastaram algumas pesquisas eleitorais desfavoráveis para
que Lula assinasse, em maio, uma medida provisória para isentar as importações
de pequeno valor sem qualquer argumento técnico.
Mas nada supera a indigência do debate sobre
o fim da escala 6x1 e a diminuição da jornada de trabalho de 44 para 40 horas
semanais sem redução de salários. Para um presidente que ganhou fama de bom
negociador nas greves de 1979 e 1980 enquanto líder dos metalúrgicos na região
do ABC Paulista, a defesa da votação expressa de uma proposta de emenda à
Constituição (PEC) para tratar do tema, sem articulação com os setores mais
impactados e sem um período de transição minimamente adequado para que as
empresas possam se adaptar, só se justifica pelo desespero de arranjar uma
bandeira eleitoral para sua campanha.
Não é assim que os grandes temas do País
deveriam ser debatidos, mas essa tem sido a tônica dos projetos que o governo
Lula tem submetido à Câmara e ao Senado em anos eleitorais. Reconheça-se que,
quando era presidente, Jair Bolsonaro não agiu de maneira diferente, ao propor,
por exemplo, o calote dos precatórios para bancar o aumento do antigo Auxílio
Brasil e os benefícios criados a toque de caixa para caminhoneiros e taxistas.
O pior é que não havia e não há convicção de
quaisquer das partes envolvidas – nem a favor nem contra essas medidas, nem na
esquerda nem na direita. Não há sequer a defesa de um projeto de país. O que
define o posicionamento do Executivo e do Congresso nesses casos é apenas e tão
somente o cálculo das urnas. Não é por acaso que nosso desenvolvimento está
empacado há décadas.
O poço sem fundo dos Correios
Por O Estado de S. Paulo
Mesmo com 16.º trimestre consecutivo de
resultados negativos, Lula descarta privatizar a empresa
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
descartou a possibilidade de privatizar os Correios. Em entrevista à TV Globo,
ele reconheceu que a estatal “não se adaptou aos novos tempos” e considerou, no
máximo, a possibilidade de fazer parcerias com empresas brasileiras ou
estrangeiras. “Não considero vender. Considero recuperar os Correios para
prestar serviços de qualidade ao povo brasileiro”, afirmou.
A entrevista foi concedida dias antes de os
Correios anunciarem um prejuízo de R$ 5,5 bilhões no primeiro semestre, 30,4%
acima dos R$ 4,26 bilhões alcançados no mesmo período do ano passado. No
segundo trimestre, o resultado negativo atingiu R$ 2,39 bilhões, 5,5% menor que
o do segundo trimestre do ano passado. Malgrado a retórica do governo,
obviamente não há o que comemorar.
É preciso ser muito otimista para acreditar
que o pior já passou. A despeito da adesão de 6.545 empregados ao Plano de
Demissão Voluntária (PDV), a redução de despesas com pessoal foi de apenas 3,8%
nos seis primeiros meses do ano e de 4,9% no trimestre. As receitas, por outro
lado, recuaram ainda mais – a queda foi de 3,9% no semestre e 5,4% no segundo
trimestre, mesmo com o fim da taxa das blusinhas e o aumento das importações de
bugigangas.
A margem bruta ficou ainda mais apertada. Foi
de R$ 121 milhões no segundo trimestre, ante R$ 294,5 milhões no mesmo período
do ano passado; considerando o semestre, subiu de R$ 233,2 milhões em 2025 para
R$ 274,5 milhões neste ano. De qualquer forma, é muito pouco para uma empresa
que, bem ou mal, faturou R$ 8,2 bilhões nos seis primeiros meses do ano passado
e R$ 7,9 bilhões neste ano, o que só evidencia que o problema está em seus
custos.
Lula, no entanto, se recusa a enxergar a
realidade. “Desde 1985 os Correios brasileiros vivem crise e alguém quer
privatizar os Correios”, afirmou, como se o fato de a empresa ter registrado o
16.º trimestre consecutivo de prejuízos fosse um problema de menor importância.
Ao contrário: é justamente essa condescendência com resultados tão ruins que
faz com que os Correios sejam um sorvedouro de dinheiro público.
Mesmo depois de conseguir um empréstimo de R$
12 bilhões junto a um consórcio de bancos, a empresa ainda negocia mais R$ 7
bilhões, além de R$ 2,9 bilhões junto ao Novo Banco de Desenvolvimento, o banco
dos Brics. Em paralelo, o governo acaba de confirmar que fará um aporte de R$ 6
bilhões na empresa no ano que vem – uma contrapartida exigida pelos bancos para
fecharem a primeira operação, que conta com garantia da União em caso de
calote.
Embora Lula tenha garantido que os Correios
sairão dessa crise, não parece crível esperar que a empresa volte a ter lucro
em 2027, como sinalizou seu presidente, Emmanoel Rondon, em sua primeira
entrevista no cargo, ou ao menos consiga zerar as perdas no ano que vem, como
declarou em maio passado.
Mais provável é que o governo passe a aportar recursos públicos na empresa regularmente, sob o pretexto de que a universalização do serviço e a presença em todos os municípios do País têm um custo que precisa ser pago pela sociedade.
Nenhum ministro está acima do Supremo
Por Correio Braziliense
O STF não pode se transformar numa arena em
que disputas pessoais, suspeitas de conflitos de interesse e decisões dos
próprios envolvidos deixem em segundo plano a Justiça e o interesse público
Nenhum homem está acima da instituição. Essa máxima, elementar numa democracia, tornou-se a questão central para o Supremo Tribunal Federal (STF). A crise provocada pelo caso Banco Master ultrapassou os limites de uma investigação criminal e expôs divergências entre ministros, Polícia Federal (PF) e Procuradoria-Geral da República (PGR) num grau de tensão que ameaça contaminar a credibilidade da própria Corte. O Supremo precisa, com urgência, reencontrar o caminho da estabilidade.
Não se trata de proteger seus integrantes nem
de blindá-los, mas de preservar uma instituição que ocupa posição central no
sistema democrático brasileiro. O STF não pode se transformar numa arena em que
disputas pessoais, suspeitas de conflitos de interesse e decisões dos próprios
envolvidos deixem em segundo plano a Justiça e o interesse público. A regra
deve valer para todos: fatos precisam ser investigados, responsabilidades
individualizadas e direitos preservados. Não existem atalhos legítimos no
Estado de Direito.
As investigações sobre o Master são
especialmente delicadas porque alcançaram extensa rede de relações
empresariais, jurídicas e políticas. Quando integrantes da mais alta Corte
entram em confronto por decisões ligadas a uma investigação dessa dimensão, o
problema imediatamente se torna institucional. Divergências jurídicas são
naturais num tribunal colegiado. O que não é normal é a impressão de que
decisões judiciais, investigações e medidas policiais possam ser movimentos
numa disputa entre magistrados.
Existe o risco de transformar o Supremo
simultaneamente em personagem, investigador, vítima e juiz de fatos que
eventualmente alcancem seus integrantes ou pessoas próximas a eles. A resposta
para esse problema não pode ser corporativa. Se existem suspeitas, devem ser
investigadas segundo a lei. Se forem falsas, os atingidos têm direito à
reparação. Se houver irregularidades, ninguém deve receber tratamento
privilegiado em razão do cargo que ocupa.
O mesmo rigor vale para Daniel Vorcaro e
eventuais colaboradores. Delação premiada não é sentença nem prova suficiente
para condenação. As declarações precisam ser confirmadas por provas
independentes. Da mesma forma, PF e Ministério Público precisam atuar com
autonomia, sem submissão aos interesses dos investigados ou às disputas
políticas e institucionais.
A crise também expõe um problema
anterior ao Master: a excessiva personalização do Supremo. O STF passou muitas
vezes a ser identificado pelos nomes dos ministros, e não pela força de sua
jurisprudência. Essa inversão precisa acabar. O Supremo não pertence aos seus
11 integrantes. Cada ministro exerce temporariamente uma parcela do poder
conferido pela Constituição à instituição. Ministros passam, a Corte permanece.
Defender o Supremo, portanto, não significa
defender automaticamente qualquer ministro. Pode significar investigar seus
integrantes, reconhecer impedimentos, corrigir decisões e impor limites. A
transparência fortalece o tribunal, enquanto o corporativismo o enfraquece.
Nada será mais destrutivo para sua
legitimidade do que consolidar a percepção de que existem dois padrões de
Justiça: um para os cidadãos e outro para as cúpulas do Estado. O caso Master
tornou-se um teste para o STF. O Congresso não pode usar a crise para intimidar
ministros, mas a Corte também não pode responder às críticas legítimas
refugiando-se numa fortaleza corporativa. A saída está na colegialidade, na
transparência, no respeito às competências constitucionais e ao devido processo
legal.
É preciso despersonalizar o conflito. Nenhum ministro é maior do que o Supremo, assim como o Supremo não está acima da Constituição. Sua autoridade será preservada se demonstrar que a regra fundamental da República vale para todos: ninguém está acima da lei.
Indefinição pode acirrar campanha eleitoral
Por O Povo (CE)
A sondagem do Datafolha, contratada pelo O
POVO, mostra que Ciro Gomes continua à frente, mas com a intenção de votos
refluindo. A tendência de votos no tucano caiu, enquanto a de Elmano de Freitas
A primeira pesquisa Datafolha sobre a intenção
de voto para governador do Ceará, realizada após o início da propaganda
eleitoral, mostra mudança importante em relação à anterior. Os dados do
levantamento, divulgados nesta quinta-feira, foram colhidos também após o
debate entre os concorrentes, evento realizado pelo Grupo de Comunicação O POVO
na região do Cariri.
Na pesquisa anterior, divulgada no dia 13 de
agosto, a diferença a favor do candidato Ciro Gomes (PSDB) em relação a Elmano
de Freitas (PT) era de 19 pontos percentuais, caindo agora para nove
pontos.
A sondagem do Datafolha, contratada pelo O
POVO, mostra que Ciro continua à frente, mas com a intenção de votos refluindo.
A tendência de votos no tucano caiu de 52% para 46%, enquanto Elmano subiu de
33% para 37%. Os demais candidatos não passam do percentual de 1% das
citações, o que pode apontar para uma decisão em primeiro turno.
No cenário espontâneo, quando os nomes dos
candidatos não são apresentados, há empate técnico entre Ciro (29%) e
Elmano (25%). Os dois concorrentes foram os únicos citados pelos entrevistados.
Visto assim, tudo indica que a propaganda
eleitoral alcançou os eleitores de algum modo, mostrando que esse meio de
divulgação de propostas ainda causa impacto, apesar do avanço dos meios
digitais.
Quanto aos debates, eles oferecem um
contraponto ao eleitor, que não é visto nem na propaganda no rádio e TV e muito
menos nas redes sociais. Nelas, prevalecem os "memes" e um
comportamento equivalente ao das torcidas de futebol, com muito barulho e
nenhuma luz. O antídoto, nesse caso, é recorrer à imprensa tradicional, que
oferece um panorama mais amplo da conjuntura, respeitando a verdade factual.
Mas não se defende aqui que uma eleição é
decidida apenas por esses critérios; muitos outros fatores contribuem para a
escolha ou rejeição de um candidato. Porém, são questões que devem
ser levadas em conta, de modo crítico, pelos eleitores.
O fato agora é que a campanha tende a se
acirrar ainda mais, pois Ciro continua à frente, mas a pesquisa mostra a
aproximação de Elmano, porém, ainda é difícil dizer se a tendência se
manterá. Certamente, a campanha de Ciro está analisando o resultado da
pesquisa, em busca do motivo que leva ao aumento das intenções de voto no
petista.
O governador, candidato à reeleição, também
não terá muito tempo para comemorar o aumento das intenções de voto em seu
nome, pois seu opositor ainda está nove pontos percentuais à sua
frente— e certamente não ficará parado.
O fato é que a um mês da votação do primeiro turno, a indefinição prevalece, com boas e más notícias para os dois candidatos.

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