sábado, 5 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O Supremo vandalizado

Por CartaCapital

O ministro André Mendonça produz o seu 8 de Janeiro particular

Duas reportagens de capa assinadas por André Barrocal servem de prelúdio para o espetáculo em curso. Embora manjado, o golpe nunca deixa de enganar os incautos. E de produzir os efeitos desejados, em maior ou menor medida. Na edição 1410, de 29 de abril, sob o título “Na Mira”, CartaCapital detalha o especial interesse do ministro André Mendonça em recolocar o desafeto Alexandre de Moraes no centro das investigações sobre as falcatruas do Banco Master. No número 1425, de 12 de agosto, descrevemos os pesos e medidas do “juiz torcedor”, Mendonça, empenhado em desviar o foco das denúncias contra Flávio Bolsonaro, representante do clã que o instalou em uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

Nestes meses, o magistrado “terrivelmente evangélico” cumpriu sua missão com a devoção de um talibã. Os vazamentos das conversas de Fábio Luís, filho do presidente Lula, com a empresária Roberta Luchsinger, na esteira do inquérito que apura os desvios no INSS, foram uma tentativa de igualar o campeonato da corrupção quando a opinião pública estava interessada em conhecer o destino do dinheiro repassado pelo banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar a “obra-prima” Dark Horse, cinebiografia de um condenado por tentativa de golpe. Nem se compara, porém, à mais ousada emboscada de Mendonça. A exposição, na terça-feira 1º, das relações de Moraes com Vorcaro reverbera além do gabinete do ministro alvejado. Incita a desconfiança pública em relação ao STF e se estende à Procuradoria-Geral da República e ao comando da Polícia Federal.

É desnecessário afirmar que Moraes deve muitas e convincentes explicações, se possível. A oferta de cartões de crédito aos filhos do ministro, os agrados variados à família, a revisão pelo magistrado do contrato do escritório da esposa, Viviane Barci, e as mensagens enviadas pelo banqueiro às vésperas de sua prisão tornam praticamente insustentável a sua permanência na Corte. Caso a maioria dos pares decida rejeitar a abertura de um inquérito contra o colega, a crise institucional contaminará todo o ambiente.

Tão importante quanto escrutinar o comportamento de Moraes é, no entanto, decifrar as intenções de Mendonça. E o timing. O escudeiro da família Bolsonaro partiu para o tudo ou nada e decidiu produzir um 8 de Janeiro particular, ao vandalizar a instituição da qual faz parte. Abriu o sigilo de um relatório preliminar a respeito de Moraes horas depois de vir à tona um pagamento extra de Vorcaro a Flávio. Optou por abrir as portas do inferno, conforme a avaliação de fontes do tribunal.

A terra arrasada planejada pela República de Curitiba desaguou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018, desfecho só possível por conta da demolição da institucionalidade pela Lava Jato, com aval das Cortes superiores. Mendonça agora salga o solo para que nada frutifique.

Há, ressalte-se, uma notável diferença: os entusiastas da operação camicase do ministro não poderão, como fizeram após 2018, alegar inocência se a barbárie miliciana se reinstalar no País. Eles sabem muito bem o que fazem. •

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

STF deve rechaçar manobra de Moraes no caso Master

Por O Globo

É essencial que Fachin mantenha normalidade processual, com transparência e firmeza nas decisões

Diante de sua mais aguda crise em tempos democráticos, o Supremo Tribunal Federal (STF) só tem um caminho a seguir: não se deixar contaminar por preferências políticas — ao menos, não mais do que já aparenta estar — e permitir que os indícios de envolvimento do ministro Alexandre de Moraes em ilegalidades sejam investigados. O último capítulo da crise foi revelador: para salvaguardar sua honra, em vez de se defender abrindo mão de seus sigilos bancários e telefônicos, Moraes preferiu pedir investigação contra o ministro André Mendonça, usando um relatório da Polícia Federal (PF) que a própria instituição diz ter sido feito com base em fontes fracas de informação e não ter valor como prova. Por que ele faria tal pedido, que apenas cria tumulto processual? Talvez para desviar a atenção das revelações comprometedoras a respeito de suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro.

A atitude de Moraes, amparada em bases tão frágeis, é ainda mais curiosa quando se sabe que ele questionou a competência de Mendonça para pedir investigação a partir de um relatório da PF repleto de indícios concretos de sua ligação com o famigerado banqueiro — no que foi, para perplexidade geral, apoiado pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Há, ainda, outra questão a esclarecer, esta de natureza factual: se Moraes não é relator dos casos mencionados pela PF em seu pedido de investigação contra Mendonça — os inquéritos sobre as falcatruas no Banco Master, de Vorcaro, e as fraudes no INSS —, por que e quem na PF lhe forneceu tal relatório com menção a outros ministros? A resposta a tal questão traria luzes sobre as tensões que testam a integridade da mais alta Corte do país e sobre o papel da PF nessa trama.

O relatório da PF sobre Mendonça é o terceiro envolvendo ministros do STF no imbróglio do Master. O primeiro dizia respeito ao então relator do caso, o ministro Dias Toffoli. A PF demonstrou, com base em evidências persuasivas, que o resort Tayayá — que, depois veio a se saber, tinha Toffoli como sócio oculto — havia sido vendido a um fundo enredado na extensa teia de falcatruas do Master. Com base nisso, era evidente que o ministro deveria se declarar suspeito para conduzir o caso. Mas, apesar de todas as evidências, o episódio do Tayayá não resultou em investigação. Houve apenas uma nota conjunta do Supremo, emitida após reunião administrativa dos ministros, defendendo Toffoli e transferindo a relatoria a outro ministro — Mendonça foi então sorteado. A saída encontrada para transmitir a impressão de unidade da Corte e, ao mesmo tempo, preservar e prestigiar Toffoli foi emitir a nota e deixar por conta dele a renúncia da relatoria e a declaração de impedimento para votações no caso.

O segundo relatório veio à tona nesta semana, com evidências contra Moraes. Mostra que o próprio Moraes editou o contrato milionário por meio do qual o banco de Vorcaro remunerava o escritório de advocacia de sua mulher, além de fornecer aviões, helicópteros e cartões de crédito a seus familiares. E também que Vorcaro o consultou se deveria sair do país dois dias antes de ser preso, além de pedir que Moraes intercedesse junto ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, para bloquear as investigações contra o Master. O mesmo Gonet que, numa violação dos princípios éticos mais básicos, assinou o parecer da PGR defendendo a nulidade do relatório — fato que, por si só, põe em xeque sua permanência à frente da PGR e mais ainda deste caso.

Há, por fim, o terceiro relatório, frágil e oportunista, insinuando desvios e motivação política nas investigações conduzidas por Mendonça. Moraes usou essa análise da inteligência da PF, que não se sabe como nem por que foi produzida, como uma manobra para incluir Mendonça no abstruso inquérito 4781, o inquérito das fake news, criado em 2019 sem objeto definido e instrumento de um sem-número de abusos que há muito tempo justificam seu encerramento. O pedido de investigação de Mendonça chegou à presidência do STF depois de uma reunião de três horas entre Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), responsável por encaminhar pedidos de impeachment de ministros da Corte.

O ministro Edson Fachin, presidente do STF, entendeu por bem desmembrar esse pedido do inquérito das fake news — que se comprometeu a encerrar —, reuni-lo às evidências contra Moraes e deu um prazo de cinco dias úteis para todas as partes, inclusive Gonet e Rodrigues, prestarem esclarecimentos. A sociedade brasileira espera que essa decisão permita elucidar os graves fatos que pesam sobre Moraes e, por extensão, sobre o próprio STF. Isso só será possível com autorização do plenário da Corte para que ele seja investigado. Afinal, como Fachin disse nesta sexta-feira, “nenhuma autoridade está acima da Constituição”.

Fachin assumiu a presidência do Supremo propondo um código de ética para os ministros do tribunal. Até agora, no meio do seu mandato, nada conseguiu. Diante de um país estarrecido com o que se passa na Corte que preside, esperam-se dele transparência e firmeza. Repetir a “solução” Toffoli ou permitir que manobras processuais tornem a investigação um faz de conta seria um escárnio, um golpe perigoso na fragilizada credibilidade da instituição e, por conseguinte, na democracia brasileira. É essencial que seja mantida a normalidade processual, com o prosseguimento das investigações sob a relatoria de Mendonça, que até aqui vem se conduzindo corretamente em suas funções, apesar de todas as pressões sofridas.

Moraes ataca Mendonça e acerta a República

Por Folha de S. Paulo

Em vez de se defender, Moraes prefere fustigar quem trouxe à luz essas informações, usando inquérito anômalo

O ato diversionista não muda a situação; escritório de sua família manteve contrato de R$ 131 mi com quem saqueava o sistema financeiro

Na República vigora a impessoalidade. Defenda-se de quem o acusa, apresente os seus argumentos diante das imputações da outra parte. Um juiz imparcial, após o devido processo, decidirá o direito. O ministro Alexandre de Moraes atingiu a República ao alvejar seu colega André Mendonça.

Em vez de expor argumentos ante os gravíssimos indícios de promiscuidade com o maior fraudador bancário da história nacional, levantados pela Polícia Federal, preferiu usar superpoderes em causa própria e metralhar o juiz que presidiu a elaboração do relatório. Para isso acionou mais uma vez a anomalia jurídica que, com a cumplicidade dos seus pares, cultiva desde 2019 —o inquérito da autoproteção, mal denominado "das fake news".

A institucionalidade deu lugar à pistolagem. Moraes afirma na sua peça, sustentada em relatórios de valor probatório para lá de duvidoso de agentes da PF, que Mendonça exorbitou das suas prerrogativas, direcionou o inquérito e agiu sob motivação partidária.

Não pôde repetir o tratamento conferido a críticos menos ilustres —restrição de liberdades, censura, violação do sigilo de fonte. Mas chegou perto. No subtexto, acusa o colega de conspirar contra a democracia.

O ato diversionista de Moraes não muda a sua situação. Um facínora manteve um contrato extravagante, de R$ 131 milhões, com o escritório da família do ministro enquanto saqueava o sistema financeiro nacional e corrompia à direita, ao centro e à esquerda.

Mensagens que tinham o condão tecnológico de apagar-se após a visualização mostram uma intensa troca com o ministro às vésperas da prisão do arremedo de banqueiro. A família Moraes desfrutava do jato do fraudador, e seus filhos usufruíam de cartões de crédito do Banco Master.

Não parece ter passado pela cabeça do magistrado a opção de sustentar, à luz do sol, que as informações que o desabonam estariam erradas, que jamais atuou em prol dos interesses do dono do Master nem trocou as mensagens que têm sido imputadas a ele em relatório policial; ou o porquê de Daniel Vorcaro ter escolhido sua esposa para representá-lo por meio de um contrato de dezenas de milhões de reais.

Fez bem o presidente do STF, Edson Fachin, ao retirar o pedido de Moraes do inquérito de exceção e ao exigir dele e de Mendonça, do diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, explicações sobre aspectos formais e substanciais dos casos. Fachin tenta reintroduzir o império dos ritos e protocolos num terreno que ameaça descambar para o vandalismo.

O que está em jogo é uma instituição vital da República, o Supremo Tribunal Federal. A crise passou do ponto de ser administrável por pactos pessoais e oligárquicos de impunidade. O mal-estar é tamanho que apenas um processo sóbrio e profundo de prestação de contas e responsabilização poderá aplacá-lo.

Trump e Venezuela fazem acordo esdrúxulo por petróleo

Por Folha de S. Paulo

Casa Branca acerta com governo tutelado da vice de ex-ditador acesso a cerca de 20% das reservas do país

A Nabep, fundada por controverso empresário venezuelano, terá concessão de 17 campos por cem anos, e os EUA deterão 35% de seu capital

Passados oito meses da captura do ditador Nicolás Maduro e de tutela sobre o governo remanescente da Venezuela, os Estados Unidos fecharam um esdrúxulo acordo para garantir seu acesso a cerca de 20% das reservas estimadas de petróleo do país caribenho.

Não virá de Donald Trump nenhum constrangimento com o entendimento firmado com uma presidente interina, Delcy Rodríguez, ex-bolivariana convicta, que era vice de um regime mantido à base de fraudes eleitorais globalmente denunciadas.

A estranheza prossegue com a concessão por cem anos de 17 campos de petróleo à North American Blue Energy Partners (Nabep), companhia fundada em 2024 pelo controverso empresário venezuelano Alejandro Betancourt. O governo americano deterá 35% de seu capital.

Está subentendida, nos termos do acordo, a destinação dos campos operados atualmente por empresas chinesas e russas para a joint venture Nabep-Casa Branca. O pacto é mais claro ao fixar o direito dos EUA a 20% do petróleo comercializado, a preço de custo, e a sua preferência na venda dos 80% restantes.

Delcy Rodríguez argumenta que o acordo resultará em investimento de US$ 100 bilhões na estrutura petroleira venezuelana e US$ 209 bilhões em receitas. Mas as cifras podem crescer. A Chevron, única petroleira americana no país, anunciou a injeção de US$ 7 bilhões em cinco anos para dobrar sua produção a 600 mil barris por dia.

Há expectativa de retorno da Exxon Mobil e da ConocoPhillips, ambas dos EUA, e de a Nabep criar outras joint ventures para a exploração. Para uma economia altamente dependente do setor, degringolado por corrupção e desinvestimento ao longo dos 27 anos de domínio chavista, o acordo pode parecer auspicioso.

Entretanto não deixa de indicar uma pretensão monopolista dos EUA sobre a reserva petrolífera venezuelana. O quão aberto o governo tutelado será para atrair e prover segurança jurídica aos investimentos oriundos de outros países —exceto a China e a Rússia, já vetadas— muito dirá sobre tal suspeita.

A opacidade da negociação é criticada por aliados e opositores do regime decrépito. O fato de o acordo ter sido aprovado na terça-feira (1) pela Assembleia Nacional, presidida por Jorge Rodríguez, irmão de Delcy, em nada reforça sua legitimidade.

Tampouco parece promissora a redemocratização da Venezuela, dado que a Trump não interessa o risco de um governo eleito questionar seu pacto.

Alexandre de Moraes vandaliza o Supremo

Por O Estado de S. Paulo

Ao declarar guerra ao colega André Mendonça, o ministro, suspeito de ser ‘consigliere’ de Vorcaro, causa mais dano ao STF do que a horda de arruaceiros do 8 de Janeiro

Sem quebrar um copo, o ministro Alexandre de Moraes infligiu ao Supremo Tribunal Federal (STF) um dano mais grave do que o causado pelos arruaceiros que tomaram a Corte de assalto no fatídico 8 de janeiro de 2023. Na quinta-feira passada, Moraes vandalizou a instituição em nome de sua defesa pessoal.

O gatilho para a ira do ministro foi a revelação, feita por este jornal, de novos e inquietantes pormenores da promíscua – e potencialmente criminosa – relação entre ele e Daniel Vorcaro, que, como se sabe, celebrou um contrato de serviços advocatícios no valor de R$ 131 milhões com o escritório da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes. O teor das dezenas de mensagens extraídas de celulares de Vorcaro pela Polícia Federal (PF) sugere que Moraes atuava como uma espécie de consigliere do banqueiro vigarista – nada menos.

Diante desse fato escabroso, o único caminho republicano seria Moraes se afastar voluntariamente do cargo, poupando o Supremo de ser atirado na fossa moral em que ele mesmo se meteu. Mas, em vez disso, o ministro acionou o “modo sobrevivência” e usou o famigerado inquérito das fake news, seu brinquedo de pequeno tirano, para declarar guerra ao colega André Mendonça, o relator das investigações sobre o Banco Master no STF, que ousou levantar o sigilo do relatório da PF e, assim, expôs o grau de proximidade entre Moraes e Vorcaro.

Já um tal de “relatório de inteligência” – em tese, também feito pela PF – do qual Moraes se valeu para acusar Mendonça de improbidade administrativa, abuso de autoridade e violação da Lei Orgânica da Magistratura Nacional, a bem da verdade, é uma peça tosca que mal vale o papel em que foi escrita. Não tem cabeçalho oficial, não é assinado por um delegado federal e consiste em uma série de ilações sobre objetivos políticos de Mendonça. No corpo do próprio texto, pasme o leitor, consta a advertência de que se trata de um documento “sem caráter decisório e sem valor probatório” e, ademais, de “baixa a moderada confiabilidade”. Foi com base nisso que Moraes pediu – e o presidente do STF, Edson Fachin, em boa hora recusou – que Mendonça fosse incluído no rol de investigados do inquérito das fake news.

É preciso dizer sem rodeios: o sr. Alexandre de Moraes e todos os que o protegem no STF – a começar pelo decano do tribunal, Gilmar Mendes – se tornaram, não de agora, a maior fonte de instabilidade democrática no País. Essa ala daninha da Corte traiu o espírito norteador da criação do Supremo Tribunal Federal, em 1891, e a transformou nessa aberração corporativista que ameaça afundar o Brasil em uma crise de tal magnitude que, no limite, pode pôr em risco a própria democracia.

Para salvar a pele, Moraes ainda tenta impor uma falsa equivalência entre legítimas dúvidas técnicas a respeito da atuação de Mendonça como relator do caso Master e as suspeitas gravíssimas que pesam sobre si mesmo. Ao que tudo indica, Moraes aposta na confusão generalizada para, ao fim e ao cabo, evitar ter de responder sobre o mérito dessas suspeitas, fixando-se na forma como foram expostas. Também não se pode condenar quem veja em sua campanha iracunda a pavimentação do caminho até a nulidade de todas as investigações sobre o caso Master no STF – sonho de todos em Brasília que colocaram suas almas à venda para servir aos interesses comerciais de Vorcaro.

Para piorar, o subproduto dessa crise é a instrumentalização escancarada da PF: ora acionada por Moraes para produzir “relatórios” a seu feitio, ora orientada pelo decano do STF a praticar desobediência civil, ignorando decisões de Mendonça que considere “ilegais”, ora ameaçada pelo próprio Mendonça com o afastamento de seu diretor-geral, Andrei Rodrigues. Uma corporação que deve primar pela atuação legal, técnica e republicana virou joguete nas mãos de autoridades movidas por suas próprias agendas.

O STF se reergueu fisicamente dos escombros do 8 de Janeiro. É incerto, porém, se será capaz de se libertar do cativeiro em que foi aprisionado por Moraes, que faz da Corte refém de suas ambições. Agora cabe a Fachin liderar essa histórica missão de resgate. Se decidir fazê-lo, tomando as decisões que lhe cabem nessa hora grave, o ministro presidente pode estar certo de que terá do jornal O Estado de S. Paulo todo o apoio de que precisar.

Ao sabor das pesquisas

Por O Estado de S. Paulo

Não há preocupação genuína de Lula sobre os problemas causados pelas apostas online. Há, apenas, cálculo eleitoral e pressa para arranjar bandeiras a serem exploradas na campanha

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o governo prepara uma medida “drástica” contra as bets a ser lançada nos próximos dias. Antes fosse uma preocupação genuína – afinal, não faltam indícios de que as apostas online estão por trás de problemas seriíssimos como o aumento do endividamento das famílias, a queda no consumo de bens e serviços, a escalada dos transtornos de saúde mental e esquemas de lavagem de dinheiro. Nada disso sensibiliza Lula, mas apenas o impacto que uma decisão mais dura teria sobre sua popularidade.

Pesquisa Latam Pulse Brasil, da AtlasIntel, mostrou que a percepção da população sobre as bets já era majoritariamente negativa em abril. Ao menos 63,2% acreditavam que as apostas online trazem apenas prejuízos para a sociedade e 70% responderam que elas contribuíram muito para a ruína financeira das famílias. Nada mais natural. Quanto mais o tempo passa, maiores tendem a ser as perdas dos apostadores. É esse, precisamente, o modelo de negócios de qualquer jogo de azar, uma das razões pelas quais este jornal mantém posição contrária à liberação da jogatina desde 1946, ano em que foi proibida por lei no País.

O aspecto mais revelador da pesquisa AtlasIntel, no entanto, foi o fato de que a maioria dos entrevistados (35,3%) atribuiu ao governo Lula a disseminação das bets no País. Pudera. Embora as apostas online tenham sido liberadas no fim de 2018, foi somente após a regulamentação, aprovada no fim de 2023, que elas garantiram onipresença na publicidade e no patrocínio de times de futebol e competições esportivas.

De fato, não faltou esforço da equipe econômica para trabalhar pelo projeto de lei para taxar as bets em 2023. Tudo que o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, buscava à época eram fontes de receita para sustentar o arcabouço fiscal. A regulamentação, obviamente, não salvou a arrecadação nem foi capaz de reequilibrar as contas públicas, mas foi um incentivo pernicioso à ludopatia.

Mas os ventos mudaram, a reeleição de Lula não está garantida e sua equipe de campanha perdeu todo o pudor de usar a máquina pública para conquistar os votos necessários para alçá-lo a um quarto mandato. Nessa saga, o presidente mostrou estar disposto a fazer qualquer negócio, mesmo que tenha de passar por cima de medidas que seu próprio governo defendeu enfaticamente no passado recente.

Na mesma toada pretensamente fiscal, e sob intenso tiroteio da oposição, o governo se empenhou em aprovar a taxação das blusinhas no Congresso em 2024. Mas, para surpresa e fúria do varejo e da indústria nacionais, bastaram algumas pesquisas eleitorais desfavoráveis para que Lula assinasse, em maio, uma medida provisória para isentar as importações de pequeno valor sem qualquer argumento técnico.

Mas nada supera a indigência do debate sobre o fim da escala 6x1 e a diminuição da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais sem redução de salários. Para um presidente que ganhou fama de bom negociador nas greves de 1979 e 1980 enquanto líder dos metalúrgicos na região do ABC Paulista, a defesa da votação expressa de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para tratar do tema, sem articulação com os setores mais impactados e sem um período de transição minimamente adequado para que as empresas possam se adaptar, só se justifica pelo desespero de arranjar uma bandeira eleitoral para sua campanha.

Não é assim que os grandes temas do País deveriam ser debatidos, mas essa tem sido a tônica dos projetos que o governo Lula tem submetido à Câmara e ao Senado em anos eleitorais. Reconheça-se que, quando era presidente, Jair Bolsonaro não agiu de maneira diferente, ao propor, por exemplo, o calote dos precatórios para bancar o aumento do antigo Auxílio Brasil e os benefícios criados a toque de caixa para caminhoneiros e taxistas.

O pior é que não havia e não há convicção de quaisquer das partes envolvidas – nem a favor nem contra essas medidas, nem na esquerda nem na direita. Não há sequer a defesa de um projeto de país. O que define o posicionamento do Executivo e do Congresso nesses casos é apenas e tão somente o cálculo das urnas. Não é por acaso que nosso desenvolvimento está empacado há décadas.

O poço sem fundo dos Correios

Por O Estado de S. Paulo

Mesmo com 16.º trimestre consecutivo de resultados negativos, Lula descarta privatizar a empresa

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva descartou a possibilidade de privatizar os Correios. Em entrevista à TV Globo, ele reconheceu que a estatal “não se adaptou aos novos tempos” e considerou, no máximo, a possibilidade de fazer parcerias com empresas brasileiras ou estrangeiras. “Não considero vender. Considero recuperar os Correios para prestar serviços de qualidade ao povo brasileiro”, afirmou.

A entrevista foi concedida dias antes de os Correios anunciarem um prejuízo de R$ 5,5 bilhões no primeiro semestre, 30,4% acima dos R$ 4,26 bilhões alcançados no mesmo período do ano passado. No segundo trimestre, o resultado negativo atingiu R$ 2,39 bilhões, 5,5% menor que o do segundo trimestre do ano passado. Malgrado a retórica do governo, obviamente não há o que comemorar.

É preciso ser muito otimista para acreditar que o pior já passou. A despeito da adesão de 6.545 empregados ao Plano de Demissão Voluntária (PDV), a redução de despesas com pessoal foi de apenas 3,8% nos seis primeiros meses do ano e de 4,9% no trimestre. As receitas, por outro lado, recuaram ainda mais – a queda foi de 3,9% no semestre e 5,4% no segundo trimestre, mesmo com o fim da taxa das blusinhas e o aumento das importações de bugigangas.

A margem bruta ficou ainda mais apertada. Foi de R$ 121 milhões no segundo trimestre, ante R$ 294,5 milhões no mesmo período do ano passado; considerando o semestre, subiu de R$ 233,2 milhões em 2025 para R$ 274,5 milhões neste ano. De qualquer forma, é muito pouco para uma empresa que, bem ou mal, faturou R$ 8,2 bilhões nos seis primeiros meses do ano passado e R$ 7,9 bilhões neste ano, o que só evidencia que o problema está em seus custos.

Lula, no entanto, se recusa a enxergar a realidade. “Desde 1985 os Correios brasileiros vivem crise e alguém quer privatizar os Correios”, afirmou, como se o fato de a empresa ter registrado o 16.º trimestre consecutivo de prejuízos fosse um problema de menor importância. Ao contrário: é justamente essa condescendência com resultados tão ruins que faz com que os Correios sejam um sorvedouro de dinheiro público.

Mesmo depois de conseguir um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a um consórcio de bancos, a empresa ainda negocia mais R$ 7 bilhões, além de R$ 2,9 bilhões junto ao Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos Brics. Em paralelo, o governo acaba de confirmar que fará um aporte de R$ 6 bilhões na empresa no ano que vem – uma contrapartida exigida pelos bancos para fecharem a primeira operação, que conta com garantia da União em caso de calote.

Embora Lula tenha garantido que os Correios sairão dessa crise, não parece crível esperar que a empresa volte a ter lucro em 2027, como sinalizou seu presidente, Emmanoel Rondon, em sua primeira entrevista no cargo, ou ao menos consiga zerar as perdas no ano que vem, como declarou em maio passado.

Mais provável é que o governo passe a aportar recursos públicos na empresa regularmente, sob o pretexto de que a universalização do serviço e a presença em todos os municípios do País têm um custo que precisa ser pago pela sociedade.

Nenhum ministro está acima do Supremo

Por Correio Braziliense

O STF não pode se transformar numa arena em que disputas pessoais, suspeitas de conflitos de interesse e decisões dos próprios envolvidos deixem em segundo plano a Justiça e o interesse público

Nenhum homem está acima da instituição. Essa máxima, elementar numa democracia, tornou-se a questão central para o Supremo Tribunal Federal (STF). A crise provocada pelo caso Banco Master ultrapassou os limites de uma investigação criminal e expôs divergências entre ministros, Polícia Federal (PF) e Procuradoria-Geral da República (PGR) num grau de tensão que ameaça contaminar a credibilidade da própria Corte. O Supremo precisa, com urgência, reencontrar o caminho da estabilidade.

Não se trata de proteger seus integrantes nem de blindá-los, mas de preservar uma instituição que ocupa posição central no sistema democrático brasileiro. O STF não pode se transformar numa arena em que disputas pessoais, suspeitas de conflitos de interesse e decisões dos próprios envolvidos deixem em segundo plano a Justiça e o interesse público. A regra deve valer para todos: fatos precisam ser investigados, responsabilidades individualizadas e direitos preservados. Não existem atalhos legítimos no Estado de Direito.

As investigações sobre o Master são especialmente delicadas porque alcançaram extensa rede de relações empresariais, jurídicas e políticas. Quando integrantes da mais alta Corte entram em confronto por decisões ligadas a uma investigação dessa dimensão, o problema imediatamente se torna institucional. Divergências jurídicas são naturais num tribunal colegiado. O que não é normal é a impressão de que decisões judiciais, investigações e medidas policiais possam ser movimentos numa disputa entre magistrados.

Existe o risco de transformar o Supremo simultaneamente em personagem, investigador, vítima e juiz de fatos que eventualmente alcancem seus integrantes ou pessoas próximas a eles. A resposta para esse problema não pode ser corporativa. Se existem suspeitas, devem ser investigadas segundo a lei. Se forem falsas, os atingidos têm direito à reparação. Se houver irregularidades, ninguém deve receber tratamento privilegiado em razão do cargo que ocupa.

O mesmo rigor vale para Daniel Vorcaro e eventuais colaboradores. Delação premiada não é sentença nem prova suficiente para condenação. As declarações precisam ser confirmadas por provas independentes. Da mesma forma, PF e Ministério Público precisam atuar com autonomia, sem submissão aos interesses dos investigados ou às disputas políticas e institucionais.

 A crise também expõe um problema anterior ao Master: a excessiva personalização do Supremo. O STF passou muitas vezes a ser identificado pelos nomes dos ministros, e não pela força de sua jurisprudência. Essa inversão precisa acabar. O Supremo não pertence aos seus 11 integrantes. Cada ministro exerce temporariamente uma parcela do poder conferido pela Constituição à instituição. Ministros passam, a Corte permanece.

Defender o Supremo, portanto, não significa defender automaticamente qualquer ministro. Pode significar investigar seus integrantes, reconhecer impedimentos, corrigir decisões e impor limites. A transparência fortalece o tribunal, enquanto o corporativismo o enfraquece.

Nada será mais destrutivo para sua legitimidade do que consolidar a percepção de que existem dois padrões de Justiça: um para os cidadãos e outro para as cúpulas do Estado. O caso Master tornou-se um teste para o STF. O Congresso não pode usar a crise para intimidar ministros, mas a Corte também não pode responder às críticas legítimas refugiando-se numa fortaleza corporativa. A saída está na colegialidade, na transparência, no respeito às competências constitucionais e ao devido processo legal.

É preciso despersonalizar o conflito. Nenhum ministro é maior do que o Supremo, assim como o Supremo não está acima da Constituição. Sua autoridade será preservada se demonstrar que a regra fundamental da República vale para todos: ninguém está acima da lei.

Indefinição pode acirrar campanha eleitoral

Por O Povo (CE)

A sondagem do Datafolha, contratada pelo O POVO, mostra que Ciro Gomes continua à frente, mas com a intenção de votos refluindo. A tendência de votos no tucano caiu, enquanto a de Elmano de Freitas

A primeira pesquisa Datafolha sobre a intenção de voto para governador do Ceará, realizada após o início da propaganda eleitoral, mostra mudança importante em relação à anterior. Os dados do levantamento, divulgados nesta quinta-feira, foram colhidos também após o debate entre os concorrentes, evento realizado pelo Grupo de Comunicação O POVO na região do Cariri.

Na pesquisa anterior, divulgada no dia 13 de agosto, a diferença a favor do candidato Ciro Gomes (PSDB) em relação a Elmano de Freitas (PT) era de 19 pontos percentuais, caindo agora para nove pontos.

A sondagem do Datafolha, contratada pelo O POVO, mostra que Ciro continua à frente, mas com a intenção de votos refluindo. A tendência de votos no tucano caiu de 52% para 46%, enquanto Elmano subiu de 33% para 37%. Os demais candidatos não passam do percentual de 1% das citações, o que pode apontar para uma decisão em primeiro turno.

No cenário espontâneo, quando os nomes dos candidatos não são apresentados, há empate técnico entre Ciro (29%) e Elmano (25%). Os dois concorrentes foram os únicos citados pelos entrevistados.

Visto assim, tudo indica que a propaganda eleitoral alcançou os eleitores de algum modo, mostrando que esse meio de divulgação de propostas ainda causa impacto, apesar do avanço dos meios digitais.

Quanto aos debates, eles oferecem um contraponto ao eleitor, que não é visto nem na propaganda no rádio e TV e muito menos nas redes sociais. Nelas, prevalecem os "memes" e um comportamento equivalente ao das torcidas de futebol, com muito barulho e nenhuma luz. O antídoto, nesse caso, é recorrer à imprensa tradicional, que oferece um panorama mais amplo da conjuntura, respeitando a verdade factual.

Mas não se defende aqui que uma eleição é decidida apenas por esses critérios; muitos outros fatores contribuem para a escolha ou rejeição de um candidato. Porém, são questões que devem ser levadas em conta, de modo crítico, pelos eleitores.

O fato agora é que a campanha tende a se acirrar ainda mais, pois Ciro continua à frente, mas a pesquisa mostra a aproximação de Elmano, porém, ainda é difícil dizer se a tendência se manterá. Certamente, a campanha de Ciro está analisando o resultado da pesquisa, em busca do motivo que leva ao aumento das intenções de voto no petista.

O governador, candidato à reeleição, também não terá muito tempo para comemorar o aumento das intenções de voto em seu nome, pois seu opositor ainda está nove pontos percentuais à sua frente— e certamente não ficará parado.

O fato é que a um mês da votação do primeiro turno, a indefinição prevalece, com boas e más notícias para os dois candidatos. 

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