Folha de S. Paulo
Paulo Freire propõe um método de
conscientização como centro de sua teoria pedagígica
Foi autor de um pensamento cultural de
alcance universal, com a educação como prática libertária
Se existisse o Prêmio Nobel da Educação, teria havido provavelmente a chance de o Brasil contar pela primeira vez com essa láurea. E o contemplado não poderia ser outro senão aquele cujos 105 anos agora se celebram, in memoriam: Paulo Freire, um dos três intelectuais mais citados na área de ciências humanas no mundo, com 48 títulos de doutor honoris causa por universidades como Harvard, Oxford e Cambridge, em várias das quais foi professor. Na França, incluído entre os 12 maiores educadores da história da humanidade.
É o Patrono da Educação do Brasil. Mas resta
saber de que "Brasil" se trata. Não certamente o mesmo daqueles que o
prenderam durante a ditadura
militar, tentando
desqualificar o seu método de alfabetização e seus conhecimentos sobre educação.
Para eles, Paulo Freire não passaria de "um criptocomunista encapuzado sob
a forma de alfabetizador". Cripto, encapuçado, quer dizer, "comunista
oculto? Nunca foi, era cristão, católico de formação. Nem é também o mesmo país
das figuras recentes da extrema direita que o elegeram como alvo de
"guerra cultural". O ex-presidente hoje enjaulado prometia
"entrar com um lança-chamas no MEC para tirar
Paulo Freire de lá". Ainda que sem saber por quê, claro.
Não só: o parque jurássico da pedagogia
sempre talhou carapuças injuriosas a Freire. O porquê pedagógico exigiria a
redação de um tratado. Para começar, seria preciso deixar claro que Paulo
Freire não foi mero "alfabetizador". Ele é mesmo uma exceção
histórica, por destoar do liberalismo puro, valorizando a tomada de consciência
das condições sociais em que se dá o processo educacional. Alguém que enfatiza
a autonomia da consciência do educando e as práticas escolares afinadas com a
compreensão dos conteúdos do saber.
Pressupondo uma simbiose da consciência do
mundo e da consciência de si, Freire propõe um "método de
conscientização" como centro de sua teoria pedagógica. Portanto, um
pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática
libertária. Inovador nesse panorama é o fato de que, desde a década de 1990 no
Brasil, os movimentos sociais ditos "rurais" ou "do campo"
põem a educação entre as suas demandas principais. Presentes, a inspiração
teórica de Freire e o fundo utópico que lastreia o direcionamento político de
um projeto popular, ideologicamente apoiado na educação.
Voltada para as classes exteriores ao poder
econômico-político, a educação freireana induz os movimentos sociais a se
constituírem como sujeitos pedagógicos coletivos. Uma pedagogia shakespeareana
do sonho construtivo: "I could be bounded in a nutshell and count myself a
king of infinite space, were it not that I have bad dreams" (Hamlet, ato
2, cena 2). "Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e me achar rei
do espaço infinito, se não tivesse maus sonhos". Falando da liberdade
sonhada dentro de um espaço limitado, Shakespeare dialoga com Paulo Freire: a
consciência se educa para ser livre, ainda que estreitos o seu entorno e a
mente dos brucutus.

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