terça-feira, 8 de setembro de 2026

Impacto de crise no STF tira força de Lula sem fortalecer Flávio, por César Felício

Valor Econômico

Tema da corrupção cresceu de 14% para 20% entre as preocupações do eleitorado em um intervalo de apenas cinco dias

pesquisa Quaest sobre a eleição presidencial divulgada neste feriado de 7 de Setembro colheu em seu período de entrevistas o pico da reverberação das denúncias contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes, cujas relações suspeitas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro foram expostas pelo colega de Corte, André Mendonça. Não há outro fato relevante entre esta rodada e a anterior, de 2 de setembro. O impacto, como era previsível, foi negativo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Ele fica patente na medida divulgada pelo instituto sobre a aprovação do governo. Ela caiu dois pontos percentuais (45% para 43%), enquanto a desaprovação subiu dois pontos (48% para 50%) . Este “gap” de sete pontos percentuais só é comparável ao quadro de abril, quando a desaprovação superava a aprovação em nove pontos.

O principal candidato oposicionista, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), transformou o noticiário sobre Moraes no carro-chefe de sua manifestação de 7 de setembro em São Paulo, que atraiu público discreto, segundo estimativa da USP/Cebrap e More in Common. Ele prometeu acabar com o “consórcio Lula/Moraes”. Seu candidato a vice, Alfredo Gaspar (PL-AL), foi mais didático: “Temos duas faces de uma mesma moeda, Lula e Alexandre. Não existe Lula sem Alexandre e não existe Alexandre sem Lula.”

Os candidatos bolsonaristas buscam surfar uma onda. Segundo a Quaest, o tema da corrupção cresceu de 14% para 20% entre as preocupações do eleitorado em um intervalo de apenas cinco dias. Está clara a importância do tema como fator de desgaste de Lula, independentemente de corresponder à realidade ou não.

Tanto é assim que antes da divulgação da pesquisa o pessimismo já grassava entre aliados do presidente. Em grupos de WhatsApp, ativistas previam que Lula apareceria em segundo lugar nas simulações de segundo turno. Não foi desta vez: há um empate numérico de 41% a 41% com Flávio, igual ao que havia em março. Lula perde um ponto percentual por rodada desde julho.

A simulação de primeiro turno não traz novidades, exceto pelo fato de que o terceiro colocado, Augusto Cury (Avante), não está em desabalada carreira: oscilou de 10% para 8%. O outsider, contudo, ainda é majoritariamente desconhecido: 52% afirmam não saber de quem se trata. Lula e Flávio perderam um ponto cada um, ficando respectivamente com 36% e 29%. Inelegível, Pablo Marçal (PRTB) também se tornou irrelevante. O quadro não muda no cenário em que ele é incluído.

A aposta extrema de Flávio e seus aliados no caso não é a troco de nada: o público de 28,5 mil pessoas estimado na Avenida Paulista indica que sua candidatura presidencial não empolga. A pesquisa Quaest mostra que, desde julho, Flávio não consegue reduzir sua elevada rejeição, ora em 55%. A de Lula é dois pontos percentuais abaixo.

Uma possível explicação para esta rejeição tão resistente é que a corrupção é um tema potencialmente tóxico para Flávio também, já que ele gravou um áudio pedindo dinheiro a Vorcaro. Foi em maio, depois dessa crise não houve outras de dimensão equivalente, mas há um cristal trincado.

Se Lula contraria uma regra universal de candidatos à reeleição, que é a de ter melhora de aprovação de governo ao longo da campanha, Flávio demonstra dificuldade de capturar o voto despolarizado.

Entre os eleitores que se dizem independentes, ele consegue 32% na simulação de segundo turno, ante 40% que dizem estar indecisos, querendo anular, votar branco ou não comparecer. Esse segmento reúne cerca de um terço do eleitorado.

O desencanto nessa faixa tanto com Lula quanto com Flávio ainda dá algum espaço para crescimento de Cury, que nesse segmento tem 17%, sete pontos percentuais atrás de Lula e oito pontos percentuais acima do senador do PL. O destino desses eleitores irá definir uma eleição que, tudo o mais constante, caracteriza Flávio Bolsonaro como favorito.

 

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