Valor Econômico
Tema da corrupção cresceu de 14% para 20% entre as preocupações do eleitorado em um intervalo de apenas cinco dias
A pesquisa Quaest sobre a eleição presidencial divulgada neste feriado de 7 de Setembro colheu em seu período de entrevistas o pico da reverberação das denúncias contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes, cujas relações suspeitas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro foram expostas pelo colega de Corte, André Mendonça. Não há outro fato relevante entre esta rodada e a anterior, de 2 de setembro. O impacto, como era previsível, foi negativo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ele fica patente na medida divulgada pelo instituto sobre a aprovação do governo. Ela caiu dois pontos percentuais (45% para 43%), enquanto a desaprovação subiu dois pontos (48% para 50%) . Este “gap” de sete pontos percentuais só é comparável ao quadro de abril, quando a desaprovação superava a aprovação em nove pontos.
O principal candidato oposicionista, Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
transformou o noticiário sobre Moraes no carro-chefe de sua manifestação de 7
de setembro em São Paulo, que atraiu público discreto, segundo estimativa da
USP/Cebrap e More in Common. Ele prometeu acabar com o “consórcio Lula/Moraes”.
Seu candidato a vice, Alfredo
Gaspar (PL-AL), foi mais didático: “Temos duas faces de
uma mesma moeda, Lula e Alexandre. Não existe Lula sem Alexandre e não existe
Alexandre sem Lula.”
Os candidatos bolsonaristas buscam surfar uma
onda. Segundo a Quaest,
o tema da corrupção cresceu de 14% para 20% entre as preocupações do eleitorado
em um intervalo de apenas cinco dias. Está clara a importância do tema como
fator de desgaste de Lula, independentemente de corresponder à realidade ou
não.
Tanto é assim que antes da divulgação da
pesquisa o pessimismo já grassava entre aliados do presidente. Em grupos
de WhatsApp,
ativistas previam que Lula apareceria em segundo lugar nas simulações de
segundo turno. Não foi desta vez: há um empate numérico de 41% a 41% com
Flávio, igual ao que havia em março. Lula perde um ponto percentual por rodada
desde julho.
A simulação de primeiro turno não traz
novidades, exceto pelo fato de que o terceiro colocado, Augusto Cury (Avante), não
está em desabalada carreira: oscilou de 10% para 8%. O outsider, contudo, ainda
é majoritariamente desconhecido: 52% afirmam não saber de quem se trata. Lula e
Flávio perderam um ponto cada um, ficando respectivamente com 36% e 29%.
Inelegível, Pablo
Marçal (PRTB) também se tornou irrelevante. O quadro não
muda no cenário em que ele é incluído.
A aposta extrema de Flávio e seus aliados no
caso não é a troco de nada: o público de 28,5 mil pessoas estimado na Avenida
Paulista indica que sua candidatura presidencial não empolga. A pesquisa Quaest
mostra que, desde julho, Flávio não consegue reduzir sua elevada rejeição, ora
em 55%. A de Lula é dois pontos percentuais abaixo.
Uma possível explicação para esta rejeição
tão resistente é que a corrupção é um tema potencialmente tóxico para Flávio
também, já que ele gravou um áudio pedindo dinheiro a Vorcaro. Foi em maio,
depois dessa crise não houve outras de dimensão equivalente, mas há um cristal
trincado.
Se Lula contraria uma regra universal de
candidatos à reeleição, que é a de ter melhora de aprovação de governo ao longo
da campanha, Flávio demonstra dificuldade de capturar o voto despolarizado.
Entre os eleitores que se dizem
independentes, ele consegue 32% na simulação de segundo turno, ante 40% que
dizem estar indecisos, querendo anular, votar branco ou não comparecer. Esse
segmento reúne cerca de um terço do eleitorado.
O desencanto nessa faixa tanto com Lula
quanto com Flávio ainda dá algum espaço para crescimento de Cury, que nesse
segmento tem 17%, sete pontos percentuais atrás de Lula e oito pontos
percentuais acima do senador do PL. O destino desses eleitores irá definir uma
eleição que, tudo o mais constante, caracteriza Flávio Bolsonaro como favorito.

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