quarta-feira, 16 de setembro de 2026

José Carlos Mariátegui, uma realidade peruana, por Ivan Alves Filho*

Seu nome era José Carlos Mariátegui. Ele viveu pouco: somente 35 anos. Peruano, mestiço de índio e espanhol, começou a existência como entregador de jornais e linotipista do La Prensa, aos 15 anos de idade. Fez-se depois jornalista e ativista político. 

Mariátegui viajou em 1919 para a Itália, onde permaneceu por quatro anos, assistindo à ascensão do fascismo no país. Lá, tornou-se amigo pessoal do ativista e pensador comunista Antonio Gramsci, preso depois por mais de dez anos pelos fascistas. O escritor francês Henri Barbusse e o escritor russo Máximo Gorki também se tornaram seus amigos nesse período. 

De volta à sua terra, já casado com uma italiana, Anna Chiappe, Mariátegui estabelece contato com um “agitador índio” de Puno, Ezequiel Urviola. A partir daí, ele passa a trabalhar, no interior do Grupo Ressurgimiento, composto por trabalhadores manuais e intelectuais, pelo chamado indigenismo, considerando desde então a questão indígena como “o problema de base do Peru”. Em particular, José Carlos Mariátegui se interessa pela problemática da terra indígena, centrada nas ayllus ou comunidades. Na sua compreensão, a terra indígena possui uma dimensão econômica, mas também espiritual e cultural. 

Mariátegui fundou, em 1928, o Partido Socialista Peruano, integrando-o à II Internacional Comunista criada por Lenin e seus companheiros logo após a Revolução Russa de 1917. Apesar de ser o secretário geral do Partido, ele era um marxista heterodoxo, por assim dizer. Em que sentido? Por uma razão: Mariátegui procurou incorporar o marxismo à realidade latino-americana, isto é, às suas particularidades históricas e, mesmo, étnicas. Mas era um homem disciplinado: “os intelectuais de verdadeira filiação revolucionária”, escreveu ele, “não têm mais remédio que aceitar um posto em uma ação coletiva.” Em 1929, organizou a combativa Central Geral dos Trabalhadores do Peru. Um ano depois, Mariátegui faleceu em consequência de uma grave infecção, contraída ainda na infância. Encarcerado em 1924 e em 1927 pelo governo do Peru, ele foi o fundador da revista Amauta (sábio, em quíchua), que circulou entre 1926 e 1930. 

José Carlos Mariátegui teve suas obras completas reunidas em 1959, com destaque para os estudos políticos, econômicos e educacionais. Seu principal livro talvez tenha sido Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. 

*Ivan Alves Filho, historiador

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