O Globo
O pessoal do abafa, a longa fileira de
autoridades que se beneficiaram do dinheiro de Vorcaro, já está em campo
Muitos analistas sugeriram que Alexandre de
Moraes deveria renunciar ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
diante da revelação dos fortes indícios de relações impróprias com o
ex-banqueiro Daniel
Vorcaro. Afastado, Moraes contrataria um bom advogado e se dedicaria a sua
defesa. Seria, de fato, uma atitude republicana, levando em conta os interesses
do país — dado o tamanho do caso — e preservando o próprio STF.
Se fizesse isso, Moraes se despiria da couraça que o protege — o poder do cargo — e perderia o foro privilegiado. Voltaria a ser um brasileiro comum, embora rico. Especulando: que condições deveriam estar presentes para que Moraes tomasse tal decisão? Duas: a convicção pessoal de que é inocente e a certeza de que teria um julgamento justo.
Tire o leitor suas próprias conclusões — mas
Moraes não apenas permaneceu no cargo, como usou seus poderes para atacar, não
para se defender. Atacou o ministro André Mendonça, que havia tornado público o
relatório da Polícia
Federal (PF) em que aparecem fortes indícios de que Moraes mantinha as
tais relações impróprias com Vorcaro. Aliás, “relações impróprias” é a
expressão mais leve que se pode aplicar ao caso. Pelos três grandes jornais
brasileiros, muitos se referiram a Moraes como advogado, conselheiro ou
funcionário do banqueiro que praticou a maior fraude financeira da História
brasileira.
No documento em que pede investigação sobre a
atuação de Mendonça, Moraes afirma ter encontrado fortes indícios de que seu
colega cometeu crime de responsabilidade, improbidade administrativa e abuso de
autoridade. Dá cadeia. Com base num relatório interno e apócrifo do PF, afirma
que Mendonça extrapolou sua função de relator (do caso Master) para assumir o
papel de investigador. Isso ocorreu, diz ele, porque Mendonça, de fato,
determinou que a PF investigasse quem era o destinatário de 51 mensagens
encontradas nos celulares de Vorcaro. Eram para um número de Moraes. Verificou-se
ainda que o ministro respondera a Vorcaro, mas por um sistema que apaga as
mensagens depois de lidas.
Temos aqui forma e conteúdo. No formal:
Mendonça teria a autoridade legal para determinar a busca à PF? Para Moraes e
para o procurador-geral da República, Paulo
Gonet, a resposta é não. Consequência: todo o processo é nulo, deve ir para
o lixo.
Muitos juristas opinaram sobre o caso. Alguns
disseram que a atitude de Mendonça pode ter atropelado o devido processo legal.
Outros afirmaram que o ministro relator tem a prerrogativa de mandar
investigar. Aliás, no inquérito das fake news, Alexandre de Moraes fez isso
diversas vezes — e logo determinando mandados de prisão, busca, apreensão e
censura. Mendonça não fez nada parecido. Não pediu a apreensão para perícia dos
celulares de Moraes, onde podem estar as respostas a Vorcaro. De todo modo,
depois do formal, resta o conteúdo — não contestado nem por Moraes, nem por
Gonet. E o conteúdo é devastador.
De maneira que ficamos assim: de um lado,
Mendonça recomenda a investigação de Moraes, com base no relatório (oficial) da
PF que apanhou as 51 conversas entre o ex-banqueiro e o ministro. Os crimes
apontados são advocacia administrativa, corrupção, prevaricação e exploração de
prestígio. Dá cadeia. De outro, Moraes pede a investigação de Mendonça, por
vícios formais no processo.
O presidente do STF, Edson
Fachin, chamou os dois processos para seu gabinete. E deu prazo de cinco
dias úteis para que todos os envolvidos se manifestem. O pessoal do abafa, a
longa fileira de autoridades que se beneficiaram do dinheiro de Vorcaro, já
está em campo. A tese: um caso anula o outro, um empate. Assim, segue o
argumento, ou os dois ministros estão inocentados ou os dois devem ser punidos.
Não poderia haver ofensa maior ao povo
brasileiro. Não há empate. Um ministro aparece como interlocutor e consultor de
um fraudador do sistema financeiro. Esse é o conteúdo. Outro ministro talvez
tenha ido além de sua autoridade formal. Parece claro, mas já ofenderam o povo
tantas vezes.

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