Correio Braziliense
A poucos dias da eleição, a impressão de que
ministros estão à beira do pugilato encobre os fundamentos das decisões. Não há
risco de fraude eleitoral, mas há uma crise de confiança
Mitsuyo Maeda, o Conde Koma, nasceu no Japão em 1878 e fez da luta uma
profissão itinerante. Formado no judô de Jigoro Kano, percorreu países
demonstrando técnicas e enfrentando adversários de diferentes modalidades.
Chegou ao Brasil em 1914 e passou por Manaus em dezembro de 1915, com
apresentações no Teatro Polytheama. Seus desafios ajudavam a divulgar uma arte
marcial na qual técnica, equilíbrio e alavancas permitiam superar a força
bruta.
A escalada começou com o Banco Master. A investigação conduzida por André
Mendonça, as mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e os questionamentos
envolvendo Alexandre de Moraes expuseram divisões internas que o tribunal não
conseguiu administrar nos colegiados. A abertura de informações e a disputa
sobre os limites das apurações converteram divergências processuais em
confrontos públicos entre os ministros. Desde então, cada novo processo
politicamente sensível passou a ser interpretado à luz desse conflito, mesmo
quando possui fundamentos e objeto próprios.
O desgaste avançou sobre o reajuste do Bolsa Família e os precatórios do setor
sucroalcooleiro. No primeiro caso, Mendonça rejeitou uma iniciativa no TSE por
razões processuais; depois, Gilmar Mendes reconheceu a validade do aumento no
Supremo. Nos precatórios, referências encontradas no material do Master a
pessoas próximas de Nunes Marques ampliaram a tensão. Esses episódios não
demonstram, por si, atuação coordenada de facções judiciais. Revelam, entretanto,
um ambiente no qual decisões alimentam suspeitas de movimentos entre
adversários.
Dimensão histórica
A crise desembocou diretamente na campanha na sexta-feira. Mendonça determinou,
no TSE, a retirada de publicações que atribuíam a Flávio Bolsonaro a intenção
de remover de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. No
domingo, Flávio Dino permitiu o restabelecimento de conteúdos, invocando a
liberdade de expressão. Na segunda-feira, Fux suspendeu os efeitos da decisão
do colega e restaurou a ordem eleitoral até a manifestação do plenário. Em
quatro dias, as plataformas receberam comandos sucessivos e contraditórios
sobre o mesmo assunto.
Fux aplicou uma espécie de contragolpe: evocou o rigor empregado pelo próprio
Supremo nos inquéritos sobre desinformação para questionar a liberação de uma
narrativa considerada falsa pelo TSE. O argumento expõe uma cobrança de
coerência. Mas o procedimento reproduz o problema que pretende conter: outra
decisão individual neutraliza a anterior, enquanto o colegiado aguarda para
estabelecer uma orientação comum.
Nunes Marques, presidente do TSE, levou sua
reação a Edson Fachin e advertiu para o risco de captura institucional da Corte
Eleitoral. A expressão mostra a profundidade da ruptura: o tribunal responsável
pela votação passou a reclamar da interferência do Supremo, de onde provêm três
de seus integrantes. O ativismo monocrático voltou como um bumerangue. A
expansão do poder individual, frequentemente justificada pela urgência de
proteger a democracia, abriu caminho para uma disputa sobre quem pode impor sua
interpretação aos demais.
A poucos dias da eleição, a impressão de que ministros estão à beira do pugilato ameaça encobrir os fundamentos de suas decisões. Não há risco de fraude eleitoral, mas há uma crise de confiança. Quando os árbitros parecem disputar o resultado, oferecem aos derrotados argumentos para contestar as regras e aos observadores internacionais motivos para duvidar da estabilidade institucional brasileira. A Corte precisa recuperar sua autoridade com decisões coletivas fundamentadas e critérios consistentes. A lição da arte suave deveria servir a Fux e aos colegas: dominar a própria força é tão importante quanto vencer um adversário. No octógono do Supremo, a legitimidade das eleições não pode acabar imobilizada. Existe uma dimensão ética e histórica que precisa ser considerada pela Corte neste momento.

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