quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Alta no custo do BPC exige revisão de critérios

Por O Globo

Tornar mais racional gasto com o benefício não significa deixar quem precisa sem assistência — ao contrário

A trajetória do gasto com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que garante um salário mínimo a brasileiros com mais de 65 anos ou com deficiência e baixa renda, ressalta a urgência de reformular os programas sociais. Entre 2016 e 2025, o BPC foi a despesa com maior aumento médio real entre os gastos não financeiros do governo. Pelos cálculos otimistas da equipe econômica, custará R$ 153,3 bilhões aos cofres públicos em 2027, alta de 7,2% na comparação com 2026. Computando o reajuste recente do Bolsa Família, os dois principais benefícios assistenciais consumirão mais de 10% das despesas primárias da União no ano que vem.

É função do Estado atender à população desassistida, e o nível de desigualdade no Brasil exige programas sociais robustos, mas o BPC tem crescido a um ritmo incomum. O principal vetor do aumento na quantidade de contemplados são os beneficiários com deficiência. Essa categoria cresceu 45% entre 2021 e 2025. Como demonstrou reportagem do GLOBO, os esforços do governo para disciplinar a concessão não têm sido suficientes. Num primeiro momento, a intenção foi retirar do programa quem tinha deficiências leves, mas faltou força para vencer resistências no Congresso. No fim, houve apenas alterações nos critérios de elegibilidade por renda, além da exigência de biometria e atualização do cadastro a cada dois anos.

As mudanças foram responsáveis pela queda recente nos benefícios pagos — de 6,44 milhões em setembro de 2025 para 6,36 milhões em julho. Mas, como o próprio governo reconheceu ao apresentar o Orçamento, o movimento de queda é temporário, resultado da dificuldade de adaptação às novas exigências. No ano que vem, a previsão é que os benefícios alcancem 6,45 milhões, novo recorde.

O Judiciário tem sido protagonista na concessão do BPC em situações duvidosas. No ano passado, um em quatro contemplados por deficiência entrou no programa pela via judicial. A avaliação técnica do governo conclui que o requerente não cumpre os requisitos, nega o pedido, mas depois perde a disputa na Justiça. Com isso, o total não para de crescer. Sem novo esforço junto ao Congresso para definir de maneira sensata o grau de deficiência que exige auxílio estatal, continuará aberta a porta a todo tipo de abuso. De forma complementar, o governo deveria trabalhar para unificar benefícios, juntando o BPC a outros já existentes para quem apresenta deficiência.

O BPC para idosos também precisa de mudanças. Da maneira como está, paga aos beneficiados o mesmo valor do piso do INSS. Com tal formatação, não há incentivo para um trabalhador contribuir para a Previdência, pois sabe que receberá um salário mínimo independentemente disso. Com menos contribuições, aumenta o rombo previdenciário, que não para de crescer. Faria mais sentido adotar um benefício inferior ao mínimo e aumentá-lo de acordo com os anos de contribuição.

A explosão do BPC expõe as brechas para abusos na rede de proteção social brasileira. Torná-lo mais eficaz não significa deixar sem assistência quem precisa. Ao contrário. O efeito da racionalização seria o oposto. Como o Orçamento federal é engessado, o poder de ação do Executivo é limitado. Ao ganhar eficiência no gasto com programas sociais, o governo teria mais recursos para dedicar a outras áreas cruciais para a população carente.

Garimpo de cassiterita representa ameaça ambiental para Amazônia

Por O Globo

Autoridades têm de agir para evitar que Bom Futuro, em Rondônia, repita roteiro de Mariana e Brumadinho

Maior lavra de cassiterita a céu aberto do mundo, o garimpo de Bom Futuro, em Ariquemes, a 200 km de Porto Velho (RO), tem deixado um rastro crescente de destruição ambiental na Amazônia. A exploração do minério tem impacto na bacia do Rio Santa Cruz e tem sido fonte de contaminação contínua na região nos últimos 40 anos. As barragens acumulam rejeitos com potencial de provocar um desastre ambiental de vulto, espalhando metais pesados, tóxicos e até radioativos pelo Vale do Jamari até o Madeira, afluente do Rio Amazonas. Visitado pela reportagem do GLOBO, o garimpo recebe descarte diário e inadequado dos subprodutos da extração mineral.

O início da exploração da reserva, nos anos 1980, chegou a afetar a cotação mundial do estanho. Décadas depois, o avanço da economia digital aumentou a procura por cassiterita, impulsionada pelo crescimento da demanda pelo metal, usado na soldagem de circuitos eletrônicos, chips ou mesmo baterias de veículos elétricos.

No momento, as autoridades procuram evitar um desastre ambiental sem precedentes na Amazônia, que poderia provocar estrago maior que a ruptura das barragens de Mariana e Brumadinho em Minas Gerais. O Ministério Público Federal (MPF) investiga rachaduras nas barragens, ampliação de estruturas não autorizadas e a contaminação de cursos d’água no Vale do Jamari. Uma audiência na Câmara Municipal de Itapuã do Oeste trouxe a público vídeos, fotos e relatos de falhas graves no manejo dos rejeitos. Todo o material ficou com o MPF.

Bom Futuro guarda características similares às de Serra Pelada, no interior do Pará, nos anos de 1980. O garimpo atrai gente sem qualquer aptidão, organizados em cooperativas. A cassiterita é adquirida pela White Solder, uma indústria de mineração e fundição de Ribeirão Preto (SP). A empresa e uma das cooperativas, a Coopertin, são processadas na Justiça Federal por exploração ilegal de terras da União e lavagem de minérios de áreas protegidas.

Em setembro do ano passado, o MPF realizou uma inspeção em Bom Futuro, com apoio da Polícia Federal, nas barragens Jacaré Inferior e Jacaré Superior. Constatou risco de desmoronamento nos períodos de chuvas intensas. Em vistorias anteriores, já havia solicitado instalação de câmeras para o monitoramento das barragens. Nada foi feito, sob a alegação de que há risco de furto.

Há outros problemas, como homens, mulheres, adolescentes e crianças que resgatam cassiterita dos sulcos deixados pelas escavadeiras, nas lagoas de rejeitos ou poços escavados manualmente, sem qualquer proteção. Conhecidos como “requeiros”, guardam semelhança com as multidões que subiam e desciam pelas bordas da enorme cratera de Serra Pelada. Uma peculiaridade de Bom Futuro é a denúncia de que atua no local uma milícia formada por ex-policiais militares, a serviço de empresas e cooperativas. As autoridades precisam agir com determinação para mitigar os riscos antes que ocorra o pior.

Sem conter gasto público, não haverá Desenrola que baste

Por Folha de S. Paulo

Governo Lula lança terceiro programa de renegociação de dívidas, agora com uso de dinheiro do contribuinte

Juros altos, impulsionados pelos gastos do governo, asfixiam famílias e empresas; há risco de rodadas sucessivas incentivarem más práticas

A política econômica gastadora do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) empurra os juros para cima e, com eles, o custo do crédito. Famílias e empresas pagam mais caro para rolar as dívidas contraídas, numa espiral de taxas elevadas e inadimplência. Ante o problema criado, o governo lança um paliativo atrás do outro.

O Desenrola 3, recém-instituído por medida provisória, é mais uma das iniciativas improvisadas na tentativa de agradar à população às vésperas da eleição presidencial. Novamente o Planalto lida com as consequências das próprias decisões sem mexer na causa —que é o ritmo de expansão dos gastos do Tesouro.

Desta vez, o poder público não se limitará a intermediar acordos entre credores e devedores. A União fica autorizada a comprar, em procedimento competitivo, carteiras de dívidas bancárias e não bancárias de pessoas físicas com valor original de até R$ 10 mil em atraso de dois a quatro anos e meio.

O deságio mínimo exigido dos credores é de 90%, e o abatimento obtido deve ser repassado ao devedor, que poderá quitar o saldo ou parcelá-lo sob regras ainda a serem definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

O governo fala em até R$ 150 bilhões em débitos elegíveis, R$ 75 bilhões efetivamente renegociados e 15 milhões de beneficiários. O teto de recursos públicos é de R$ 15 bilhões, com impacto nos Orçamentos de 2027 e 2028.

O cronograma prevê leilões a partir de novembro. Carteiras antigas de cartão de crédito e de crédito pessoal sem garantia já circulam no mercado secundário com descontos iguais ou superiores ao piso de 90%.

A diferença é que o Tesouro usará recursos do contribuinte, ocupando o lugar de um comprador privado. Não surpreende que bancos aprovem a medida, pois poderão desovar operações com devedores inadimplentes.

Na prática, o governo gasta duas vezes. Primeiro, ao sustentar uma trajetória de despesa que impede a queda mais rápida dos juros e encarece a rolagem da dívida pública e o crédito. Depois, ao destinar recursos escassos para aliviar quem foi asfixiado por esse mesmo encarecimento.

O quadro, de fato, é grave. Em agosto, a inadimplência no crédito livre às pessoas físicas chegou a 8%, recorde da série do Banco Central iniciada em 2011.

Nem por isso deixa de ser temerário o uso de dinheiro público. Há, ainda, o risco de as rodadas sucessivas incentivarem maus comportamentos. A terceira edição do Desenrola reforça a ideia de que o empréstimo de hoje poderá ser perdoado amanhã.

Depois de tantos estímulos ao consumo e ao crédito, Lula deveria se perguntar por que permanece a asfixia financeira de famílias e empresas. A resposta está menos na insuficiência de programas sociais e mais na recusa de conter o gasto que alimenta os juros e, com eles, o endividamento que agora se pretende limpar com o cheque do contribuinte.

Vidas jovens em risco no ambiente online

Por Folha de S. Paulo

Registros de casos de suicídio e de tentativa de suicídio relacionados à internet aumentam 38% em SP

Além dos controles legais e da inteligência investigativa, são necessárias ações preventivas no SUS e nas escolas, com educação midiática

A morte trágica de uma menina de 13 anos em Naviraí (MS), que no final de julho cometeu suicídio durante transmissão de vídeo numa plataforma digital, chamou a atenção para um problema de saúde pública observado em diversos países: o aumento, na última década, de casos de depressão, ansiedade, automutilação e suicídio entre os estratos mais jovens.

No Brasil, segundo o boletim epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde que apresenta uma série histórica sobre o tema, de 2016 a 2021, a taxa de suicídios no estrato entre 10 e 14 anos cresceu 45% e, entre 15 e 19 anos, 49% —taxas bem maiores do que a da população total (17,8%).

Pesquisas internacionais ainda não permitem estabelecer uma relação causal geral entre o uso de redes sociais e a deterioração da saúde mental de crianças e adolescentes, mas as novas tecnologias de comunicação podem agravar riscos em grupos vulneráveis e expandir a violência presencial para o ambiente online.

O Núcleo de Observação e Análise Digital da Polícia Civil de São Paulo produziu um levantamento sobre esse recorte específico.

Comparando boletins de ocorrência do primeiro semestre de 2025 com os do mesmo período de 2026, o número de casos de tentativa de suicídio e de suicídio aumentou 38%, de 97 para 134. O de mortes subiu de 33 para 50, o que representa alta de 51%, e o de tentativas passou de 64 para 84, uma elevação de 31%.

As causas vão muito além do uso excessivo de redes sociais. Há aliciamento, chantagem, cyberbullying e incentivo ao suicídio em chats e comunidades privadas. Jovens vulneráveis são estimulados à autolesão como prova de pertencimento ou lealdade —nos casos de indução investigados, várias vítimas já apresentavam automutilação anterior.

O ECA Digital, em vigor desde março, determina prevenção e mitigação de riscos, experiências adequadas à idade, supervisão parental e configurações destinadas a evitar uso compulsivo.

Inteligência investigativa para detectar grupos criminosos também é fundamental.

Ademais, são necessárias ações preventivas. Nas escolas, expansão da educação midiática, para que os jovens aprendam a perceber riscos e a procurar ajuda, e de programas que promovam competências socioemocionais.

No SUS, o foco não pode ser só no tratamento de crises já instaladas, mas no desenvolvimento de protocolos de identificação de sinais de alerta na atenção básica.

A saúde mental dos mais jovens exige abordagem interdisciplinar contínua e integrada.

Juízes ao gosto do freguês

Por O Estado de S. Paulo

Ministros do STF desvirtuam o instituto da prevenção para atender a demandas alinhadas às suas preferências políticas. Na prática, as partes escolhem o juiz que melhor lhes convém

Quando a sobriedade ainda ditava a conduta dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Suas Excelências não se envolviam nas lides políticas ou ao menos se esforçavam para aparentar equidistância em relação aos contendores. Hoje, alguns ministros não só não disfarçam, como fazem questão de ostentar suas afinidades e antipatias políticas em entrevistas, postagens nas mídias sociais, eventos corporativos, jantares, decisões monocráticas e até em debates transmitidos ao vivo no plenário da Corte.

Não surpreende, portanto, que partes interessadas tenham aprendido a dançar conforme a música desse baile impudico a fim de extrair vantagens. Se as posições políticas de ministros do STF passaram a ser previsíveis, basta encontrar um meio de fazer determinado pedido chegar ao gabinete certo. E esse meio foi encontrado.

Como este jornal noticiou há poucos dias, a moda agora em Brasília é apresentar pedidos novos nos autos de processos antigos, alguns até arquivados. Como as identidades políticas dos relatores se tornaram conhecidas, subverte-se o sentido da prevenção – que, no STF, é a vinculação do ministro que primeiro recebeu um processo a todos os outros processos que tenham relação direta com o caso – como forma de burlar o sorteio.

A aplicação mais recente dessa artimanha envolve o caso da falsa informação de que Flávio Bolsonaro, se eleito presidente da República, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Depois que o ministro André Mendonça, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou as plataformas digitais removerem as publicações sobre o tema, a defesa do humorista Antonio Tabet, um dos que espalharam a falsa informação, não bateu à porta do STF pela via ordinária: pediu uma “extensão” em um processo relatado pelo ministro Flávio Dino sobre postagens relacionadas à inelegibilidade do ex-deputado federal Deltan Dallagnol. E o sr. Dino, em rocambolesca hermenêutica, encontrou um elo de conveniência entre as causas: a defesa da liberdade de expressão. Dino acatou o pedido de Tabet e restabeleceu a circulação das postagens.

Ato contínuo, o que fez a defesa de Flávio Bolsonaro? Rigorosamente a mesma coisa. Em vez de protocolar seu recurso e esperar o sorteio, o que seria regular, o candidato à Presidência levou a petição direto ao ministro Luiz Fux, sob o pretexto de que ele é o relator de uma das ações no STF que tratam da constitucionalidade do art. 19 do Marco Civil da Internet. Fux, cujas posições vêm se alinhando às de Mendonça em temas politicamente sensíveis, suspendeu a decisão de Dino. Em suma: cada lado escolheu um ministro e ninguém fingiu surpresa com o resultado.

A mutreta visa a desvirtuar um instituto legítimo. A prevenção existe para que causas conexas fiquem com o mesmo relator, evitando decisões contraditórias em nome da boa administração da Justiça. É uma exceção à regra do sorteio, não sua revogação, como podem pensar os aproveitadores que, na prática, querem abolir o princípio do juiz natural quando entendem que esse juiz não se inclina tão naturalmente assim a seus interesses. Dito isso, se hoje há quem escolha deliberadamente por qual ministro deseja ver seu pleito julgado, isso é responsabilidade dos próprios ministros do Supremo que ignoraram as regras escritas e não escritas da magistratura para agir como militantes políticos.

Antes a bagunça instalada no STF produzisse apenas, por assim dizer, insegurança jurídica. Nessa toada, o País caminha até as fronteiras da anomia, cenário inimaginável em tempos menos indecentes, quando a Corte ainda não era uma arena política tão assumida como tal. Cada gabinete virou uma casamata, e cada ministro, um oficial na batalha política. E, assim, o STF foi rebaixado por seus próprios integrantes a um reles cartório que despacha decisões sob medida para quem tem a perspicácia de bater na porta certa.

Se ainda quiser recuperar o respeito, é dever da atual composição do STF deixar de se prestar a esse papel indigno da história da instituição. Os ministros não devem se imiscuir na política e têm de devolver à presidência da Corte os pedidos sem conexão real com os processos que relatam, para sorteio. Enquanto isso não ocorrer, cada causa terá o juiz que o freguês encomendar – e o resultado será qualquer coisa, menos justiça.

É preciso reduzir o custo da energia

Por O Estado de S. Paulo

Cabe ao próximo presidente da República retomar o planejamento do setor elétrico e liderar reforma que enfrente os subsídios, acabe com as distorções e diminua as tarifas

Dentre os inúmeros temas que passaram ao largo da campanha eleitoral, o custo da energia elétrica está entre os principais. Pode parecer um assunto árido e complexo para o cidadão comum, mas trata-se de um tema de importância central para qualquer país, sobretudo o Brasil, que assiste a um processo acelerado de desindustrialização e tem na abundância de energia limpa e barata, na transição energética e na reorganização das cadeias produtivas globais uma oportunidade única para revertê-lo e retomar o crescimento econômico.

A conjuntura nos favorece. A guerra entre Estados Unidos e Irã e a extensão dos conflitos entre Rússia e Ucrânia escancararam a dependência mundial por petróleo e gás, a urgência do desenvolvimento de fontes alternativas e a necessidade de consolidar relações comerciais com parceiros estáveis para garantir a segurança energética.

O Brasil tem esses atributos. De um lado, dispõe de ventos, sol e água para produzir energia, bem como reservas de petróleo, gás natural e minerais críticos. De outro, conta com uma diplomacia tradicional, profissional e pragmática, que sempre investiu no multilateralismo, evitou alinhamentos automáticos e defendeu soluções pacíficas para conflitos internacionais.

São condições invejáveis para qualquer país, mas que não têm sido suficientes para atrair investimentos e inserir o Brasil nas cadeias internacionais de valor. Há muitas razões por trás desse fenômeno, como problemas logísticos, excesso de burocracia, custo de capital elevado e um sistema tributário caótico, que o País felizmente começou a resolver ao aprovar a reforma em 2023. Paradoxalmente, o custo da energia está entre elas.

Num país que precisa racionar energia ou que não possui estrutura de transmissão e rede de distribuição de eletricidade de qualidade, isso seria absolutamente compreensível. Afinal, não há como produzir bens e serviços a preços competitivos quando um dos principais insumos é escasso e, portanto, oneroso.

Mas esse certamente não é o caso do Brasil, que tem sobra de eletricidade, construiu uma rede formada por milhares de quilômetros de linhas de transmissão que abrange todos os Estados do País e universalizou o acesso à energia há anos. Logo, não é apenas incompreensível, mas uma verdadeira façanha que a energia, ainda assim, seja tão cara.

Não basta que os candidatos à Presidência da República apenas critiquem o custo da energia, como se isso fosse um fato consumado, muito menos propor soluções mágicas que não resolverão o cerne da questão. O País precisa de uma ampla reforma para o setor elétrico, o que inclui, necessariamente, acabar com os subsídios que encarecem as contas de luz.

Estudo do Centro de Liderança Pública (CLP) estima que a energia poderia ficar até 32% mais barata se o País promovesse uma reforma. A Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace) calcula haver mais de R$ 100 bilhões anuais em custos indevidos ou ineficientes nas tarifas.

O Executivo precisa retomar o planejamento setorial com base em critérios técnicos e incentivos econômicos, aliando demanda e confiabilidade ao menor custo possível. Realizar leilões para expandir a oferta sem observar esses parâmetros tem conduzido o País a situações que eram inimagináveis há 25 anos, como o risco de um apagão não por falta, mas por excesso de energia.

É papel do governo federal – e, em especial, do presidente da República – não apenas apresentar uma agenda para o setor elétrico, mas liderá-la junto do Congresso Nacional para garantir que ela seja aprovada.

Não há mais espaço para deixar que deputados e senadores continuem a empilhar custos invisíveis nas contas de luz na forma de jabutis – emendas estranhas a projetos de lei apresentadas na surdina, sem qualquer discussão prévia e aprovadas em votações relâmpago – para garantir privilégios e o enriquecimento dos mais diversos grupos de interesse.

Este jornal espera que o próximo governo tenha a coragem de enfrentar essas distorções que só elevam o chamado custo Brasil.

Flexibilização indecente

Por O Estado de S. Paulo

Após rombo bilionário do Master, Previdência permite a fundos arriscar dinheiro dos servidores

O Ministério da Previdência Social publicou no início de agosto uma incompreensível portaria que permite que os chamados regimes próprios de Estados e municípios (RPPS) invistam em ativos de maior risco, como Letras Financeiras (LFs), que nem sequer têm cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e Certificados de Depósitos Bancários (CDBs).

Trata-se de uma flexibilização indecente sob qualquer ângulo, mas que se torna especialmente absurda após fundos de previdência de servidores públicos Brasil afora terem investido quase R$ 2 bilhões em ativos sem garantia do famigerado Banco Master, dinheiro que dificilmente será recuperado.

Somente o Rioprevidência, fundo de servidores estaduais do Rio de Janeiro, enterrou cerca de R$ 1 bilhão em LFs do Master, enquanto o Amprev, de servidores do Amapá, investiu R$ 400 milhões no mesmo tipo de ativo sem garantia do banco de Daniel Vorcaro. Proporcionalmente, o prejuízo potencial do fundo amapaense é superior ao do Rioprevidência.

Apesar do desfalque bilionário na aposentadoria dos servidores públicos, a nova portaria do Ministério da Previdência, conforme revelou o jornal O Globo, permite que institutos previdenciários sem certificação adequada invistam o sagrado dinheiro da aposentadoria dos funcionários públicos em ativos até então acessíveis apenas a fundos autorizados para tal.

De acordo com o Ministério da Previdência, a medida não representa uma flexibilização e tem caráter temporário – a nova norma vale até 2 de fevereiro de 2028. Mas o Conselho Monetário Nacional (CMN), composto por membros do Banco Central e dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento, tinha, ainda em dezembro do ano passado, endurecido as regras para os investimentos dos RPPS, justamente em resposta ao escândalo do Master.

A esta altura dos acontecimentos, a derrocada do Master mostra que, quanto maior a promessa de remuneração, maior é o risco de perda do dinheiro investido. O banco de Vorcaro prometia ganhos vultosos a seus investidores. Deu no que deu.

Por mais que seja tentador investir os recursos que podem garantir uma aposentadoria tranquila em ativos mais rentáveis, enterrar as economias de uma vida toda em aplicações que oferecem ganhos muito acima da média pode, ao contrário do esperado, acabar por aniquilar as esperanças de um futuro sem sobressaltos.

Ademais, em um país com juros historicamente altos como o Brasil, os títulos da dívida do governo federal são uma alternativa bem mais segura, e igualmente lucrativa, para quem poupa para se aposentar.

Ao permitir que os RPPS invistam em ativos mais arriscados, o Ministério da Previdência não só incentiva gestores a serem imprudentes, como cria uma potencial armadilha para o contribuinte brasileiro, sempre chamado a arcar com os custos de ações que nada têm a ver com ele. Oxalá os fundos como o Rioprevidência, que adotaram regras mais conservadoras para investimentos após amargar perdas com o Master, não voltem a se expor desnecessariamente.

Crise em agência da ONU deixa refugiados sem ajuda

Por O Povo (CE)

O caráter amoral e perverso dessa medida fica ainda mais explícito quando se observa que os Estados Unidos gastam bilhões de dólares em uma guerra inútil contra o Irã, deixando ao abandono uma parcela expressiva da humanidade

O Alto Comissário da Organização das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), Barham Salih, lançou um alerta de urgência ao discursar no Conselho de Segurança, na sede da ONU, em Nova Iorque, na sexta-feira. Relatório da Acnur mostra um déficit de financiamento que chega ao valor de US$ 5,8 bilhões, após cortes de doadores. O Acnur sofre uma de suas piores crises de financiamento, resultado da redução da ajuda externa advinda dos Estados Unidos e de outros países.

De acordo com o relatório mais recente divulgado pela Acnur, o déficit de financiamento é de US$ 5,7 bilhões, após uma queda de 24% dos recursos disponíveis entre 2024 e 2025. Até julho, a agência havia recebido apenas 32% dos US$ 8,5 bilhões necessários para cobrir as despesas de 2026.

Até o fim deste ano, uma população de 131,2 milhões de pessoas deslocadas à força e apátridas estará sob sua responsabilidade. De imediato, os cortes podem deixar 8,3 milhões de pessoas sem ajuda.

O informe da Acnur destaca que os "severos cortes" orçamentários no financiamento estão levando as estruturas de apoio e proteção a refugiados ao "ponto de ruptura" nas principais situações de deslocamento do mundo. Isso força a Acnur a reduzir programas essenciais, deixando milhões de pessoas sem o apoio necessário para se manterem em segurança, comprometendo a ajuda às populações deslocadas.

Historicamente, os Estados Unidos eram um dos maiores financiadores da Acnur. Washington contribuiu com US$ 812 milhões em 2025, recursos utilizados em mais de 50 operações de socorro. No entanto, em 2026, a contribuição americana despencou. Segundo calculou a agência Reuters, utilizando dados da Acnur, o financiamento dos EUA caiu de US$ 800 milhões em 2025 para apenas US$ 110 milhões em 2026, queda aproximada de 85% no financiamento americano.

A agência da ONU não cita, mas a redução do repasse dos Estados Unidos foi crucial para comprimir a verba destinada ao socorro dos refugiados, que atingiu também outros segmentos vulneráveis pelo mundo.

Assim que assumiu seu mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que cortaria verbas de assistência externa, sendo nomeado para dar sequência a essa proposta o bilionário Elon Musk. Eles começaram com o desmonte da Usaid, principal agência americana de ajuda externa. Em agosto de 2025, a Casa Branca anunciou o cancelamento de cerca de US$ 5 bilhões em programas nessa área.

O caráter amoral e perverso dessa medida fica ainda mais explícito quando se observa que os Estados Unidos gastam bilhões de dólares em uma guerra inútil contra o Irã, deixando ao abandono uma parcela expressiva da humanidade.

Condições financeiras tendem a acentuar desaceleração

Por Valor Econômico

Uma nova onda restritiva está em desenvolvimento agora, com o aumento dos juros dos títulos de longo prazo do Tesouro americano

As condições financeiras se tornaram menos favoráveis ao crescimento, podem piorar mais e contribuir para uma desaceleração maior da economia brasileira nos próximos meses. O preço do petróleo e os juros externos estão tendo peso preponderante na piora, coadjuvados pelo dólar em valorização e também pelos juros domésticos, que, mesmo em queda, estão muito elevados.

Desde o início da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o índice de condições financeiras, uma combinação de indicadores de variação de preços de ativos financeiros e físicos, juros e riscos, tornou-se desfavorável às atividades econômicas. Uma nova onda restritiva está em desenvolvimento agora, com o aumento dos juros dos títulos de longo prazo do Tesouro americano.

O título do Tesouro de 10 anos, um benchmark para investidores globais, paga os maiores rendimentos em quase 20 anos, de 5,28% ontem, com alta de um ponto percentual desde o início do ano. Os Treasuries de 30 anos exibem os maiores yields desde 2004, a 5,61%. Acrescidos de prêmios de risco, que levam em conta os fundamentos econômicos dos países, o papel de 10 anos é o piso das taxas internacionais para emissão de dívidas e, indiretamente, para taxas de juros domésticas.

O recrudescimento das hostilidades no Estreito de Ormuz e mais um fracasso nas negociações entre os EUA e o Irã levaram as cotações do petróleo a permanecerem acima de US$ 100 o barril durante praticamente todo o mês de setembro. Variável fundamental para a determinação de preços na economia, logo da inflação, a cotação do petróleo vem empurrando para cima os rendimentos da renda fixa. Há uma correlação entre ambos, e a consultoria TS Lobard estima que cada dólar de alta no barril do petróleo WTI acrescenta 0,02 ponto no juro dos Treasuries de 10 anos (FT, ontem).

Os preços do petróleo estão sem um horizonte previsível. Com a guerra entrando em seu oitavo mês, quando se esperava que não durasse mais de três, é impossível estimar com algum grau de certeza até onde as cotações poderão chegar. A alta ocorre em uma conjuntura em que a inflação já se mostrava resistente na maior parte dos países desenvolvidos, que, ao mesmo tempo, colecionam endividamentos grandes e crescentes. O déficit público americano, por exemplo, avançará mais de 6% do PIB no atual exercício fiscal, e sua dívida ultrapassou US$ 40 trilhões. Por isso, o Federal Reserve, o banco central americano, voltou a elevar os juros básicos, em um movimento que os investidores estimam que será seguido por mais duas ou três altas. Com isso, toda a curva de juros dos Treasuries acompanha o aumento de curto prazo.

O índice de condições financeiras do Banco Central do Brasil mostrou-se menos restritivo em meados do mês, apontou o Relatório de Política Monetária. Os fatores que trazem restrições foram, por ordem de grandeza, os juros externos, os juros domésticos e o petróleo. Eles foram contrabalançados até certo ponto, porém, pelo aumento dos preços das commodities agrícolas, que beneficiam o país, que é grande exportador delas e de petróleo, e pela desvalorização do dólar até então.

Isso, porém, tende a mudar. Com o crescimento robusto da economia americana e o aumento dos juros pelo Fed, as expectativas sobre o comportamento do dólar mudaram e apontam valorização agora. No mês, ele ganhou 1,5% em relação às moedas dos países com os quais os EUA mais comerciam. No Brasil, o dólar chegou na segunda-feira a R$ 5,22, seu maior valor desde março. A depreciação do real, caso persista, traz uma complicação a mais para a redução da inflação, quando o BC já espera uma piora nos dois próximos trimestres, em parte pelos efeitos de um El Niño vigoroso. A desaceleração significativa das atividades econômicas — há várias estimativas de avanço do PIB de 1% em 2027 — deve ajudar na redução do IPCA, assim como algum freio nos gastos públicos que o próximo governo, não importa quem vencer as eleições, será obrigado a realizar.

Um dos problemas de endividamento elevado como o do Brasil é que isso o torna mais vulnerável a turbulências externas, que podem vir de uma hora para outra. O aumento dos juros externos está sendo provocado também pela alta emissão de dívida das big techs em inteligência artificial (IA), e o aumento do custo do capital pode frear o ímpeto de investimento na tecnologia, em um momento em que os investidores estão desconfiados se os retornos esperados das empresas envolvidas na corrida tecnológica serão obtidos.

Novas altas de juros podem causar uma revisão dos preços dos ativos com efeitos amplos e perturbadores. Como nota a estrategista para a Europa da JP Morgan Asset, Karen Ward, as companhias ligadas à IA representam 50% da capitalização da S&P 500 e também do benchmark para investimentos em países emergentes. A perda de fôlego de investimento das big techs pode inverter a alta persistente, com recordes de valorização, das bolsas americanas. Uma mudança dessa magnitude dificilmente ocorrerá sem turbulências globais.

A fatura da nossa alimentação

Por Correio Braziliense

Doenças inflamatórias intestinais se tornarão problemas de saúde pública comparável ao diabetes e à hipertensão a partir de 2040

Um estudo apresentado nesta semana no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú (SC), traz um dado que deveria estar em qualquer conversa sobre saúde pública: o número de pessoas com doenças inflamatórias intestinais no Brasil cresceu cinco vezes entre 2012 e 2025, passando de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes. A doença de Crohn e a retocolite ulcerativa — enfermidades autoimunes crônicas, sem cura, com tratamento que pode custar até R$ 500 mil por paciente ao ano — eram consideradas raras até por volta de 2015. Agora, pesquisadores projetam que se tornarão problemas de saúde pública comparável ao diabetes e à hipertensão a partir de 2040.

As causas são multifatoriais, como ressaltam os próprios pesquisadores da Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Há componente genético, há influência da poluição. Mas há também, de forma cada vez mais evidente, o fator alimentar. Os ultraprocessados, com seus conservantes, corantes, espessantes e aditivos que permitem que um pão de forma dure três meses na prateleira sem mofar, aparecem consistentemente nos estudos como elementos que induzem processos inflamatórios. O intestino, mais do que qualquer outro órgão, parece sensível a esse conjunto de substâncias para as quais o organismo humano simplesmente não foi preparado.

O problema é que essa dieta virou norma. O Brasil, que tinha no arroz com feijão uma das combinações alimentares mais equilibradas do mundo — proteína completa, fibras, baixo custo —, assiste à erosão desse padrão faz décadas. O ultraprocessado chegou pela conveniência, pelo preço, pela publicidade agressiva e pela transformação do tempo de cozinhar em luxo que nem todos têm. A tabela nutricional obrigatória nos rótulos, a famosa "lupinha", foi implementada pela Anvisa e se provou um avanço real, que deu ao consumidor informação que antes estava escondida. Mas a informação não muda sozinha o ambiente que empurra as pessoas para escolhas ruins.

O que muda esse ambiente é política pública. Tributação diferenciada sobre ultraprocessados, subsídios para alimentos in natura, regulação mais dura da publicidade dirigida a crianças, merenda escolar com comida de verdade. São medidas conhecidas, discutidas há anos, implementadas de forma tímida e fragmentada. A projeção dos pesquisadores é de que, em 2035, o número de casos de doenças inflamatórias intestinais chegue a 264 por 100 mil habitantes — 67% a mais do que hoje. Esse número tem um custo humano e tem um custo fiscal.

O corpo não mente, e os números do estudo são claros: uma doença que era rara há 10 anos está a caminho de se tornar problema de saúde pública em menos de duas décadas. São pacientes diagnosticados jovens, que precisarão de acompanhamento por décadas. Prevenir é mais barato do que tratar. E prevenir, nesse caso, começa por levar a sério o que o brasileiro está colocando no prato.

Nenhum comentário:

Postar um comentário