quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O juiz é o lobo do juiz, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ministros partiram para guerra de guerrilhas e embolaram tudo

Deixar de investigar um dos seus causa dano reputacional à corte

Não foram o cabo e o soldado que fecharam o STF. São os próprios ministros que parecem empenhados em inviabilizá-lo.

A tarefa que a corte tinha diante de si não era das mais complexas. Deveriam definir se há indícios suficientes para investigar o ministro Alexandre de Moraes por seu relacionamento com Daniel Vorcaro. É difícil sustentar que não haja. Há um contrato atipicamente lucrativo entre o escritório da família de Moraes e o Banco Master e houve dezenas de mensagens suspeitas entre o juiz e o banqueiro fraudador. Investigar não significa condenar. Se Moraes é de fato inocente como alega, sua reputação teria mais a ganhar com uma investigação que o exonerasse do que com um arrastão anulatório.

Ministros, em vez de se ater à questão fundamental, preferiram apostar no tumulto, entregando-se a uma guerra de guerrilhas na qual se puseram a expor passos em falso e até mesmo podres uns dos outros, complementados por vazamentos para a imprensa. Do ponto de vista do interesse público, é ótimo que tudo seja discutido e que tudo venha à tona. Do ponto de vista do STF, é péssimo que isso ocorra num contexto MAD, o acrônimo inglês para "destruição mútua assegurada", usado para descrever conflitos nucleares. Ministros saem machucados, mas é a imagem da corte que é devastada. É inafastável a sensação de que o que move os magistrados são interesses particulares e não a busca da justiça.

O caminho a seguir não é segredo. Todo mundo que aparece de forma comprometedora nos celulares de Vorcaro precisa ser investigado. Abusos que André Mendonça tenha cometido e o viés político que ele introduziu no processo devem ser investigados. Mas me parece um erro juntar tudo para só depois avançar. Estamos tratando do início de uma investigação, não de condenação ao patíbulo. Não produziria tão cedo nenhum efeito irreversível. Mas cada oportunidade que o STF perde de mostrar que é capaz de aplicar a um dos seus o que vale para todos é um passo a mais que ele dá rumo ao suicídio institucional.

 

 

 

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