quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

STF deve cobrar explicações urgentes de Moraes

Por O Globo

Mensagens com apelos de Vorcaro às vésperas de ser preso põem ministro em xeque

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes continua a dever explicações convincentes sobre suas relações com Daniel Vorcaro, o ex-dono do Banco Master preso por ter comandado a maior fraude bancária da História do Brasil. O relatório da Polícia Federal (PF) revelado nesta terça-feira traz indícios que expõem um grau de proximidade entre Vorcaro e Moraes incompatível com a isenção e a imparcialidade indispensáveis a qualquer magistrado, ainda mais a um ministro da mais alta Corte do país.

No relatório, cujo conteúdo foi revelado pelo jornal O Estado de S.Paulo, a PF atribui a Vorcaro mensagens endereçadas a Moraes, enviadas por um sofisticado mecanismo destinado a proteger a comunicação. Segundo a apuração dos investigadores, é possível afirmar que Moraes é o destinatário dessas mensagens. Suas respostas a Vorcaro não foram encontradas, porém, porque seu celular não foi periciado.

O ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, solicitou à Procuradoria-Geral da República que se manifestasse sobre as conclusões da PF, levantou o sigilo do caso e pediu uma sessão pública, transparente e presencial para examinar as evidências. “O caminho inevitável dos presentes autos leva ao plenário deste STF”, afirmou. A PGR se pronunciou, alegando que a investigação deveria ser anulada, pois não cabe a Mendonça investigar Moraes, prerrogativa exclusiva do Ministério Público.

Independentemente do desfecho jurídico do caso, com tudo o que já se sabia mais o conteúdo revelado nesta terça-feira, torna-se verossímil a versão segundo a qual Vorcaro contava com Moraes para protegê-lo de investigações que sabia estarem em andamento. Caso o ministro não consiga explicar os fatos, poderá ser ele próprio investigado.

Desde o ano passado, quando a colunista do GLOBO Malu Gaspar revelou o contrato de R$ 130 milhões entre o Master e o escritório de advocacia da mulher de Moraes, o ministro tem escolhido o silêncio ou se manifestado por meio de notas lacônicas, emitidas por vezes semanas depois dos fatos. No início do ano, a própria Malu Gaspar revelou uma mensagem enviada por Vorcaro ao celular de Moraes horas antes de ser preso: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.

Segundo o relatório da PF, essa foi a mensagem culminante numa sucessão de outras nos dias anteriores. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, dizia, dois dias antes da prisão, uma mensagem em que, na interpretação da PF, Vorcaro se referia ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues — ambos convidados dele numa viagem a Londres em abril de 2024, coroada por degustação de uísque. “O Paulo só disse que tava olhando pessoalmente”, afirmava outra mensagem. “E com Andrei dá pra segurar?”, perguntava uma terceira, a menos de 24 horas da prisão. “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, questionava, insinuando estar preparado para deixar o país caso necessário. “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Muito obrigado por tudo”, afirmava outra mensagem, sugerindo que Moraes já havia respondido a demandas de Vorcaro no passado.

A PF encontrou evidências de que a minuta do contrato do Master com o escritório de advocacia foi editada pelo próprio Moraes. O escritório confirmou que envia contratos ao ministro e alegou que ele buscava “eventuais impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual”. Mas a dúvida ética persiste.

Todos os citados no relatório da PF têm esclarecimentos a prestar. Gonet era mesmo o Paulo das mensagens? E, se era, deu algum acesso especial a Vorcaro? Rodrigues era o Andrei citado? Foi instado ou tentou “segurar” alguma investigação? Por fim, a Moraes cabe não apenas se dizer honesto, mas demonstrar sua honestidade. Ninguém pode ser ou será considerado culpado de antemão. Mas a sociedade precisa de explicações. O silêncio ou notas lacônicas não serão suficientes.

Renan cometeu erro, mas punição aplicada por Toffoli era exagerada

Por O Globo

Omissão de perfis não justificava suspensão da campanha. Ministro fez bem em voltar atrás

A campanha eleitoral no ambiente on-line continua a trazer desafios ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sujeito a todo tipo de manobra e manipulação, o mundo digital suscitou novas regras para garantir uma competição mais justa. É o caso da legislação que proíbe as redes sociais de incluir perfis políticos em seus sistemas de recomendação de conteúdo em época de campanha, pois não há como garantir que eles assegurem equilíbrio na exposição dos candidatos. Para que a regra funcione, o TSE exige, na apresentação dos registros de candidaturas, todos os perfis virtuais que serão usados em período eleitoral.

Quando registrou sua candidatura, em 7 de agosto, o candidato à Presidência Renan Santos (Missão) informou dois perfis pelos quais veicularia conteúdo eleitoral. Quase duas semanas depois, no dia 19, fez uma retificação e incluiu mais 14 canais. Não há dúvida, portanto, de que ele cometeu um erro nas informações prestadas à Justiça Eleitoral. O equívoco, porém, não justificava a decisão monocrática do ministro Dias Toffoli, do TSE, de suspender temporariamente sua campanha. Faltando pouco mais de um mês para o pleito, Renan ficou proibido de participar de debates em rádio e televisão, perdeu acesso a verbas do fundo eleitoral e não poderia usar a maior parte dos perfis. Depois Toffoli foi sensato ao voltar atrás e liberar a participação em debates e o financiamento da campanha, mas uma decisão dessa magnitude — a suspensão de uma campanha — nem deveria ter sido tomada por um só ministro.

Não há dúvida sobre a ilegalidade da omissão de Renan. O questionamento se restringia à decisão drástica ter sido tomada monocraticamente — e à desproporção da punição aplicada. O TSE não foi provocado pelo Ministério Público ou por adversários na corrida presidencial. Foi Renan quem tomou a iniciativa de retificar as informações prestadas. Só então Toffoli examinou a questão e agiu de forma inédita, já que casos dessa natureza costumam ser punidos com multa. No dia 20 de agosto, o TSE proibiu que o candidato do PRTB à Presidência, Pablo Marçal, tenha acesso aos fundos eleitoral e partidário, que participe de debates e do programa eleitoral no rádio e na televisão. Nesse caso, porém, ele está inelegível, e a decisão da Corte foi colegiada.

Independentemente do caso específico do candidato do Missão, a decisão de Toffoli precisa ser examinada pelo colegiado do TSE, para que não se torne um precedente copiado em tribunais eleitorais país afora. A suspensão de campanhas está prevista na lei, mas não deveria ser aplicada sem motivos que a justifiquem.

A Moraes cabe a renúncia

Por Folha de S. Paulo

Revelações escandalosas da PF acabam com as dúvidas sobre a incompatibilidade do ministro com a corte

Sem gesto de desprendimento, restará ao Senado fazer tramitar processo de impeachment; não há muito o que esperar da PGR, infelizmente

Não há mais lugar no Supremo Tribunal Federal (STF) para Alexandre de Moraes. Se o ministro não renunciar, restará ao Senado, por meio de um processo de impeachment, livrar a corte desse fardo.

O limite da tolerância com a promiscuidade entre o juiz e o mafioso Daniel Vorcaro havia sido tangenciado com o que se sabia antes das últimas revelações. O contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da mulher de Moraes e as comunicações com o ministro à véspera da prisão do delinquente, numa modalidade que apaga o que foi dito, deixavam pouca dúvida sobre a gravidade da relação.

A torrente de situações abomináveis que acaba de desaguar sobre a opinião pública sepulta qualquer incerteza restante sobre a incompatibilidade de Moraes com o exercício da magistratura no STF. O fraudador, enquanto enriquecia a família Moraes com dinheiro roubado, tinha o ministro como um conselheiro e um informante.

No relatório policial que investigou o caso, o ministro aparece como editor do contrato multimilionário com o escritório da esposa, que negociou mais um acordo, este de R$ 50 milhões, com uma outra empresa de Vorcaro.

No sábado anterior a sua detenção pela Polícia Federal, o dono do Banco Master quis saber de Moraes se ele deveria estar fora do país na segunda-feira. Idas e vindas de mensagens e aviões sugerem ter havido encontros pessoais com o juiz nos momentos agônicos do responsável pelo maior desfalque bancário da história do país.

Graças à persistência da PF, da imprensa e do ministro André Mendonça, está seriamente ameaçado o pacto de impunidade que tem mantido Moraes isolado de prestar contas. Não há muito o que esperar da Procuradoria-Geral da República (PGR), infelizmente. O procurador Paulo Gonet, que descaradamente pediu a nulidade do relatório policial, surge emaranhado na teia de afinidades do Master.

Entretanto agora cabe escolher entre Alexandre de Moraes e o Supremo Tribunal Federal, entre um indivíduo de má conduta e a República. Enquanto o ministro permanecer na sua cadeira, a desonra e o descrédito se acumularão sobre o tribunal. A atitude mais digna e rápida seria a renúncia do magistrado. Ela pouparia as instituições nacionais de um desgaste desnecessário e longo.

Na ausência desse ato de desprendimento, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), está instado a fazer tramitar os pedidos de impeachment contra Moraes, que terá direito à presunção de inocência, ao devido processo e a todas as outras garantias legais.

Enquanto Lula gasta, PIB perde fôlego

Por Folha de S. Paulo

Economia desacelera no 2º trimestre, sob o impacto dos juros elevados devido à irresponsabilidade fiscal

Alta de 0,5% pode dar a impressão de que situação não é tão preocupante, mas cerca de metade da cifra vem do agro e da indústria extrativa

Os números do Produto Interno Bruto do segundo trimestre, divulgados nesta terça (1) pelo IBGE, mostram a economia em processo de desaceleração, a despeito do aumento de gastos e crédito público promovido por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste ano eleitoral.

O crescimento de 0,5% pode dar a impressão de que a situação não é tão preocupante, mas os componentes do PIB mostram que a taxa de juros astronômica mantida já há algum tempo —impulsionada pelas despesas do governo— tem causado impacto.

O consumo caiu 0,4% e tende a enfraquecer. A inadimplência deu sinais de aumento nos últimos meses, especialmente nas faixas mais baixas de renda, dando a entender que o Desenrola 2 ainda não tem sido tão efetivo quanto desejaria o governo.

Mais ainda, nota-se um mercado de trabalho que se ajusta ao arrocho monetário. Tanto os dados do IBGE quanto os do mercado formal mostram um início, mesmo que lento, de deterioração.

Quem salva o resultado, como vem se repetindo na história recente, são os produtos primários de exportação. Cerca de metade do crescimento do segundo trimestre se deu graças à agropecuária e à indústria extrativa.

Se 2025 foi o ano do agro no PIB, 2026 será o ano do petróleo —com todas as ressalvas a comemorar um vetor climático tão negativo como é o caso do principal produto da energia fóssil.

Mas não nos enganemos com o peso das commodities. Desde 2021, pode-se dizer que cerca de 12% do crescimento observado na economia brasileira veio desses segmentos do PIB.

Isso reforça a ideia de que as commodities podem muito, mas não tudo. Por exemplo, os juros, ao lado dos custos elevados de fertilizantes em razão da guerra entre EUA e Irã, tendem a resultar num 2027 muito complicado para a agropecuária.

Para uma expansão sustentável da economia, o país depende de uma política econômica coerente e de reformas que permitam aumento da produtividade. O pós-pandemia, junto a anos seguidos de mercado de trabalho ruim, permitiu que se crescesse com novos empregos sem uma explosão inflacionária.

O Banco Central soube conduzir a política monetária para evitar uma alta de preços muito descolada do teto da meta. Faltou, no entanto, a contribuição de uma política fiscal responsável.

Em vez disso, o governo Lula 3 promoveu uma multiplicação de gastos desde antes da posse, no afã de obter popularidade e na crença de que tal estratégia pode ser mantida indefinidamente sem custos inflacionários. Não fosse esse impulso, os juros poderiam ser menores hoje.

Maior crescimento decerto depende de mais do que apenas reduzir as taxas. Mas, sem o reequilíbrio fiscal, o próximo governo não terá nada a prometer.

Moraes tem de sair do Supremo

Por O Estado de S. Paulo

Diante das gravíssimas revelações feitas por este jornal sobre sua relação com o Master, o ministro tem a obrigação de renunciar, sob pena de arrastar o Supremo para sua crise pessoal

Alexandre de Moraes não tem mais condições de seguir como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e deveria pedir exoneração do cargo, para o bem da própria Corte. As revelações feitas pelo Estadão de que Moraes ajudou a elaborar o contrato milionário entre o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, desmentem categoricamente que o ministro fosse alheio ao acerto e a todas as suas implicações éticas e legais.

Para começar, participar da elaboração de um contrato é exercício de advocacia, atividade incompatível com a magistratura. Mas as mensagens do celular de Vorcaro tornadas públicas ontem pintam um quadro muito mais grave. O banqueiro, pivô do maior escândalo da história do sistema financeiro nacional, tratava Moraes como alguém a quem podia recorrer para influir no curso de investigações. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, perguntou, em referência ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Em outra mensagem: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

Não se sabe o que Moraes respondeu. Pouco importa, porque já não se pode negar o que está diante dos olhos: um investigado por fraudes bilionárias buscava num ministro informação, orientação e intervenção sobre atos da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR), enquanto seu banco pagava somas exorbitantes ao escritório de sua família – contrato que tem as digitais do próprio Moraes.

Há perguntas que só uma investigação responderá. Moraes procurou Gonet? Falou com Andrei? Tentou retardar diligências? Transmitiu informações sigilosas? Dependendo das respostas, podem estar em jogo ilícitos de imensa gravidade, como prevaricação, advocacia administrativa, obstrução de justiça e corrupção passiva. Gonet não pode continuar tratando esse material como “insuficiente”, como já o fez no passado, sem cair ele mesmo em suspeição.

Gonet arquivou anteriormente uma representação contra o ministro. Agora surgiram evidências novas, e uma delas envolve o procurador-geral nominalmente: Vorcaro pedia a Moraes que recorresse ao próprio Gonet para conter a investigação. André Mendonça já cobrou esclarecimentos da PGR e avalia os próximos passos. Se isso ainda não basta para abrir uma investigação formal e independente, é difícil saber o que bastaria.

Investigar, porém, resolve apenas parte da crise. As suspeitas recaem justamente sobre o uso do poder que Moraes continua exercendo. O homem que lhe pedia ajuda para alcançar o chefe da PF e o procurador-geral era o dono do banco que despejava dezenas de milhões de reais no escritório de sua mulher. O ministro participou pessoalmente do contrato e agora pode ter de ser investigado pelas mesmas instituições sobre as quais Vorcaro esperava que ele exercesse influência. Essa situação é incompatível com a normalidade institucional.

Moraes tem direito à presunção de inocência, ao devido processo e a todas as garantias legais que tantas vezes negou a outros, mas essas garantias não obrigam o Supremo a carregar, por tempo indefinido, o peso de um ministro cuja permanência compromete a autoridade da própria Corte.

O STF já errou demais no caso Master. Dias Toffoli, que também mantinha negócios com Vorcaro, só deixou a relatoria do caso depois que sua posição se tornou insustentável. Agora a crise atinge Moraes em outro patamar – o mesmo ministro que tantas vezes invocou a defesa do STF e do Estado Democrático de Direito para justificar o exercício de seus poderes. Chegou a hora de demonstrar que seu compromisso com as instituições vale também quando o sacrifício é seu.

Moraes tem de deixar o Supremo. Sua responsabilidade criminal será apurada, mas a responsabilidade institucional já se impõe. Se ele se recusar a retirar esse peso da Corte, sua permanência terá de ser enfrentada por quem a Constituição encarregou de julgar crimes de responsabilidade de ministros do STF: o Senado. Defender o Supremo, agora, significa impedir que a crise de um ministro se torne a crise da instituição.

Superávit mágico

Por O Estado de S. Paulo

A apresentação do Orçamento com previsão de superávit visa a fortalecer pretenso discurso fiscal de Lula em um quarto mandato, mas o avanço da dívida bruta não deixa espaço para ilusões

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso uma proposta para o Orçamento com previsão de um superávit primário de R$ 18,6 bilhões no ano que vem. O valor já considera todas as despesas que podem ser deduzidas do cálculo da meta fiscal e, se cumprido, será a primeira vez desde 2022 que o País encerrará o ano com saldo positivo entre receitas e despesas. Seria um feito impressionante, não fosse o fato de que não parece factível.

Já faz tempo que a peça orçamentária superestima receitas e subestima despesas. Mais que um instrumento de planejamento e execução de políticas públicas, o Orçamento se converteu em mero cumprimento de ritos constitucionais, que estabelecem o prazo de 31 de agosto como limite para o envio do projeto ao Legislativo.

Dito isso, a equipe de Lula não repetiu o erro primário de seus antecessores e se preparou para elaborar uma peça que ao menos parasse de pé – diferentemente da apresentada em 2022, quando Jair Bolsonaro, em plena campanha eleitoral, não conseguiu sequer encontrar espaço para manter o valor que já era pago pelo antigo Auxílio Brasil e cortou em 59% a verba do programa Farmácia Popular, fragilidades que se tornaram alvo de seus adversários.

Mas as manobras tradicionais adotadas por todos os governos, independentemente do espectro político, seguem a todo vapor. A arrecadação, por exemplo, foi estimada em R$ 2,85 trilhões, o equivalente a 19,27% do PIB – um avanço e tanto em relação às receitas deste ano, que renderam R$ 2,6 trilhões, ou 18,95% do PIB.

Desta vez, o governo não dependerá da aprovação de medidas adicionais de aumento de impostos a serem aprovadas pelo Congresso, como nos últimos anos. A mágica por trás dos números vem do crescimento da economia, projetado em 2,46% no ano que vem.

Não se sabe de onde o governo tirou essa estimativa, e a equipe econômica tampouco se esforçou em explicar. Mas o mercado financeiro, segundo a mais recente edição do Boletim Focus, espera uma alta bem mais modesta, de 1,50%, e o dado mais recente do PIB, divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), evidenciou uma economia em desaceleração, com alta de apenas 0,5% no segundo trimestre.

Já as despesas, segundo o governo, somarão R$ 2,83 trilhões, ou 19% do PIB. Desse total, 91,7% são de caráter obrigatório, um recuo em relação aos 92,4% deste ano. Isso, segundo o governo, se deve a ajustes que permitiram a abertura de um espaço adicional de R$ 38,7 bilhões para as despesas discricionárias, que somarão R$ 266,8 bilhões. Foi essa revisão, segundo o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, que garantiu ao governo encontrar espaço para fazer um aporte de R$ 6 bilhões nos Correios.

Basta analisar os números com um pouco mais de atenção para ter a certeza de que a peça ainda passará por muitas mudanças até ser aprovada. O valor reservado para as emendas parlamentares, por exemplo, será de R$ 44,8 bilhões, inferior, portanto, aos R$ 49,9 bilhões aprovados para este ano.

É pretexto suficiente para que deputados e senadores remanejem verbas de modo a elevar o valor de suas indicações após as eleições de outubro, sobretudo para as emendas de comissão, as substitutas das emendas de relator, origem do esquema do orçamento secreto, revelado pelo Estadão, para as quais o governo, convenientemente, não indicou dinheiro algum.

Mas a verdade é que, para o governo, neste momento, não importa se o superávit será ou não efetivamente cumprido. A apresentação da peça, da forma como foi feita, cumpre o principal objetivo da equipe econômica, que era mostrar aos investidores que Lula pode até vociferar contra a necessidade de ajustes durante a campanha eleitoral, mas, na prática, se rende ao pragmatismo quando a realidade dos números bate à porta.

Acredita quem quer. O fato é que a dívida bruta aumentou pelo sétimo mês consecutivo, atingindo a marca de 82,51% do PIB em julho, segundo o Banco Central. Já são 10,8 pontos porcentuais de aumento desde que Lula assumiu o cargo em janeiro de 2023, prova de que seu governo trata as metas fiscais como um número qualquer.

Campanha sub judice

Por O Estado de S. Paulo

Justiça Eleitoral ainda decide quais candidaturas valem quando campanha já está nas ruas

A campanha eleitoral já é curta. Neste ano, o eleitor terá ainda mais trabalho: serão seis votos, dois deles para o Senado. E, mesmo assim, a pouco mais de um mês das urnas, ainda há uma dúvida elementar a ser resolvida pela Justiça Eleitoral: quem, afinal, poderá ser candidato.

O Ministério Público Eleitoral acaba de pedir a impugnação de 974 registros de candidatura em todo o País. Mais de 70% são de candidatos a deputado federal ou estadual, mas há pelo menos nove ações para barrar candidatos a governador ou vice em seis Estados e no Distrito Federal. Na disputa pela Presidência, o Ministério Público contesta o registro de Pablo Marçal (PRTB), que considera inelegível até 2032.

Na lista há nomes conhecidos. Anthony Garotinho (Republicanos-RJ) faz campanha para voltar ao governo do Rio de Janeiro enquanto o Ministério Público sustenta que ele está impedido pela Lei da Ficha Limpa. José Roberto Arruda (PSD-DF) aparece em segundo lugar nas pesquisas para o governo do Distrito Federal e tem chances de chegar ao segundo turno, mas sua candidatura também está sob contestação por causa de seis condenações por improbidade administrativa. Enquanto a questão não é resolvida, ambos continuam fazendo parte dos cálculos da eleição.

Eduardo Cunha (Republicanos-MG) tenta voltar à Câmara dos Deputados, onde já foi rei, e recuperar também, se eleito, o foro privilegiado. Cassado em 2016, o ex-presidente da Câmara ainda tem pela frente um pedido de impugnação do Ministério Público, que sustenta que uma condenação por improbidade o mantém inelegível até 2027. Cunha não sabe ainda se poderá voltar à Câmara, mesmo que tenha votos para isso. Ainda assim, já recebeu o apoio efusivo do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), que o chamou de uma “pessoa que tem um papel importante na história do nosso Brasil”. Se a Justiça ainda não sabe se Cunha pode voltar à Câmara, Flávio Bolsonaro parece não ter dúvida de que deve.

Impugnação, evidentemente, não significa inelegibilidade. Os candidatos têm direito à defesa e alguns deles podem ter razão quando sustentam que estão aptos a concorrer. O problema é que essa discussão está sendo travada quando a campanha já começou.

Os partidos tiveram até 15 de agosto para registrar os candidatos; desde o dia seguinte, eles estão nas ruas pedindo votos. A Justiça tem até 14 de setembro para terminar de analisar os registros. Serão então apenas 20 dias até a eleição. Há algo errado nesse calendário.

A campanha de 2026 já está nas ruas, mas a lista de candidatos ainda não está fechada. Ninguém espera que a Justiça acelere julgamentos a qualquer preço ou presuma inelegível quem responde a uma impugnação. O calendário, porém, deveria dar à Justiça tempo para fazer seu trabalho antes que o eleitor precise fazer o dele. O eleitor pode ter muitas dúvidas até outubro, mas saber quem é de fato candidato não deveria ser uma delas. É pedir demais que, além de escolher seis candidatos na urna, o cidadão tenha ainda de adivinhar quem está concorrendo para valer.

Investimentos e consumo em baixa esfriam economia

Por Valor Econômico

O esfriamento da economia abre espaço para que o BC continue com cautela reduzindo os juros

A economia brasileira esfriou rapidamente no segundo trimestre do ano, em um movimento que deve perdurar nos próximos trimestres. O Produto Interno Bruto (PIB) do período cresceu 0,5% em relação ao trimestre anterior, ligeiramente acima do esperado, mas sua composição não disfarça a tendência baixista. O consumo das famílias teve desempenho pior do que o previsto — economistas consultados pelo Valor esperavam aumento de 0,6% e o resultado foi de 0,4% negativo. E, como termômetro pelo lado da demanda, os serviços (69,5% do PIB) evoluíram apenas 0,2%.

Estímulos oficiais à demanda não faltaram. O volume autorizado para crédito garantido ou subsidiado atingiu R$ 281,9 bilhões, ou 2,1% do PIB no ano, e a despesa financeira paga pelo governo federal (exclui juros), após bater recorde em 2025, atingiu, somente nos sete primeiros meses de 2026, 1,09% do PIB, segundo Luiz Schymura, pesquisador do FGV Ibre (Valor, ontem). Além disso, o desemprego apresentou o menor nível da série no período, a população empregada bateu recorde e a massa salarial cresceu 4,7% acima da inflação.

Parte significativa dos estímulos oficiais e a boa forma do mercado de trabalho persistirão por algum tempo, mas a economia pode ter encontrado seu limite para manter-se em expansão acima de sua capacidade, mesmo com anabolizantes. Os juros muito altos, para combater uma inflação resistente, inverteu a roda inicial benéfica da fartura de crédito que impulsionou as atividades. O comprometimento da renda com dívidas é recorde, assim como não para de aumentar o número de empresas em recuperação judicial. Boa parte do aumento da renda — a renda nacional disponível bruta, de R$ 3,348 trilhões no trimestre, é a maior da série — pode estar fluindo para pagamento do consumo passado (dívidas), e outra parte expressiva, pelas camadas de maior renda, para usufruir dos rendimentos que os juros reais perto de 10% ao ano propiciam.

O retrato do segundo trimestre mostrou que os setores que mais crescem, embora não os de maior peso na economia, são os não cíclicos, cujas atividades respondem menos ao aperto monetário, como a agricultura (com avanço de 2,8% sobre o trimestre anterior e 6,8% sobre o mesmo trimestre de 2025) e a indústria extrativa (3,4% e 12%, respectivamente). Exportações agrícolas e exploração de petróleo garantiram o desempenho positivo do PIB. Segundo relatório do Bradesco, excluídos esses dois setores, o resultado seria uma queda trimestral de 0,1%.

Desde o segundo trimestre do ano passado, o PIB decresce sem parar na comparação de quatro trimestres sobre os quatro anteriores. O consumo das famílias, nesse critério, aumentou apenas 0,9%, e menos ainda, 0,5%, na comparação do segundo trimestre contra o mesmo período de 2025. Esse consumo puxa os serviços, cujas atividades também arrefecem — avançaram só 0,2% no segundo trimestre e 1,5% em 12 meses. Outras atividades de serviços, que englobam os prestados à família e os pessoais, movidos pela renda, nada cresceram no último trimestre.

Os investimentos, que garantem a capacidade de expansão futura, estancaram. No acumulado do primeiro semestre, nada cresceram. Ante o segundo trimestre de 2025, caíram de 16,6% para 16,1% do PIB, o menor nível desde o segundo trimestre de 2020 (durante a pandemia). É uma taxa insuficiente para voos mais altos da economia e muito distante do pico de 21,1% do PIB do segundo trimestre de 2013. Esse é um resultado esperado, diante da forte elevação do custo de capital. A taxa de poupança mal saiu de um nível medíocre, de 16,6% do PIB no segundo trimestre, ante 16,5% do primeiro.

As exportações cresceram menos que as importações (0,8% e 1,8%, respectivamente), retirando 0,5 ponto percentual do PIB, de acordo com Alberto Ramos, diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs. A demanda doméstica (soma do consumo das famílias e do governo e investimentos) ficou estável, e a variação positiva dos estoques colaborou com 1 ponto percentual.

As previsões de consultorias e bancos para o PIB vêm caindo, e o último boletim Focus aponta 1,92% para o avanço da economia em 2026 e 1,5% no ano que vem. Os resultados divulgados ontem pelo IBGE podem reforçar uma tendência mais pessimista sobre essa performance, pois o auge do aperto monetário, que levou a taxa Selic a 15% em meados de 2025, mostra seus plenos efeitos agora. A desaceleração da economia já torna irrealista a previsão de crescimento de 2,46% contida no orçamento de 2027, apresentado na segunda-feira. A expectativa de receitas não deve se materializar em um ano em que as contas públicas teriam de apresentar, segundo a peça orçamentária, um superávit de R$ 18,6 bilhões.

O esfriamento da economia abre espaço para que o BC continue com cautela reduzindo os juros. As taxas futuras DI para janeiro de 2027 estão próximas de 13,5%, abaixo das expectativas do Focus para o fechamento do ano, de 13,75%. Sem estímulos oficiais maiores que os atuais e com uma expansão econômica mais perto da potencial, o arrocho monetário poderia finalmente ser suavizado.

A Corte em xeque

Por Correio Braziliense

Respeitá-los não é defender ninguém. É defender a única coisa que, no fim, protege a todos

O caso é grave e precisa ser dito com clareza. Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, indicam que o banqueiro pediu reiteradamente ao ministro Alexandre de Moraes que acionasse a cúpula da Polícia Federal e do Ministério Público para conter o avanço das investigações contra sua instituição financeira. Os diálogos se estenderam até poucas horas antes da primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.

Os investigadores recuperaram as mensagens enviadas em imagens pelo banqueiro, mas não as respostas do ministro — os dois utilizavam o recurso de visualização única do WhatsApp, que apaga automaticamente as imagens após a abertura. A dúvida instalada é séria demais para ser ignorada. No início da noite de ontem, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, protocolou o pedido de anulação das provas colhidas pela Polícia Federal.

A decisão do ministro André Mendonça de levar o caso ao plenário do STF é correta e bem-vinda. Questões dessa magnitude não podem ser resolvidas por um único ministro, ainda mais quando o envolvido é um colega de Corte. O plenário é o foro adequado, e sua atuação, neste caso, é também uma demonstração de que a instituição é capaz de se autorregular. Se há inocência, que seja demonstrada com transparência e perante os pares. Se há irregularidade, que seja apurada com o mesmo rigor que a Corte aplica a todos os demais.

O que não pode acontecer é o que já começa a se desenhar nos bastidores: uma guerra interna entre ministros, com vazamentos estratégicos, movimentações de bastidor e posicionamentos públicos que transformem uma investigação legítima em um racha institucional. O STF já chega a este momento fragilizado. Está incompleto desde a saída de Luís Roberto Barroso, em outubro, operando há quase um ano com uma cadeira a menos em sua composição. Nos últimos anos, a Corte acumulou visibilidade e desgaste em igual medida, tornando-se alvo de críticas de espectros políticos opostos. Adicionar uma crise interna de proporções públicas a esse quadro não é inconveniente e irresponsável.

O Brasil vive um período de instabilidade política que vai se intensificar até outubro. As eleições presidenciais já começam a contaminar o ambiente institucional, e cada movimento das grandes instituições é lido, interpretado e disputado pelo campo eleitoral. Nesse contexto, um STF rachado publicamente é combustível para quem tem interesse em desestabilizar as próprias bases da democracia brasileira. A Corte é, acima de tudo, guardiã da normalidade institucional do país, e esse papel não pode ser abandonado no exato momento em que mais é exigido.

O apelo que se faz é simples: que os fatos sejam apurados com rigor, que Moraes possa se explicar com transparência, e que o STF conduza esse processo com a sobriedade que a gravidade do momento exige. Instituições se constroem ao longo de décadas e se destroem em semanas. Os ritos que garantem a credibilidade da Corte, como o contraditório, a ampla defesa, o julgamento colegiado, e a publicidade dos atos existem precisamente para momentos como este. Respeitá-los não é defender ninguém. É defender a única coisa que, no fim, protege a todos.

Avança negociação sobre o tarifaço

Por O Povo (CE)

Chefe da diplomacia, Rubio é um dos integrantes mais influentes no governo de Donald Trump. Portanto, tudo indicava, apesar da disposição brasileira em negociar, que não haveria recuo por parte do governo dos EUA em aplicar as tarifas adicionais

Quando os Estados Unidos anunciaram um novo tarifaço contra o Brasil, no fim de julho, tudo indicava que a situação chegaria a um confronto, inclusive com a iniciativa do governo brasileiro de implementar a "reciprocidade", taxando na mesma medida produtos americanos. A "química" entre Lula e Trump, que marcou o encontro supostamente casual entre os dois chefes de Estado, na Assembleia Geral da ONU, em setembro do ano passado, parecia dissolvida.

Entraram em campo o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que confirmou oficialmente a aplicação da tarifa extra de 25% sobre exportações brasileiras; e também Marco Rubio, o secretário de Estado Americano, que Lula classificou como "latino-americano frustrado", menção à sua ascendência cubana.

De fato, Rubio não se importa em anunciar publicamente o seu descontentamento com o Brasil, inclusive dizendo não considerar o país entre o grupo de nações consideradas "amigáveis" aos interesses dos EUA no "hemisfério ocidental". Ele expressou essa opinião em depoimento ao Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos, no início de junho. Chefe da diplomacia, Rubio é um dos integrantes mais influentes no governo de Donald Trump.

Portanto, tudo indicava, apesar da disposição brasileira em negociar, que não haveria recuo por parte do governo dos EUA em aplicar as tarifas adicionais.

No entanto, tudo mudou após um telefonema entre os presidentes brasileiro e americano. A iniciativa do governo brasileiro de buscar interlocução direta com Trump ocorreu após a percepção de que o diálogo não avançaria nos canais formais de negociação, o principal deles, o Departamento de Estado, chefiado por Rubio.

Depois do telefonema, Trump deu ordens para que as negociações em torno das tarifas continuassem. A primeira reunião entre as equipes dos dois países ocorreu nesta segunda-feira, por videoconferência. Um dos negociadores brasileiros, o ministro Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, informaram que nova reunião será realizada presencialmente, no fim de setembro ou início de outubro, nos Estados Unidos. Segundo o ministro brasileiro, Greer teria dito a ele que o presidente Trump havia orientado pela busca de um acordo na questão das tarifas.

O desenrolar dos acontecimentos, permite concluir que deve existir diferença entre o que pensa o chefe do Executivo americano, Donald Trump, e seu auxiliar, Marco Rubio, quando relacionamento com o Brasil. No entanto, não se pode, ainda, apostar que a situação será resolvida. O relacionamento entre o Brasil e os EUA é complexo o suficiente para recomendar prudência. 

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