STF deve cobrar explicações urgentes de Moraes
Por O Globo
Mensagens com apelos de Vorcaro às vésperas
de ser preso põem ministro em xeque
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Alexandre de Moraes continua a dever explicações convincentes sobre suas
relações com Daniel Vorcaro, o ex-dono do Banco Master preso por ter comandado
a maior fraude bancária da História do Brasil. O relatório da Polícia Federal
(PF) revelado nesta terça-feira traz indícios que expõem um grau de proximidade
entre Vorcaro e Moraes incompatível com a isenção e a imparcialidade
indispensáveis a qualquer magistrado, ainda mais a um ministro da mais alta
Corte do país.
No relatório, cujo conteúdo foi revelado pelo jornal O Estado de S.Paulo, a PF atribui a Vorcaro mensagens endereçadas a Moraes, enviadas por um sofisticado mecanismo destinado a proteger a comunicação. Segundo a apuração dos investigadores, é possível afirmar que Moraes é o destinatário dessas mensagens. Suas respostas a Vorcaro não foram encontradas, porém, porque seu celular não foi periciado.
O ministro André Mendonça, relator do caso
Master no STF, solicitou à Procuradoria-Geral da República que se manifestasse
sobre as conclusões da PF, levantou o sigilo do caso e pediu uma sessão
pública, transparente e presencial para examinar as evidências. “O caminho
inevitável dos presentes autos leva ao plenário deste STF”, afirmou. A PGR se
pronunciou, alegando que a investigação deveria ser anulada, pois não cabe a
Mendonça investigar Moraes, prerrogativa exclusiva do Ministério Público.
Independentemente do desfecho jurídico do
caso, com tudo o que já se sabia mais o conteúdo revelado nesta terça-feira,
torna-se verossímil a versão segundo a qual Vorcaro contava com Moraes para
protegê-lo de investigações que sabia estarem em andamento. Caso o ministro não
consiga explicar os fatos, poderá ser ele próprio investigado.
Desde o ano passado, quando a colunista do
GLOBO Malu Gaspar revelou o contrato de R$ 130 milhões entre o Master e o
escritório de advocacia da mulher de Moraes, o ministro tem escolhido o
silêncio ou se manifestado por meio de notas lacônicas, emitidas por vezes
semanas depois dos fatos. No início do ano, a própria Malu Gaspar revelou uma
mensagem enviada por Vorcaro ao celular de Moraes horas antes de ser preso:
“Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
Segundo o relatório da PF, essa foi a
mensagem culminante numa sucessão de outras nos dias anteriores. “Não
conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, dizia, dois dias antes da
prisão, uma mensagem em que, na interpretação da PF, Vorcaro se referia ao
procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues — ambos
convidados dele numa viagem a Londres em abril de 2024, coroada por degustação
de uísque. “O Paulo só disse que tava olhando pessoalmente”, afirmava outra
mensagem. “E com Andrei dá pra segurar?”, perguntava uma terceira, a menos de
24 horas da prisão. “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, questionava,
insinuando estar preparado para deixar o país caso necessário. “Estamos juntos
sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Muito obrigado por
tudo”, afirmava outra mensagem, sugerindo que Moraes já havia respondido a
demandas de Vorcaro no passado.
A PF encontrou evidências de que a minuta do
contrato do Master com o escritório de advocacia foi editada pelo próprio
Moraes. O escritório confirmou que envia contratos ao ministro e alegou que ele
buscava “eventuais impedimentos legais para a contratação nos termos propostos
na minuta contratual”. Mas a dúvida ética persiste.
Todos os citados no relatório da PF têm
esclarecimentos a prestar. Gonet era mesmo o Paulo das mensagens? E, se era,
deu algum acesso especial a Vorcaro? Rodrigues era o Andrei citado? Foi instado
ou tentou “segurar” alguma investigação? Por fim, a Moraes cabe não apenas se
dizer honesto, mas demonstrar sua honestidade. Ninguém pode ser ou será
considerado culpado de antemão. Mas a sociedade precisa de explicações. O
silêncio ou notas lacônicas não serão suficientes.
Renan cometeu erro, mas punição aplicada por
Toffoli era exagerada
Por O Globo
Omissão de perfis não justificava suspensão da campanha. Ministro fez bem em voltar atrás
A campanha eleitoral no ambiente on-line
continua a trazer desafios ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sujeito a todo
tipo de manobra e manipulação, o mundo digital suscitou novas regras para
garantir uma competição mais justa. É o caso da legislação que proíbe as redes
sociais de incluir perfis políticos em seus sistemas de recomendação de
conteúdo em época de campanha, pois não há como garantir que eles assegurem
equilíbrio na exposição dos candidatos. Para que a regra funcione, o TSE exige,
na apresentação dos registros de candidaturas, todos os perfis virtuais que
serão usados em período eleitoral.
Quando registrou sua candidatura, em 7 de
agosto, o candidato à Presidência Renan Santos (Missão) informou dois perfis
pelos quais veicularia conteúdo eleitoral. Quase duas semanas depois, no dia
19, fez uma retificação e incluiu mais 14 canais. Não há dúvida, portanto, de
que ele cometeu um erro nas informações prestadas à Justiça Eleitoral. O
equívoco, porém, não justificava a decisão monocrática do ministro Dias
Toffoli, do TSE, de suspender temporariamente sua campanha. Faltando pouco mais
de um mês para o pleito, Renan ficou proibido de participar de debates em rádio
e televisão, perdeu acesso a verbas do fundo eleitoral e não poderia usar a
maior parte dos perfis. Depois Toffoli foi sensato ao voltar atrás e liberar a
participação em debates e o financiamento da campanha, mas uma decisão dessa
magnitude — a suspensão de uma campanha — nem deveria ter sido tomada por um só
ministro.
Não há dúvida sobre a ilegalidade da omissão
de Renan. O questionamento se restringia à decisão drástica ter sido tomada
monocraticamente — e à desproporção da punição aplicada. O TSE não foi provocado
pelo Ministério Público ou por adversários na corrida presidencial. Foi Renan
quem tomou a iniciativa de retificar as informações prestadas. Só então Toffoli
examinou a questão e agiu de forma inédita, já que casos dessa natureza
costumam ser punidos com multa. No dia 20 de agosto, o TSE proibiu que o
candidato do PRTB à Presidência, Pablo Marçal, tenha acesso aos fundos
eleitoral e partidário, que participe de debates e do programa eleitoral no
rádio e na televisão. Nesse caso, porém, ele está inelegível, e a decisão da
Corte foi colegiada.
Independentemente do caso específico do candidato do Missão, a decisão de Toffoli precisa ser examinada pelo colegiado do TSE, para que não se torne um precedente copiado em tribunais eleitorais país afora. A suspensão de campanhas está prevista na lei, mas não deveria ser aplicada sem motivos que a justifiquem.
A Moraes cabe a renúncia
Por Folha de S. Paulo
Revelações escandalosas da PF acabam com as
dúvidas sobre a incompatibilidade do ministro com a corte
Sem gesto de desprendimento, restará ao
Senado fazer tramitar processo de impeachment; não há muito o que esperar da
PGR, infelizmente
Não há mais lugar no Supremo Tribunal Federal
(STF)
para Alexandre de
Moraes. Se o ministro não renunciar, restará ao Senado,
por meio de um processo de impeachment, livrar a corte desse fardo.
O limite da tolerância com a promiscuidade
entre o juiz e o mafioso Daniel Vorcaro havia
sido tangenciado com o que se sabia antes das últimas revelações. O contrato de
R$ 131 milhões entre o Banco Master e
o escritório da mulher de Moraes e as comunicações com o ministro à véspera da
prisão do delinquente, numa modalidade que apaga o que foi dito, deixavam pouca
dúvida sobre a gravidade da relação.
A torrente de situações abomináveis que acaba
de desaguar sobre a opinião pública sepulta qualquer incerteza restante sobre a
incompatibilidade de Moraes com o exercício da magistratura no STF. O
fraudador, enquanto enriquecia a família Moraes com dinheiro roubado, tinha o
ministro como um conselheiro e um informante.
No relatório policial que investigou o caso,
o ministro aparece como editor do contrato multimilionário com o escritório da
esposa, que negociou mais um acordo, este de R$ 50 milhões, com uma outra
empresa de Vorcaro.
No sábado anterior a sua detenção pela Polícia
Federal, o dono do Banco Master quis saber de Moraes se ele
deveria estar fora do país na segunda-feira. Idas e vindas de
mensagens e aviões sugerem ter havido encontros pessoais com o juiz nos
momentos agônicos do responsável pelo maior desfalque bancário da história do
país.
Graças à persistência da PF, da imprensa e do
ministro André
Mendonça, está seriamente ameaçado o pacto de impunidade que tem
mantido Moraes isolado de prestar contas. Não há muito o que esperar da Procuradoria-Geral
da República (PGR),
infelizmente. O procurador Paulo Gonet,
que descaradamente pediu a
nulidade do relatório policial, surge emaranhado na teia de
afinidades do Master.
Entretanto agora cabe escolher entre
Alexandre de Moraes e o Supremo Tribunal Federal, entre um indivíduo de má
conduta e a República. Enquanto o ministro permanecer na sua cadeira, a desonra
e o descrédito se acumularão sobre o tribunal. A atitude mais digna e rápida
seria a renúncia do magistrado. Ela pouparia as instituições nacionais de um
desgaste desnecessário e longo.
Na ausência desse ato de desprendimento, o
presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP),
está instado a fazer tramitar os pedidos de impeachment contra Moraes, que terá
direito à presunção de inocência, ao devido processo e a todas as outras
garantias legais.
Enquanto Lula gasta, PIB perde fôlego
Por Folha de S. Paulo
Economia desacelera no 2º trimestre, sob o
impacto dos juros elevados devido à irresponsabilidade fiscal
Alta de 0,5% pode dar a impressão de que
situação não é tão preocupante, mas cerca de metade da cifra vem do agro e da
indústria extrativa
Os números do
Produto Interno Bruto do segundo trimestre, divulgados nesta
terça (1) pelo IBGE,
mostram a economia em
processo de desaceleração, a despeito do aumento de gastos e crédito público
promovido por Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
neste ano eleitoral.
O crescimento de 0,5% pode dar a impressão de
que a situação não é tão preocupante, mas os componentes do PIB mostram
que a taxa de juros astronômica
mantida já há algum tempo —impulsionada pelas despesas do governo— tem causado
impacto.
O consumo
caiu 0,4% e tende a enfraquecer. A inadimplência deu sinais de
aumento nos últimos meses, especialmente nas faixas mais baixas de renda, dando
a entender que o Desenrola 2 ainda não tem sido tão efetivo quanto desejaria o
governo.
Mais ainda, nota-se um mercado de trabalho
que se ajusta ao arrocho monetário. Tanto os dados do IBGE quanto os do mercado
formal mostram um início, mesmo que lento, de deterioração.
Quem salva o resultado, como vem se repetindo
na história recente, são os produtos primários de exportação. Cerca de metade
do crescimento do segundo trimestre se deu graças à agropecuária e à indústria extrativa.
Se 2025 foi o ano do agro no PIB, 2026 será o
ano do petróleo —com
todas as ressalvas a comemorar um vetor climático tão negativo como é o caso do
principal produto da energia fóssil.
Mas não nos enganemos com o peso das
commodities. Desde 2021, pode-se dizer que cerca de 12% do crescimento
observado na economia brasileira veio desses segmentos do PIB.
Isso reforça a ideia de que as commodities
podem muito, mas não tudo. Por exemplo, os juros, ao lado dos custos elevados
de fertilizantes em razão da guerra entre EUA e Irã, tendem a resultar num 2027
muito complicado para a agropecuária.
Para uma expansão sustentável da economia, o
país depende de uma política econômica coerente e de reformas que permitam
aumento da produtividade. O pós-pandemia, junto a anos seguidos de mercado de
trabalho ruim, permitiu que se crescesse com novos empregos sem uma explosão
inflacionária.
O Banco Central soube conduzir a política
monetária para evitar uma alta de preços muito descolada do teto da meta.
Faltou, no entanto, a contribuição de uma política fiscal responsável.
Em vez disso, o governo Lula 3 promoveu
uma multiplicação de gastos desde antes da posse, no afã de
obter popularidade e na crença de que tal estratégia pode ser mantida
indefinidamente sem custos inflacionários. Não fosse esse impulso, os juros
poderiam ser menores hoje.
Maior crescimento decerto depende de mais do que apenas reduzir as taxas. Mas, sem o reequilíbrio fiscal, o próximo governo não terá nada a prometer.
Moraes tem de sair do Supremo
Por O Estado de S. Paulo
Diante das gravíssimas revelações feitas por
este jornal sobre sua relação com o Master, o ministro tem a obrigação de
renunciar, sob pena de arrastar o Supremo para sua crise pessoal
Alexandre de Moraes não tem mais condições de
seguir como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e deveria pedir
exoneração do cargo, para o bem da própria Corte. As revelações feitas
pelo Estadão de
que Moraes ajudou a elaborar o contrato milionário entre o escritório de
advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, de Daniel
Vorcaro, desmentem categoricamente que o ministro fosse alheio ao acerto e a
todas as suas implicações éticas e legais.
Para começar, participar da elaboração de um
contrato é exercício de advocacia, atividade incompatível com a magistratura.
Mas as mensagens do celular de Vorcaro tornadas públicas ontem pintam um quadro
muito mais grave. O banqueiro, pivô do maior escândalo da história do sistema
financeiro nacional, tratava Moraes como alguém a quem podia recorrer para
influir no curso de investigações. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou
Andrei?”, perguntou, em referência ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral
da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Em outra mensagem: “Se o Andrei
conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta
chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Dois dias antes de ser
preso, Vorcaro perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Não se sabe o que Moraes respondeu. Pouco
importa, porque já não se pode negar o que está diante dos olhos: um
investigado por fraudes bilionárias buscava num ministro informação, orientação
e intervenção sobre atos da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR),
enquanto seu banco pagava somas exorbitantes ao escritório de sua família –
contrato que tem as digitais do próprio Moraes.
Há perguntas que só uma investigação
responderá. Moraes procurou Gonet? Falou com Andrei? Tentou retardar
diligências? Transmitiu informações sigilosas? Dependendo das respostas, podem
estar em jogo ilícitos de imensa gravidade, como prevaricação, advocacia
administrativa, obstrução de justiça e corrupção passiva. Gonet não pode
continuar tratando esse material como “insuficiente”, como já o fez no passado,
sem cair ele mesmo em suspeição.
Gonet arquivou anteriormente uma
representação contra o ministro. Agora surgiram evidências novas, e uma delas
envolve o procurador-geral nominalmente: Vorcaro pedia a Moraes que recorresse
ao próprio Gonet para conter a investigação. André Mendonça já cobrou
esclarecimentos da PGR e avalia os próximos passos. Se isso ainda não basta
para abrir uma investigação formal e independente, é difícil saber o que
bastaria.
Investigar, porém, resolve apenas parte da
crise. As suspeitas recaem justamente sobre o uso do poder que Moraes continua
exercendo. O homem que lhe pedia ajuda para alcançar o chefe da PF e o
procurador-geral era o dono do banco que despejava dezenas de milhões de reais
no escritório de sua mulher. O ministro participou pessoalmente do contrato e
agora pode ter de ser investigado pelas mesmas instituições sobre as quais
Vorcaro esperava que ele exercesse influência. Essa situação é incompatível com
a normalidade institucional.
Moraes tem direito à presunção de inocência,
ao devido processo e a todas as garantias legais que tantas vezes negou a
outros, mas essas garantias não obrigam o Supremo a carregar, por tempo
indefinido, o peso de um ministro cuja permanência compromete a autoridade da
própria Corte.
O STF já errou demais no caso Master. Dias
Toffoli, que também mantinha negócios com Vorcaro, só deixou a relatoria do
caso depois que sua posição se tornou insustentável. Agora a crise atinge
Moraes em outro patamar – o mesmo ministro que tantas vezes invocou a defesa do
STF e do Estado Democrático de Direito para justificar o exercício de seus
poderes. Chegou a hora de demonstrar que seu compromisso com as instituições
vale também quando o sacrifício é seu.
Moraes tem de deixar o Supremo. Sua
responsabilidade criminal será apurada, mas a responsabilidade institucional já
se impõe. Se ele se recusar a retirar esse peso da Corte, sua permanência terá
de ser enfrentada por quem a Constituição encarregou de julgar crimes de
responsabilidade de ministros do STF: o Senado. Defender o Supremo, agora,
significa impedir que a crise de um ministro se torne a crise da instituição.
Superávit mágico
Por O Estado de S. Paulo
A apresentação do Orçamento com previsão de superávit
visa a fortalecer pretenso discurso fiscal de Lula em um quarto mandato, mas o
avanço da dívida bruta não deixa espaço para ilusões
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou
ao Congresso uma proposta para o Orçamento com previsão de um superávit
primário de R$ 18,6 bilhões no ano que vem. O valor já considera todas as
despesas que podem ser deduzidas do cálculo da meta fiscal e, se cumprido, será
a primeira vez desde 2022 que o País encerrará o ano com saldo positivo entre
receitas e despesas. Seria um feito impressionante, não fosse o fato de que não
parece factível.
Já faz tempo que a peça orçamentária
superestima receitas e subestima despesas. Mais que um instrumento de
planejamento e execução de políticas públicas, o Orçamento se converteu em mero
cumprimento de ritos constitucionais, que estabelecem o prazo de 31 de agosto
como limite para o envio do projeto ao Legislativo.
Dito isso, a equipe de Lula não repetiu o
erro primário de seus antecessores e se preparou para elaborar uma peça que ao
menos parasse de pé – diferentemente da apresentada em 2022, quando Jair
Bolsonaro, em plena campanha eleitoral, não conseguiu sequer encontrar espaço
para manter o valor que já era pago pelo antigo Auxílio Brasil e cortou em 59%
a verba do programa Farmácia Popular, fragilidades que se tornaram alvo de seus
adversários.
Mas as manobras tradicionais adotadas por
todos os governos, independentemente do espectro político, seguem a todo vapor.
A arrecadação, por exemplo, foi estimada em R$ 2,85 trilhões, o equivalente a
19,27% do PIB – um avanço e tanto em relação às receitas deste ano, que
renderam R$ 2,6 trilhões, ou 18,95% do PIB.
Desta vez, o governo não dependerá da aprovação
de medidas adicionais de aumento de impostos a serem aprovadas pelo Congresso,
como nos últimos anos. A mágica por trás dos números vem do crescimento da
economia, projetado em 2,46% no ano que vem.
Não se sabe de onde o governo tirou essa
estimativa, e a equipe econômica tampouco se esforçou em explicar. Mas o
mercado financeiro, segundo a mais recente edição do Boletim Focus, espera uma alta bem
mais modesta, de 1,50%, e o dado mais recente do PIB, divulgado ontem pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), evidenciou uma economia
em desaceleração, com alta de apenas 0,5% no segundo trimestre.
Já as despesas, segundo o governo, somarão R$
2,83 trilhões, ou 19% do PIB. Desse total, 91,7% são de caráter obrigatório, um
recuo em relação aos 92,4% deste ano. Isso, segundo o governo, se deve a
ajustes que permitiram a abertura de um espaço adicional de R$ 38,7 bilhões
para as despesas discricionárias, que somarão R$ 266,8 bilhões. Foi essa
revisão, segundo o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, que
garantiu ao governo encontrar espaço para fazer um aporte de R$ 6 bilhões nos
Correios.
Basta analisar os números com um pouco mais
de atenção para ter a certeza de que a peça ainda passará por muitas mudanças
até ser aprovada. O valor reservado para as emendas parlamentares, por exemplo,
será de R$ 44,8 bilhões, inferior, portanto, aos R$ 49,9 bilhões aprovados para
este ano.
É pretexto suficiente para que deputados e
senadores remanejem verbas de modo a elevar o valor de suas indicações após as
eleições de outubro, sobretudo para as emendas de comissão, as substitutas das
emendas de relator, origem do esquema do orçamento secreto, revelado pelo Estadão, para as quais o
governo, convenientemente, não indicou dinheiro algum.
Mas a verdade é que, para o governo, neste
momento, não importa se o superávit será ou não efetivamente cumprido. A
apresentação da peça, da forma como foi feita, cumpre o principal objetivo da
equipe econômica, que era mostrar aos investidores que Lula pode até vociferar
contra a necessidade de ajustes durante a campanha eleitoral, mas, na prática,
se rende ao pragmatismo quando a realidade dos números bate à porta.
Acredita quem quer. O fato é que a dívida
bruta aumentou pelo sétimo mês consecutivo, atingindo a marca de 82,51% do PIB
em julho, segundo o Banco Central. Já são 10,8 pontos porcentuais de aumento
desde que Lula assumiu o cargo em janeiro de 2023, prova de que seu governo
trata as metas fiscais como um número qualquer.
Campanha sub judice
Por O Estado de S. Paulo
Justiça Eleitoral ainda decide quais
candidaturas valem quando campanha já está nas ruas
A campanha eleitoral já é curta. Neste ano, o
eleitor terá ainda mais trabalho: serão seis votos, dois deles para o Senado.
E, mesmo assim, a pouco mais de um mês das urnas, ainda há uma dúvida elementar
a ser resolvida pela Justiça Eleitoral: quem, afinal, poderá ser candidato.
O Ministério Público Eleitoral acaba de pedir
a impugnação de 974 registros de candidatura em todo o País. Mais de 70% são de
candidatos a deputado federal ou estadual, mas há pelo menos nove ações para
barrar candidatos a governador ou vice em seis Estados e no Distrito Federal.
Na disputa pela Presidência, o Ministério Público contesta o registro de Pablo
Marçal (PRTB), que considera inelegível até 2032.
Na lista há nomes conhecidos. Anthony
Garotinho (Republicanos-RJ) faz campanha para voltar ao governo do Rio de
Janeiro enquanto o Ministério Público sustenta que ele está impedido pela Lei
da Ficha Limpa. José Roberto Arruda (PSD-DF) aparece em segundo lugar nas
pesquisas para o governo do Distrito Federal e tem chances de chegar ao segundo
turno, mas sua candidatura também está sob contestação por causa de seis
condenações por improbidade administrativa. Enquanto a questão não é resolvida,
ambos continuam fazendo parte dos cálculos da eleição.
Eduardo Cunha (Republicanos-MG) tenta voltar
à Câmara dos Deputados, onde já foi rei, e recuperar também, se eleito, o foro
privilegiado. Cassado em 2016, o ex-presidente da Câmara ainda tem pela frente
um pedido de impugnação do Ministério Público, que sustenta que uma condenação
por improbidade o mantém inelegível até 2027. Cunha não sabe ainda se poderá
voltar à Câmara, mesmo que tenha votos para isso. Ainda assim, já recebeu o
apoio efusivo do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL),
que o chamou de uma “pessoa que tem um papel importante na história do nosso
Brasil”. Se a Justiça ainda não sabe se Cunha pode voltar à Câmara, Flávio
Bolsonaro parece não ter dúvida de que deve.
Impugnação, evidentemente, não significa
inelegibilidade. Os candidatos têm direito à defesa e alguns deles podem ter
razão quando sustentam que estão aptos a concorrer. O problema é que essa
discussão está sendo travada quando a campanha já começou.
Os partidos tiveram até 15 de agosto para
registrar os candidatos; desde o dia seguinte, eles estão nas ruas pedindo
votos. A Justiça tem até 14 de setembro para terminar de analisar os registros.
Serão então apenas 20 dias até a eleição. Há algo errado nesse calendário.
A campanha de 2026 já está nas ruas, mas a lista de candidatos ainda não está fechada. Ninguém espera que a Justiça acelere julgamentos a qualquer preço ou presuma inelegível quem responde a uma impugnação. O calendário, porém, deveria dar à Justiça tempo para fazer seu trabalho antes que o eleitor precise fazer o dele. O eleitor pode ter muitas dúvidas até outubro, mas saber quem é de fato candidato não deveria ser uma delas. É pedir demais que, além de escolher seis candidatos na urna, o cidadão tenha ainda de adivinhar quem está concorrendo para valer.
Investimentos e consumo em baixa esfriam
economia
Por Valor Econômico
O esfriamento da economia abre espaço para que o BC continue com cautela reduzindo os juros
A economia brasileira esfriou rapidamente no
segundo trimestre do ano, em um movimento que deve perdurar nos próximos
trimestres. O Produto Interno Bruto (PIB) do período cresceu 0,5% em relação ao
trimestre anterior, ligeiramente acima do esperado, mas sua composição não
disfarça a tendência baixista. O consumo das famílias teve desempenho pior do
que o previsto — economistas consultados pelo Valor esperavam aumento de
0,6% e o resultado foi de 0,4% negativo. E, como termômetro pelo lado da
demanda, os serviços (69,5% do PIB) evoluíram apenas 0,2%.
Estímulos oficiais à demanda não faltaram. O
volume autorizado para crédito garantido ou subsidiado atingiu R$ 281,9
bilhões, ou 2,1% do PIB no ano, e a despesa financeira paga pelo governo
federal (exclui juros), após bater recorde em 2025, atingiu, somente nos sete
primeiros meses de 2026, 1,09% do PIB, segundo Luiz Schymura, pesquisador do
FGV Ibre (Valor,
ontem). Além disso, o desemprego apresentou o menor nível da série no período,
a população empregada bateu recorde e a massa salarial cresceu 4,7% acima da
inflação.
Parte significativa dos estímulos oficiais e
a boa forma do mercado de trabalho persistirão por algum tempo, mas a economia
pode ter encontrado seu limite para manter-se em expansão acima de sua
capacidade, mesmo com anabolizantes. Os juros muito altos, para combater uma
inflação resistente, inverteu a roda inicial benéfica da fartura de crédito que
impulsionou as atividades. O comprometimento da renda com dívidas é recorde,
assim como não para de aumentar o número de empresas em recuperação judicial.
Boa parte do aumento da renda — a renda nacional disponível bruta, de R$ 3,348
trilhões no trimestre, é a maior da série — pode estar fluindo para pagamento
do consumo passado (dívidas), e outra parte expressiva, pelas camadas de maior
renda, para usufruir dos rendimentos que os juros reais perto de 10% ao ano
propiciam.
O retrato do segundo trimestre mostrou que os
setores que mais crescem, embora não os de maior peso na economia, são os não
cíclicos, cujas atividades respondem menos ao aperto monetário, como a
agricultura (com avanço de 2,8% sobre o trimestre anterior e 6,8% sobre o mesmo
trimestre de 2025) e a indústria extrativa (3,4% e 12%, respectivamente).
Exportações agrícolas e exploração de petróleo garantiram o desempenho positivo
do PIB. Segundo relatório do Bradesco, excluídos esses dois setores, o
resultado seria uma queda trimestral de 0,1%.
Desde o segundo trimestre do ano passado, o
PIB decresce sem parar na comparação de quatro trimestres sobre os quatro
anteriores. O consumo das famílias, nesse critério, aumentou apenas 0,9%, e
menos ainda, 0,5%, na comparação do segundo trimestre contra o mesmo período de
2025. Esse consumo puxa os serviços, cujas atividades também arrefecem —
avançaram só 0,2% no segundo trimestre e 1,5% em 12 meses. Outras atividades de
serviços, que englobam os prestados à família e os pessoais, movidos pela
renda, nada cresceram no último trimestre.
Os investimentos, que garantem a capacidade
de expansão futura, estancaram. No acumulado do primeiro semestre, nada
cresceram. Ante o segundo trimestre de 2025, caíram de 16,6% para 16,1% do PIB,
o menor nível desde o segundo trimestre de 2020 (durante a pandemia). É uma
taxa insuficiente para voos mais altos da economia e muito distante do pico de
21,1% do PIB do segundo trimestre de 2013. Esse é um resultado esperado, diante
da forte elevação do custo de capital. A taxa de poupança mal saiu de um nível
medíocre, de 16,6% do PIB no segundo trimestre, ante 16,5% do primeiro.
As exportações cresceram menos que as
importações (0,8% e 1,8%, respectivamente), retirando 0,5 ponto percentual do
PIB, de acordo com Alberto Ramos, diretor de pesquisa para a América Latina do
Goldman Sachs. A demanda doméstica (soma do consumo das famílias e do governo e
investimentos) ficou estável, e a variação positiva dos estoques colaborou com
1 ponto percentual.
As previsões de consultorias e bancos para o
PIB vêm caindo, e o último boletim Focus aponta 1,92% para o avanço da economia
em 2026 e 1,5% no ano que vem. Os resultados divulgados ontem pelo IBGE podem
reforçar uma tendência mais pessimista sobre essa performance, pois o auge do
aperto monetário, que levou a taxa Selic a 15% em meados de 2025, mostra seus
plenos efeitos agora. A desaceleração da economia já torna irrealista a
previsão de crescimento de 2,46% contida no orçamento de 2027, apresentado na
segunda-feira. A expectativa de receitas não deve se materializar em um ano em
que as contas públicas teriam de apresentar, segundo a peça orçamentária, um
superávit de R$ 18,6 bilhões.
O esfriamento da economia abre espaço para que o BC continue com cautela reduzindo os juros. As taxas futuras DI para janeiro de 2027 estão próximas de 13,5%, abaixo das expectativas do Focus para o fechamento do ano, de 13,75%. Sem estímulos oficiais maiores que os atuais e com uma expansão econômica mais perto da potencial, o arrocho monetário poderia finalmente ser suavizado.
A Corte em xeque
Por Correio Braziliense
Respeitá-los não é defender ninguém. É
defender a única coisa que, no fim, protege a todos
O caso é grave e precisa ser dito com
clareza. Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco
Master, indicam que o banqueiro pediu reiteradamente ao ministro Alexandre de
Moraes que acionasse a cúpula da Polícia Federal e do Ministério Público para
conter o avanço das investigações contra sua instituição financeira. Os
diálogos se estenderam até poucas horas antes da primeira prisão de Vorcaro, em
novembro de 2025.
Os investigadores recuperaram as mensagens
enviadas em imagens pelo banqueiro, mas não as respostas do ministro — os dois
utilizavam o recurso de visualização única do WhatsApp, que apaga
automaticamente as imagens após a abertura. A dúvida instalada é séria demais
para ser ignorada. No início da noite de ontem, o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, protocolou o pedido de anulação das provas colhidas
pela Polícia Federal.
A decisão do ministro André Mendonça de levar
o caso ao plenário do STF é correta e bem-vinda. Questões dessa magnitude não
podem ser resolvidas por um único ministro, ainda mais quando o envolvido é um
colega de Corte. O plenário é o foro adequado, e sua atuação, neste caso, é
também uma demonstração de que a instituição é capaz de se autorregular. Se há
inocência, que seja demonstrada com transparência e perante os pares. Se há
irregularidade, que seja apurada com o mesmo rigor que a Corte aplica a todos
os demais.
O que não pode acontecer é o que já começa a
se desenhar nos bastidores: uma guerra interna entre ministros, com vazamentos
estratégicos, movimentações de bastidor e posicionamentos públicos que
transformem uma investigação legítima em um racha institucional. O STF já chega
a este momento fragilizado. Está incompleto desde a saída de Luís Roberto
Barroso, em outubro, operando há quase um ano com uma cadeira a menos em sua composição.
Nos últimos anos, a Corte acumulou visibilidade e desgaste em igual medida,
tornando-se alvo de críticas de espectros políticos opostos. Adicionar uma
crise interna de proporções públicas a esse quadro não é inconveniente e
irresponsável.
O Brasil vive um período de instabilidade
política que vai se intensificar até outubro. As eleições presidenciais já
começam a contaminar o ambiente institucional, e cada movimento das grandes
instituições é lido, interpretado e disputado pelo campo eleitoral. Nesse
contexto, um STF rachado publicamente é combustível para quem tem interesse em
desestabilizar as próprias bases da democracia brasileira. A Corte é, acima de
tudo, guardiã da normalidade institucional do país, e esse papel não pode ser
abandonado no exato momento em que mais é exigido.
O apelo que se faz é simples: que os fatos sejam apurados com rigor, que Moraes possa se explicar com transparência, e que o STF conduza esse processo com a sobriedade que a gravidade do momento exige. Instituições se constroem ao longo de décadas e se destroem em semanas. Os ritos que garantem a credibilidade da Corte, como o contraditório, a ampla defesa, o julgamento colegiado, e a publicidade dos atos existem precisamente para momentos como este. Respeitá-los não é defender ninguém. É defender a única coisa que, no fim, protege a todos.
Avança negociação sobre o tarifaço
Por O Povo (CE)
Chefe da diplomacia, Rubio é um dos
integrantes mais influentes no governo de Donald Trump. Portanto, tudo
indicava, apesar da disposição brasileira em negociar, que não haveria recuo
por parte do governo dos EUA em aplicar as tarifas adicionais
Quando os Estados Unidos anunciaram
um novo tarifaço contra o Brasil, no fim de julho, tudo indicava que a situação
chegaria a um confronto, inclusive com a iniciativa do governo brasileiro de
implementar a "reciprocidade", taxando na mesma medida produtos
americanos. A "química" entre Lula e Trump, que marcou o encontro
supostamente casual entre os dois chefes de Estado, na Assembleia Geral da ONU,
em setembro do ano passado, parecia dissolvida.
Entraram em campo o Escritório do
Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que confirmou oficialmente a
aplicação da tarifa extra de 25% sobre exportações brasileiras; e também
Marco Rubio, o secretário de Estado Americano, que Lula classificou como
"latino-americano frustrado", menção à sua ascendência cubana.
De fato, Rubio não se importa em anunciar
publicamente o seu descontentamento com o Brasil, inclusive dizendo não
considerar o país entre o grupo de nações consideradas "amigáveis"
aos interesses dos EUA no "hemisfério ocidental". Ele expressou essa
opinião em depoimento ao Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados
Unidos, no início de junho. Chefe da diplomacia, Rubio é um dos integrantes
mais influentes no governo de Donald Trump.
Portanto, tudo indicava, apesar da disposição
brasileira em negociar, que não haveria recuo por parte do governo dos EUA em
aplicar as tarifas adicionais.
No entanto, tudo mudou após um telefonema
entre os presidentes brasileiro e americano. A iniciativa do governo
brasileiro de buscar interlocução direta com Trump ocorreu após a percepção
de que o diálogo não avançaria nos canais formais de negociação, o principal
deles, o Departamento de Estado, chefiado por Rubio.
Depois do telefonema, Trump deu ordens para
que as negociações em torno das tarifas continuassem. A primeira reunião entre
as equipes dos dois países ocorreu nesta segunda-feira, por videoconferência.
Um dos negociadores brasileiros, o ministro Márcio Elias Rosa, do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e o representante comercial dos Estados
Unidos, Jamieson Greer, informaram que nova reunião será realizada
presencialmente, no fim de setembro ou início de outubro, nos Estados Unidos.
Segundo o ministro brasileiro, Greer teria dito a ele que o presidente Trump
havia orientado pela busca de um acordo na questão das tarifas.
O desenrolar dos acontecimentos, permite concluir que deve existir diferença entre o que pensa o chefe do Executivo americano, Donald Trump, e seu auxiliar, Marco Rubio, quando relacionamento com o Brasil. No entanto, não se pode, ainda, apostar que a situação será resolvida. O relacionamento entre o Brasil e os EUA é complexo o suficiente para recomendar prudência.

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