O Globo
A confiança na democracia está se estiolando,
num país ferido pela polarização e com reflexos do maior escândalo financeiro
da história
Os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal carregaram bombas para dentro da instituição. O perigo não é mais externo. É interno. O presidente Luiz Edson Fachin terá que conduzir com sabedoria salomônica o fim da maior crise da história do Supremo. O foco tem que ser, o que se quer salvar. É de novo a democracia. O ministro Alexandre de Moraes quis usar o inquérito das fake news contra o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça extrapolou de suas funções ao direcionar a investigação, e ao avançar sobre atribuições da Polícia Federal.
A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.
O depoimento de Daniel Vorcaro no gabinete de
André Mendonça é uma óbvia tentativa de manipulação. As acusações sem lastro ao
diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são para confundir, para tirar
proveito da briga entre o ministro e o comando da Polícia Federal.
Qualquer delação premiada de Daniel Vorcaro
tem que começar com ele respondendo às perguntas: onde está o dinheiro, quando
e como você vai devolver? Ele nunca respondeu. Essa é a explicação para o fato
de a delação premiada do ex-banqueiro não ter progredido nem na Polícia
Federal, nem no Ministério Público. Vorcaro não admite sequer que cometeu
crimes. Ele se comporta como se fosse vítima. E tentou neste depoimento ao juiz
substituto do ministro Mendonça mais uma vez alimentar a tese de que é um
perseguido. Vorcaro é o criminoso, tem direito às garantias constitucionais
mantidas na democracia, mas não pode manipular o sistema judiciário.
Os fatos são importantes. Vorcaro tentava
falar com todo mundo que pudesse ter interesse para ele na estrutura de poder
no Brasil. Muitos falaram. O erro não está em ter tido contato com ele, mas no
que houve na relação entre o agente público e o banqueiro corruptor. O contrato
milionário entre o escritório da família de Alexandre de Moraes com ele, revelado
por Malu Gaspar, é um fato incontornável. Os diálogos divulgados pelo relatório
da Polícia Federal, tornado público pelo ministro André Mendonça na terça-feira
passada, trazem indícios contra Moraes que precisam ser esclarecidos.
O dinheiro de Vorcaro não era privado. Ele
deu golpes em fundos de pensão de servidores públicos e colocou um rombo num
banco público, o BRB. O senador Flávio
Bolsonaro não tem razão quando diz que o dinheiro de Vorcaro
era privado. Ele se capitalizou saqueando dinheiro público. Um senador da
República não pode fazer o que Flávio fez: correr atrás de dinheiro de Vorcaro,
sonegar informações de como os recursos foram usados, mentir sobre o volume de
dinheiro que recebeu.
O que Vorcaro tenta agora é aproveitar os
conflitos e escapar de alguma forma. Tenta criar suspeição sobre Andrei porque
a Polícia Federal o prendeu, o interrogou e vai pedir seu indiciamento em
breve. A suspeição sobre a PF daria a ele a nulidade do procedimento original.
Uma autoridade que acompanhou os momentos
nervosos que levaram Vorcaro a ser apanhado em quase fuga diz que o diretor
geral foi essencial desde o primeiro momento. “Eu sei o que ele fez para não
deixar o cara escapar naquela noite”.
A estratégia de Daniel Vorcaro neste momento
é evidente. Ele está preso, seu pai, seu cunhado e seu primo estão presos. Ele
não conseguiu fazer delação premiada porque não entregou informações
relevantes, nem quis devolver o dinheiro que escondeu. Está aproveitando a
crise entre as instituições — e dentro delas — e a hora da ferrenha disputa
eleitoral para fazer seu jogo. Vorcaro vai tentar de tudo agora.
As próximas semanas serão muito tensas.
Fachin tem sobre seus ombros de juiz a carga mais pesada. Moraes não pode ser
protegido. Mendonça não pode conduzir de forma seletiva sua relatoria. Em
Provérbios há um versículo que orienta sobre o que é essencial em tempos
turvos. “Sobretudo o que se deve guardar, guarde o seu coração porque dele
procedem as fontes da vida”. Não é preciso ser religioso para valorizar a
mensagem e entender que o bem mais precioso a guardar neste momento é a
democracia.

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