Esse desenho gelatinoso é constituído por uma
miríade de setores da geografia política aos quais pertencem todos que estão na
disputa eleitoral de 2026. Estes setores, pela própria natureza das coisas num país
presidencialista, formaram o “grupo governante”.
Um segundo componente é a coligação de vários partidos que percorrem juntos o já longo processo de consolidação democrática e suas vicissitudes. Na coligação predominam aqueles que adotaram uma valorização do sistema democrático e tendem a moderar os impulsos autoritários que aparecem, de tempos em tempos, em grupos ideológicos ou não de linha dura.
Existe também o setor de extrema-direita que
se mantém impaciente. Deseja fazer um Governo, mas para tanto pressiona e
empurra à democracia para posições reacionárias, nostálgicas e autoritárias com
mais narrativas de força do que persuasão.
Finalmente, orbitando nos diversos escalões,
circulam vários personagens de origens diversas, sem qualquer ligação com os
grupos e setores anteriores. Há também diferentes andares que aparentam poder e
funcionalidades como guardiões dos templos dos poderes, protegendo algo como
uma oligarquia de novo tipo como ilustra Joaquim Falcão em A oligarquia dos poderes: e a crise da
democracia (Rio de Janeiro: História Real, 2026) que ainda não
conseguimos decifrar completamente, mas que o fazem com a testa franzida e um
gesto arrogante.
Entre os que atuam sem bandeira, alguns
possuem habilidades técnicas e outros menos. Alguns têm experiência política
prévia e outros nenhuma. Alguns ostentam suas ambições políticas e outros
parecem agir por boa vontade. Aqueles que vão se chegando dessa forma mostram
os erros evidentes do sistema partidário.
Essa situação explica o histórico de gestões
inadequadas, uma abordagem política desajeitada, uma coordenação um tanto
frouxa e um alto nível de ruído.
Dito de forma clara: eles estão lá não por
laços programáticos, mas por suas necessidades. Possuem algumas
semelhanças, mutatis mutandis,
com a história governamental brasileira.
Isso sugere cautela em nosso julgamento
diante da disputa eleitoral em 2026. Embora seja louvável que, durante essa
campanha em curso, sua tendência não tenha sido a de ultrapassar as regras
democráticas, não podemos ter certeza de que esses impulsos não aparecerão em
breve.
Diante desse cenário aziago, a sociedade
especula sobre qual forma conheceria um outro infausto evento. O modelo do 8 de
janeiro de 2023, com uma série de atos de vandalismo, invasões e depredações do
patrimônio público às sedes dos Três Poderes em Brasília, cometidos por uma
multidão de extremistas com o objetivo de instigar um golpe militar contra o
governo eleito, todos e todas julgados e condenados na Ação Penal N.º 2.668, de
2025. Os tanques na rua não vieram diversos de 1964, nem o Supremo Tribunal
Federal (STF) foi posto sob intervenção de um cabo e dois soldados.
A terra prometida da democracia não chegará
amanhã nem depois, e será necessário um esforço prolongado e harmonioso de ação
política para que ela se concretize.
Mas na área da segurança pública, as coisas
parecem atingir outras proporções que têm a ver com os fundamentos da
democracia e a concepção do exercício do poder.
Não é por acaso que a Proposta de Emenda à
Constituição que dispõem sobre as competências da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios relativas à segurança pública, apresentada
pelo Governo, tenha suscitado preocupações quanto ao funcionamento democrático,
na percepção da oposição, como dos mandatários dos entes federados envolvidos.
Isso acabou fortalecendo o populismo
transacional e deu à oposição uma oportunidade de romper com sua inércia e
agir.
Aí estão essas possíveis Ligações Perigosas (1782),
para usar o nome do romance de Pierre Choderlos de Laclos (1741-1803), com
setores políticos de extrema-direita, que lutam pelo poder, que são os
operadores do conceito de iliberalismo, que desprezam e banalizam a democracia
(inclusa a liberal), mas a usam para distorcê-la e muitas vezes atacam as
democracias estabelecidas de forma obscura.
Suas posições na campanha ora em curso são
públicas e notórias, sua linguagem é áspera e vulgar, alguns deles expressam
nostalgia pelos cruéis totalitarismos do século XX.
Existe literatura séria e bem documentada
sobre o assunto, como Os
engenheiros do caos, (tradução de Arnaldo Bloch. – 1. ed. – São
Paulo: Vestígio, 2019), de Giuliano Da Empoli e A Extrema direita hoje (tradução de Thiago
Dias da Silva – 1. ed. – Rio de Janeiro: EdUERJ, 2022), de Cass Mudde, entre
outros, todos pesquisadores respeitados no mundo acadêmico.
Para que uma sociedade democrática caminhe
bem, aqueles que a lideram devem ter convicções democráticas profundas, e não
apenas circunstanciais e/ou instrumentais. Isso inclui a plena adesão aos
procedimentos democráticos, a proteção das liberdades, o respeito aos direitos
civis e políticos, a existência de padrões mínimos de civilização que
transcendam o mérito, o pluralismo e o respeito às minorias.
É a partir disso que se constrói também uma
política de segurança pública e cidadã, juntamente com a luta incessante contra
o crime.
Um democrata deve sempre ter em mente as
palavras do filósofo italiano Gianni Vattimo (1936-2023): “Não concordamos quando
encontramos a verdade, mas dizemos que encontramos a verdade quando
concordamos.”
Isso não significa que qualquer acordo seja
verdadeiro e correto, mas sim que, na política, ninguém possui uma verdade
absoluta; portanto, em uma democracia, a verdade é construída por meio do
diálogo e da persuasão entre indivíduos e sociedades livres.
*Ricardo Marinho é Membro da Comissão Própria de Avaliação (CPA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Representante dos Professores no Conselho Diretor da Associação dos Empregados de Nível Universitário da CEDAE (ASEAC) e professor da UniverCEDAE, da Faculdade Unyleya e da Teia de Saberes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário