De qualquer forma, sertão é um termo
generalizante, encerrando algo que vai até além da ideia de bioma. Como
sabemos, o nosso ambiente natural é extremamente variado, compreendendo os mais
diferentes tipos de savana e de florestas. E ainda temos mais de sete mil
quilômetros de litoral em linha reta.
Contudo, os fatores internos e externos se
articulam. Pois se não podemos negar a colonização e a economia exportadora,
tampouco temos como desconhecer a realidade interna que se formava – o sertão,
justamente – a partir do choque entre as estruturas pré-coloniais, isto é, dos
índios, e o que se seguiria a elas, com a criação de todo um sistema de
exploração do trabalho compulsório, seja de trabalhadores índios seja de
trabalhadores negros. Assim, a realidade interna também se desenvolvia, seguia
o seu rumo. E isso tinha o seu peso. Talvez não na proporção que alguns possam
imaginar, fazendo com que o processo de colonização e as exportações
significassem uma espécie de segundo plano na compreensão da formação
brasileira. Mas tinha.
Sob essa ótica, cresce o entendimento do
papel dos paulistas, que não se limitava ao alargamento das fronteiras (na
verdade, mais uma consequência do que qualquer outra coisa).
Conforme demonstrou o saudoso historiador John Monteiro no seu fundamental
Negros da terra, a ação dos paulistas tinha por objetivo, para além até de
fornecer força de trabalho para os engenhos do litoral, desenvolver "a
produção e o transporte de excedentes agrícolas" para outras partes da
Colônia e até do espaço Atlântico Sul, moldando toda a sociedade local entre os
séculos XVI e XVIII. Ou seja, o apresamento da força de trabalho indígena, já
apontada por Capistrano de Abreu e Nelson Werneck Sodré, não se limitava
tampouco ao fornecimento de escravos para as grandes plantações de açúcar, uma
vez que a produção agrícola local também se baseava na exploração do índio.
Capistrano chegou a definir as bandeiras como uma espécie de "braço armado
do latifúndio" entre nós.
Nunca é demais lembrar que não se faz
História sem a presença do Homem em um determinado espaço. Daí o fascínio das
viagens e dos deslocamentos. E o mais apaixonante nas viagens é a oportunidade
que ela proporciona às pessoas de transitar por várias culturas. Viajante, esse
embaixador por conta própria eu diria até. O que aprendemos em nossas andanças
fica depois dentro de nós, para sempre. A viagem nunca termina. E, muitas
vezes, se transforma em livros e crônicas. Ou não houve um tempo em que
“as nossas pernas eram o único passaporte requisitado”, conforme escreveu Eduardo
Galeano? Até que não seria mal um retorno a um mundo sem fronteiras. ‘Sou
de onde eu nasci. Sou de outros lugares”, concedeu Guimarães Rosa e outro
grande escritor, não mineiro, mas amazonense, Milton Hatoum, citou essa frase
em um belo depoimento que deu para um livro, Ofício da palavra, organizado pelo
mineiro, este sim, José Eduardo Gonçalves.
As viagens, para mim, nada tem que ver com a
procura da solidão ou a perambulação pura e simples, se podemos traduzir desta
forma a palavra francesa errance. Ao contrário, elas representam uma maneira de
reforçar ainda mais minha ligação com o mundo e as pessoas.
Afinal, como brasileiro, sou produto tanto do
Atlântico quanto do Sertão.
*historiador

Nenhum comentário:
Postar um comentário