sábado, 26 de setembro de 2026

Sertão e mar, por Ivan Alves Filho*

O Brasil sempre balançou entre o mar e o sertão, isto é, a sua dimensão atlântica no bojo do processo de colonização – envolvendo Europa, África e as Américas – e a sua vocação territorial – apontando para a necessidade de ocupar um interior de natureza continental, o mundo do sertão. Sabemos da presença desses dois fatores na “explicação” do Brasil – o Brasil de fora para dentro e o Brasil de dentro para fora. Atualmente, a dimensão atlântica vem sendo muito enfatizada, em uma renovação da explicação “externa”, já destacada por Gilberto Freyre. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar – ou melhor: nem tanto ao Atlântico nem tanto ao Sertão. 

De qualquer forma, sertão é um termo generalizante, encerrando algo que vai até além da ideia de bioma. Como sabemos, o nosso ambiente natural é extremamente variado, compreendendo os mais diferentes tipos de savana e de florestas. E ainda temos mais de sete mil quilômetros de litoral em linha reta.

Contudo, os fatores internos e externos se articulam. Pois se não podemos negar a colonização e a economia exportadora, tampouco temos como desconhecer a realidade interna que se formava – o sertão, justamente – a partir do choque entre as estruturas pré-coloniais, isto é, dos índios, e o que se seguiria a elas, com a criação de todo um sistema de exploração do trabalho compulsório, seja de trabalhadores índios seja de trabalhadores negros. Assim, a realidade interna também se desenvolvia, seguia o seu rumo. E isso tinha o seu peso. Talvez não na proporção que alguns possam imaginar, fazendo com que o processo de colonização e as exportações significassem uma espécie de segundo plano na compreensão da formação brasileira. Mas tinha. 

Sob essa ótica, cresce o entendimento do papel dos paulistas, que não se limitava ao alargamento das fronteiras (na verdade, mais uma consequência do que qualquer outra coisa). Conforme demonstrou o saudoso historiador John Monteiro no seu fundamental Negros da terra, a ação dos paulistas tinha por objetivo, para além até de fornecer força de trabalho para os engenhos do litoral, desenvolver "a produção e o transporte de excedentes agrícolas" para outras partes da Colônia e até do espaço Atlântico Sul, moldando toda a sociedade local entre os séculos XVI e XVIII. Ou seja, o apresamento da força de trabalho indígena, já apontada por Capistrano de Abreu e Nelson Werneck Sodré, não se limitava tampouco ao fornecimento de escravos para as grandes plantações de açúcar, uma vez que a produção agrícola local também se baseava na exploração do índio. Capistrano chegou a definir as bandeiras como uma espécie de "braço armado do latifúndio" entre nós. 

Nunca é demais lembrar que não se faz História sem a presença do Homem em um determinado espaço. Daí o fascínio das viagens e dos deslocamentos. E o mais apaixonante nas viagens é a oportunidade que ela proporciona às pessoas de transitar por várias culturas. Viajante, esse embaixador por conta própria eu diria até. O que aprendemos em nossas andanças fica depois dentro de nós, para sempre. A viagem nunca termina. E, muitas vezes, se transforma em livros e crônicas. Ou não houve um tempo em que “as nossas pernas eram o único passaporte requisitado”, conforme escreveu Eduardo Galeano? Até que não seria mal um retorno a um mundo sem fronteiras. ‘Sou de onde eu nasci. Sou de outros lugares”, concedeu Guimarães Rosa e outro grande escritor, não mineiro, mas amazonense, Milton Hatoum, citou essa frase em um belo depoimento que deu para um livro, Ofício da palavra, organizado pelo mineiro, este sim, José Eduardo Gonçalves. 

As viagens, para mim, nada tem que ver com a procura da solidão ou a perambulação pura e simples, se podemos traduzir desta forma a palavra francesa errance. Ao contrário, elas representam uma maneira de reforçar ainda mais minha ligação com o mundo e as pessoas. 

Afinal, como brasileiro, sou produto tanto do Atlântico quanto do Sertão. 

*historiador

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