O Estado de S. Paulo
O Supremo decidiu não decidir, num momento em
que sua reputação está em jogo. Coloca, dessa maneira, toda a sua legitimidade
em risco
Embora se possa dizer que o ministro André Mendonça e o grupo que o apoia tenham perdido ao não conseguirem avançar no julgamento do mérito das ações contra o ministro Alexandre de Moraes, uma coisa é certa: o Supremo só perdeu! Perdeu em credibilidade, em confiança da população e no reconhecimento da sociedade. Pode-se ter respeito por uma instituição cujos membros se recusam a julgar um dos seus, como se não fosse um cidadão comum? E o que dirão os eleitores desse país, que prezam as suas instituições e têm uma aversão pela imoralidade?
O espetáculo, como bem o definiu a ministra
Cármen Lúcia, foi triste! Tristeza emanada de uma instituição que deveria se
colocar acima de qualquer suspeita, uma instituição voltada para ser uma Corte
Constitucional, não pactuando com crimes de qualquer proveniência. Deveria dar
o exemplo! Todavia, os fatos relativos ao ministro Alexandre de Moraes –
abundantes e comprovados – desapareceram, como se não existissem. Não falaram
os seus membros sobre o contrato de R$ 131 milhões da mulher de Moraes com o
Banco Master, da revisão deste documento feita pelo ministro, das dezenas de
telefonemas e mensagens recebidas do mafioso, a visita feita ao presidente do
Banco Central, Gabriel Galípolo, cujo teor e oportunidade são ainda desconhecidos.
Em vez disso, tivemos longas perorações sobre
argúcias jurídicas, voltadas para omitir o que estava em questão: a averiguação
da conduta de um de seus magistrados. O mais surpreendente ainda foi o fato de
um dos ministros, Flávio Dino, fazer demonstrações de saber acadêmico, voltadas
a justificar o injustificável. O saber tem como função primordial descobrir a
verdade, averiguar os fatos tais como se apresentam, justificar racionalmente
condutas de uma forma apartidária, sem facciosismos. Inclusive Aristóteles, um
grande filósofo, e não um pequeno personagem, foi trazido à colação. Deve ter
se revolvido na tumba.
Até o presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), Edson Fachin, foi desrespeitado. O mesmo ministro contestou abertamente
a sua autoridade no início e no fim da sessão, procurando rebaixá-lo a todo
momento. Postura indigna de um ministro com um dos seus colegas. Tomava a
palavra a seu bel-prazer, não seguindo nenhum rito, no que foi secundado por
seu colega, Gilmar Mendes, que também tomava a palavra a qualquer momento,
vociferando e se alterando. Agiram como se todos devessem obedecê-los! Uma
Corte, ainda mais Suprema, não pode se apequenar dessa maneira.
A todo momento, o ministro Alexandre de
Moraes, com seus aliados, procurou estabelecer uma falsa equivalência entre sua
situação e a do ministro André Mendonça, como bem demonstrou o ministro Luiz
Fux. Num caso, temos um relatório da Polícia Federal, seguindo todas as
formalidades, rico em detalhes, estabelecendo indícios de atitudes do ministro
Moraes, que deveriam ser apurados, concedendo-lhe, evidentemente, o direito de
defesa e de presunção de inocência. A sessão, aliás, estava voltada apenas a
autorizar o começo de um inquérito. Nada além disso.
Em outro, um suposto documento cujos autores
reconhecem, inclusive, não possuir nenhum valor probatório, utilizado tão
somente para denegrir um colega que ousou trazer essa questão à baila. Quando
muito, tratar-se-ia de um documento visando a um eventual abuso de autoridade.
As posições são simplesmente invertidas.
No final da sessão, o ministro Flávio Dino, o
protagonista do dia, após já ter votado no início dos trabalhos, deu-se ainda
ao luxo de um pedido de vista, perfeitamente extemporâneo, procurando
inviabilizar que o processo tivesse curso, talvez por temer a posição da
ministra Cármen Lúcia. Curioso é que, apesar de alguns de seus colegas terem
atribuído ao ministro André Mendonça uma intenção eleitoral, foi ele que agiu
politicamente, mostrando-se a serviço de Lula e do PT. Suas relações íntimas
são bem conhecidas. Tudo será agora provavelmente postergado para depois das
eleições.
Ocorre, porém, que essa “vitória” poderá ser
a de Pirro, visto que tornou ainda mais visível esse acordo. Paradoxalmente,
Lula, que não apareceu diretamente no caso do Banco Master, não estando
implicado, salvo indiretamente por intermédio de seu filho, poderá ser
prejudicado, expondo ainda mais para a opinião pública a aliança
Lula-Dino-Moraes. Flávio Bolsonaro surge como seu beneficiário.
O Supremo decidiu não decidir, num momento em
que sua reputação está em jogo. Coloca, dessa maneira, toda a sua legitimidade
em risco, expondo um Poder à mercê dos jogos arbitrários de poder de alguns de
seus membros. Um Poder cujos membros agem como facções, fazendo inclusive uso
de “vazamentos” para coagir alguns deles a agirem diferentemente. O ministro
Nunes Marques foi uma de suas vítimas, não tendo sabido reagir à altura. A cena
total foi indigna de uma República, não aparecendo como “res publica”, mas como
“res privada” de alguns.

O consórcio Lula ST F que garantiu a governabilidade na marra atropelando Congresso e implantando um regime autoritário começa a ruir
ResponderExcluirO show de horrores na última sessão plenária do STF em que Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes interrompiam seus pares aos gritos e berros ofendendo o ministro André Mendonça, tudo pra proteger o Morais revelou para a população o grau de banditismo e degradação que chegaram às instituições brasileiras tendo no ápice o STF