Folha de S. Paulo
O show de horrores no STF confirma nossas
piores hipóteses
Não estamos apenas diante do corporativismo,
mas de uma estratégia de autoproteção perante a possível composição do próximo
Senado ou de cenário pior
Sobre a crise do Supremo já se disse
quase tudo. Corremos o risco de apenas recapitular o recente show de horrores.
É lamentável que alguns ministros tenham confirmado hipóteses a que cheguei em
inúmeras colunas nos últimos anos.
Flávio Dino afirmou que vivemos "o momento mais corrupto da história do Poder Judiciário no Brasil". Gilmar Mendes, por sua vez, censurou André Mendonça por expor colegas eventualmente envolvidos em ilícitos e disparou que "até a máfia tem ética". A metáfora descreve a omertà, o pacto de silêncio e proteção existente nas organizações criminosas. Quem rompe o pacto e trai a facção sofre ameaças, ostracismo ou coisa pior.
Como argumenta Diego Gambetta, de Oxford e
autor dos livros "A Máfia Siciliana" e "Códigos do Submundo:
Como Criminosos se Comunicam", é um erro analisar esses pactos recorrendo
apenas a cultura, tradições, códigos de honra ou mero corporativismo. Para ele
se trata de ação racional: entre outras coisas, a proteção recíproca reduz o
risco individual de cada integrante; romper o pacto, ao contrário, expõe todos
à investigação e à retaliação.
A formulação de Gilmar é ambígua. Seu ponto é
que até entre os mafiosos não se expõem colegas que incorrem em graves
irregularidades. "Pessoas decentes não fazem isso!" A conclusão
implícita beira o absurdo: deve-se acobertar, nunca denunciar irregularidades.
As mensagens de teor fortemente intimidatório que enviou a Nunes
Marques sugerem outras ambiguidades.
A reação extremada e agressiva de alguns
ministros não é corporativismo ou destempero, mas comportamento estratégico de
atores em modo
sobrevivência. Na realidade sinais claros já haviam sido dados: Gilmar
tentou reescrever unilateralmente as regras do impeachment
de ministros do STF, restringindo a iniciativa à PGR e aumentando o
quórum para aprovação. Diante da reação, recuou parcialmente.
Os episódios não são isolados. Pertencem à
mesma sequência de ações defensivas diante da crescente importância eleitoral
do controle sobre o STF. Os ministros anteveem um Senado hostil,
renovado em dois terços e respaldado pela opinião pública. A metáfora do STF
Futebol Clube já não basta. Não estamos apenas diante do corporativismo, mas de
uma estratégia de autoproteção perante a possível derrota de Lula ou composição
do próximo Senado.
O pedido de vista de Dino produziu uma
consequência não antecipada: alimentou um backlash na opinião pública. Segundo
o Datafolha,
34% dos eleitores afirmam que a defesa do impeachment
de ministros aumenta sua probabilidade de votar em um candidato ao Senado. Em
vez de encerrar a crise, o pedido de vista prolongou-a e reforçou a sensação de
impunidade.
Seu efeito eleitoral mais importante poderá
ocorrer entre os eleitores voláteis, sem lealdade firme nem a Lula nem ao
bolsonarismo e, por isso, mais suscetíveis de rever o voto. São eles que
decidirão a eleição.
Esse é o paradoxo do modo sobrevivência:
quanto mais os ministros agem para sobreviver, mais expõem as alianças e os
mecanismos de proteção que alimentam a revolta contra eles. Ao tentar reduzir o
perigo, podem ter aumentado a probabilidade dos resultados que mais temem:
derrota de Lula e eleição de um Senado disposto a confrontá-los.
*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

Perfeito.
ResponderExcluirInteressante o jornalistas quando falam na possível derrota do Lula não deixam de escapar de forma velada o sentimento de lamento
ResponderExcluirÉ incrível como a esquerda e o PT capturar as redações dos principais jornais
E agora diante da realidade estão todos lamurosos, Alguns Arriscam aconselhar Lula e o PT como contornar essa situação difícil que eles se encontram
Jornalismo imparcial no Brasil morreu há muito tempo
Bolsonarismo democrático nunca existiu!!
ResponderExcluir