Folha de S. Paulo
'Se uma família não o matar... a outra
família o fará' (The Sopranos)
Quem vai imaginar os futuros possíveis e
aceitáveis do STF
Se alguém duvidava de que o maior risco à
autoridade da instituição do STF morava nos
gabinetes do próprio tribunal, ministros estão nos oferecendo, hora após hora,
prova incontornável.
Ficou difícil para profissionais da bajulação supremocrática, invariavelmente advogados com ações na corte. Defendem duas teses: o STF salvou a democracia, portanto agradeçamos; para o STF continuar a salvar a democracia, permaneçamos calados. As duas teses sempre foram erradas, mas não desinteressadas ou pouco lucrativas.
Preferiram não reconhecer que, para o STF
ajudar a proteger a democracia constitucional, deveria antes cultivar sua
própria respeitabilidade. Performances incestuosas de ministros, lobistas e
familiares, somadas a volatilidade decisória, não fazem senão o contrário.
Espalhafatosamente.
Tony Soprano já dizia: "Algumas pessoas
estão tão atrás na corrida que realmente acreditam que estão liderando".
Até aqui se sabe que: Mendonça levantou
sigilo de interações entre Alexandre
de Moraes e Vorcaro, e pediu investigação de Moraes; Moraes solicitou
entrada de Mendonça no inquérito das fake news e pediu investigação
de Mendonça; Mendonça mandou
afastar diretor da Polícia Federal e delegado incumbido de investigar
Vorcaro.
Continuando: quando havia maioria na turma
para manter ordem de Mendonça, Gilmar, em casamento de filha de
empresário-amigo na Itália, pede vista e solicita envio ao plenário; Dino, em
ação sobre emendas parlamentares sob sua relatoria, manda
reintegrar diretor da PF; Fachin suspende ordens de Mendonça e Dino,
tira de Moraes inquérito
das fake news e pauta para terça-feira voto sobre investigação de
Moraes.
Essa movimentação não deixou de produzir
danos intangíveis ao fair play eleitoral. Flávio
Bolsonaro gritou novo slogan que o STF lhe entregou: "Quem vota
em Lula está votando em Alexandre
de Moraes". O cinismo e a leviandade de quem se recusa a conversar
sobre relações financeiras com Vorcaro foram apontados pela Folha.
Lula
tuitou: "Se faz necessário mais transparência e não vazamentos
seletivos que impactam a disputa eleitoral. [...] Por isso, é urgente a quebra
completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master,
seja quem for, doa a quem doer. O Brasil precisa saber a verdade".
Quando a Constituição sai da sala, quando
regras e padrões já não se veem, a análise jurídica, para além da denúncia do
vácuo legal, perde capacidade de fazer qualquer previsão. Quando não há sequer
conexão entre o objeto da ação e a liminar monocrática tomada pelo relator da
ação, não há muito mais a dizer. Antecipar o próximo movimento depende mais do
faro político do que da leitura de normas.
No eclipse da racionalidade do direito, a
racionalidade da briga fica sozinha.
Precisamos imaginar futuros possíveis e
aceitáveis para o STF e o sistema de Justiça. Pensar num longo processo de
transformação, que não se resume a uma reforma pontual, a uma nova lei ou
emenda constitucional. Pensar com mais ousadia na tarefa geracional.
Esse futuro é urgente. Antes, porém, há um
futuro de "urgência urgentíssima", como diz o jargão parlamentar: nas
próximas semanas, o STF deve proteger as eleições da manipulação judicial e dar
transparência às informações que todo cidadão deve conhecer.

Acho que a racionalidade do Direito foi bem exposta na última frase da coluna: "o STF deve proteger as eleições da manipulação judicial e dar transparência às informações que todo cidadão deve conhecer". Parabéns ao autor, que semanalmente tem criticado o STF e seus ministros ao longo dos últimos anos, e ao blog, que divulgou seus textos durante todo este tempo!
ResponderExcluirSó sei que essa crise do momento, está revelando o melhor do jornalismo do pais, estamos felizes e orgulhosos dos nosso jornalistas, que continuem com seu trabalho, muito digno e respeitável; pra lá de bom!
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