Folha de S. Paulo
Vestes talares foram concebidas para indicar
impessoalidade e imparcialidade da Justiça
Na percepção popular, porém, esses trajes
hoje passam a ideia de diferenciação e hierarquia
Para uma época que prefere travar batalhas
simbólicas a resolver problemas substantivos, minha sugestão no que diz
respeito à crise no STF é
simples: vamos eliminar as togas. No Brasil, o uso de vestes talares, em sua
versão plena ou simplificada, por magistrados é uma exigência legal, aplicada
em geral a partir da segunda instância e nos tribunais do júri.
A semiologia é bonita. Usar roupas até o calcanhar (é isso que "talar" significa aqui) serviria para esconder o corpo do juiz, apagando-lhe qualquer traço de individualidade e revestindo-o assim do manto da impessoalidade e da imparcialidade. A prática teria tido início na Idade Média e persistido até nossos dias.
Nem meus pendores iconoclastas fazem com que
eu deixe de apreciar essa bela história, mas receio que a coisa tenha
envelhecido mal. Creio que, na percepção popular corrente, a toga funcione
muito mais como um elemento de diferenciação do que de nivelamento. Um incômodo
adicional para nossos tempos multiculturais é que o uso de vestes compridas
para encobrir formas individuais é mesma lógica por trás das burcas que
interpretamos como quintessência do atraso e da opressão.
Voltando aos juízes, creio que as togas e
pelerines também produzem um efeito psicológico adverso. Usar um traje
exclusivo e fazer-se chamar de "vossa excelência" acaba por
convencê-los de que são mesmo mais excelentes que o resto dos cidadãos, o que é
uma traição ao princípio republicano de que todos são iguais diante da lei.
Numa daquelas inversões irônicas da história, a simbologia da toga se tornou o
avesso do que originalmente significava. Vários países, notadamente os mais
igualitários, como os nórdicos, já tiraram as vestes talares do dia a dia da
Justiça.
Não acho obviamente que a eliminação das
togas resolverá a crise no STF, mas, diante do impasse que se arma, essa
desponta como uma das poucas reformas com chance de aprovação. Ainda que só no
plano das batalhas simbólicas, nos daria o consolo de dizer que modernizamos a
Justiça.
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Acaba a toga , mas os vampiros continuam a nos sugar o sangue.?
ResponderExcluirAlexandre , que ele é um vampiro , ah! Isso é
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