sábado, 26 de setembro de 2026

Viveremos do legado democrático de Zuenir Ventura, por Flávia Oliveira

O Globo

Democracia e Zuenir são substantivos que não apenas cabem na mesma frase. São sinônimos

Zuenir Ventura formou gerações — sim, no plural — de jornalistas e inspirou outras tantas — aqui, eu me incluo. Ele partiu serenamente aos 95 anos, deixando órfãos seus filhos biológicos, Mauro e Elisa, e uma legião de velhos amigos, colegas de ofício, fontes, leitores... A existência longa, de quase um século, alicerçou a impressão de eternidade. O velório, na Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupava a cadeira 32, antes ocupada por Ariano Suassuna, foi marcado por uma espécie de luto ao quadrado. Havia tristeza, saudade pela ausência, agora física, do Mestre Zu. E uma baita apreensão cívica pela democracia, de novo, sob ameaça.

Democracia e Zuenir são substantivos que não apenas cabem na mesma frase. São sinônimos. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que o professor, jornalista e escritor “não se calou frente à censura imposta pelo regime autoritário” e “sempre lutou pela redemocratização”. O Instituto Vladimir Herzog (IVH) escreveu que ele foi, além da ABL, imortal também “da imprensa brasileira, da luta democrática e da memória deste país”. Zu e Vlado foram colegas na revista Visão, no início dos anos 1970. Juntos reportaram o vazio cultural decorrente da ditadura. Míriam Leitão contou que ele esteve ao lado de Clarice Herzog na luta para responsabilizar o Estado pelo assassinato de Herzog, sob tortura, nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo, em outubro de 1975.

— Ao longo de mais de seis décadas de jornalismo, Zuenir cultivou uma curiosidade incansável e um olhar atento para compreender o Brasil em suas muitas camadas e contradições — continuou o IVH em nota.

Afonso Borges, jornalista, gestor cultural e amigo dos Venturas, disse que a despedida de Zuenir deveria servir para restaurar neste Brasil de institucionalidade despedaçada o conceito de ética. Eu me lembrarei de Zuenir como o jornalista reconhecido e premiado por defender os direitos humanos num dos países que mais matam defensores. Em 1989, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog, o mais respeitado da área, pela série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, no Jornal do Brasil. Em 2008, ele recebeu troféu da Organização das Nações Unidas (ONU) por ter sido um dos cinco profissionais de imprensa que mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no Brasil nas três décadas anteriores.

O país é território hostil aos que defendem direitos humanos. No ano passado, as organizações Terra de Direitos e Justiça Global informaram no relatório “Na linha de frente” que, no biênio 2023-2024, foram registrados 486 episódios de violência contra pessoas que atuam, principalmente, pela proteção ao meio ambiente e pelo direito à terra. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) contou, no ano passado, 1.276 investidas contra povos originários: 897 relativos à omissão e morosidade da demarcação de territórios, 169 conflitos e 210 invasões.

A Anistia Internacional apontou em seu relatório anual “um cenário de graves e sistemáticas violações de direitos humanos” no Brasil. Mencionou a violência policial como ponto crítico e crescente, assassinato de líderes indígenas, escalada de feminicídios, racismo e LGBTfobia, além das desigualdades agravadas pela crise climática. Quatro décadas atrás, quando pousou no Acre para apurar a morte de Chico Mendes, Zuenir trabalhava contra as chagas que se estendem ao século XXI. Líder dos seringueiros e ativista pela Floresta Amazônica, Chico Mendes tombou com um tiro de escopeta no peito, disparado pelo filho de um fazendeiro, Darci Alves Pereira, a mando do pai, Darly Alves da Silva.

Anos depois, passou temporada em Vigário Geral, na Zona Norte carioca, para acompanhar a comunidade traumatizada com a chacina que vitimou 21 moradores em agosto de 1993. Da imersão nasceu “Cidade partida”, obra que ancorou o debate sobre segregação, violência urbana, desigualdade e identidade num Rio de Janeiro que, ex-capital federal, se habituara a debater mais o Brasil que os próprios problemas. É livro essencial para quem abraça ou refuta a tese da urbe fraturada.

Zuenir inventariou a geração de estudantes que enfrentou a ditadura, após a instauração do Ato Institucional Número 5, o mais brutal do regime. “1968, o ano que não terminou” ganhou o Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, e inspirou a série “Anos rebeldes”, sucesso da TV Globo nos anos 1990.

Zuenir encarou a miséria e a brutalidade. E nos contou com texto preciso e abordagem sensível. Nunca deixou de denunciar barbaridades. Tampouco esvaziou-se de esperança, perdeu o brilho no olhar, tirou o sorriso dos lábios, soltou a mão dos amigos.

Desse legado viveremos.

 

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