O Povo (CE)
A proposta de Ciro Gomes é bem coerente com o
perfil mais à direita que incorporou nestas eleições. O eleitor conservador vê
o investimento em cultura como desperdício, sente uma desconfiança que muitas
vezes se confunde com o anti-intelectualismo
Sabemos que nem toda promessa de campanha
deve ser levada a sério, mas a possibilidade de que a ideia desastrosa de um
candidato seja levada adiante em caso de vitória demanda nossa preocupação
real. Eu me refiro à declaração de Ciro Gomes sobre a promessa de destinar os
recursos que atualmente mantêm o Instituto Mirante para as pastas de segurança
e saúde.
O instituto é responsável pela gestão dos equipamentos culturais do estado. Pinacoteca, Museu da Imagem e do Som, Centro Cultural do Cariri, Estação das Artes, Kuya - Centro de Design do Ceará e o Mercado AlimentaCE são alguns dos equipamentos geridos pela organização social criada em 2021. Os equipamentos pertencem à Secretaria de Cultura, mas todas as ações realizadas por eles são geridas e executadas pelo instituto, num modelo de descentralização administrativa que, muitas vezes, traz mais celeridade e eficiência para o trabalho do estado.
A verdade é que o Ceará viveu na última
década um florescimento muito significativo na área. A própria lista dos
equipamentos mencionados no parágrafo anterior é um resultado disso. Com mais
recursos sendo destinados, a pasta ganhou corpo e produziu entregas importantes
que fortaleceram a economia criativa no estado e o investimento em talentos
locais.
Um exemplo que ilustra bem foi a indicação do
filme Feito Pipa para representar o Brasil no Oscar. Produzido e filmado no
Ceará, o filme é o fruto do investimento em formação técnica na área do
audiovisual cearense.
A proposta tão ameaçadora de Ciro Gomes é bem
coerente com o perfil mais à direita que ele incorporou nestas eleições. O eleitor
conservador vê o investimento em cultura como desperdício, sente uma
desconfiança profunda que muitas vezes se confunde com o anti-intelectualismo,
e acredita que faz mais sentido gastar com a polícia do que com políticas de
promoção das artes em geral. Ao ameaçar cortar o dinheiro do Mirante, o
candidato falou ao seu eleitorado na linguagem que ele festeja.
O que o cearense precisa avaliar é se vale a
pena abrir mão do desenvolvimento ímpar que vivemos na cultura, tão superlativo
quando comparamos o exemplo cearense com os estados vizinhos do Nordeste, em
nome de uma proposta motivada pelas desavenças pessoais do candidato com o senador
Camilo Santana. Afinal, a melhor forma de matar um museu é retirar/diminuir
sensivelmente o seu financiamento ou desmontar sua gestão.
As políticas de cultura educam para a vida,
cuidam, promovem o talento, fortalecem a economia e nos tornam mais humanos e
sensíveis. Elas são um patrimônio nosso, que transformam o nosso cotidiano e
alimentam nosso potencial para a vida. Abrir mão do direito à fruição da arte é
uma temeridade irresponsável e infeliz.

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