sábado, 26 de setembro de 2026

As eleições e o risco de desmonte na Cultura, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A proposta de Ciro Gomes é bem coerente com o perfil mais à direita que incorporou nestas eleições. O eleitor conservador vê o investimento em cultura como desperdício, sente uma desconfiança que muitas vezes se confunde com o anti-intelectualismo

Sabemos que nem toda promessa de campanha deve ser levada a sério, mas a possibilidade de que a ideia desastrosa de um candidato seja levada adiante em caso de vitória demanda nossa preocupação real. Eu me refiro à declaração de Ciro Gomes sobre a promessa de destinar os recursos que atualmente mantêm o Instituto Mirante para as pastas de segurança e saúde.

O instituto é responsável pela gestão dos equipamentos culturais do estado. Pinacoteca, Museu da Imagem e do Som, Centro Cultural do Cariri, Estação das Artes, Kuya - Centro de Design do Ceará e o Mercado AlimentaCE são alguns dos equipamentos geridos pela organização social criada em 2021. Os equipamentos pertencem à Secretaria de Cultura, mas todas as ações realizadas por eles são geridas e executadas pelo instituto, num modelo de descentralização administrativa que, muitas vezes, traz mais celeridade e eficiência para o trabalho do estado.

A verdade é que o Ceará viveu na última década um florescimento muito significativo na área. A própria lista dos equipamentos mencionados no parágrafo anterior é um resultado disso. Com mais recursos sendo destinados, a pasta ganhou corpo e produziu entregas importantes que fortaleceram a economia criativa no estado e o investimento em talentos locais.

Um exemplo que ilustra bem foi a indicação do filme Feito Pipa para representar o Brasil no Oscar. Produzido e filmado no Ceará, o filme é o fruto do investimento em formação técnica na área do audiovisual cearense.

A proposta tão ameaçadora de Ciro Gomes é bem coerente com o perfil mais à direita que ele incorporou nestas eleições. O eleitor conservador vê o investimento em cultura como desperdício, sente uma desconfiança profunda que muitas vezes se confunde com o anti-intelectualismo, e acredita que faz mais sentido gastar com a polícia do que com políticas de promoção das artes em geral. Ao ameaçar cortar o dinheiro do Mirante, o candidato falou ao seu eleitorado na linguagem que ele festeja.

O que o cearense precisa avaliar é se vale a pena abrir mão do desenvolvimento ímpar que vivemos na cultura, tão superlativo quando comparamos o exemplo cearense com os estados vizinhos do Nordeste, em nome de uma proposta motivada pelas desavenças pessoais do candidato com o senador Camilo Santana. Afinal, a melhor forma de matar um museu é retirar/diminuir sensivelmente o seu financiamento ou desmontar sua gestão.

As políticas de cultura educam para a vida, cuidam, promovem o talento, fortalecem a economia e nos tornam mais humanos e sensíveis. Elas são um patrimônio nosso, que transformam o nosso cotidiano e alimentam nosso potencial para a vida. Abrir mão do direito à fruição da arte é uma temeridade irresponsável e infeliz.

 

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