quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A direita veio para ficar, por Elio Gaspari

O Globo

O mapa eleitoral replica o de 1974 desde 2022

Desde a eleição presidencial de 2022, o mapa eleitoral mostra que Bolsonaro prevalecia no Sul e no Sudeste. Lula prevaleceu em Minas e no Nordeste.

Em 1974, a ditadura estava certa de que triunfaria e tomou uma bofetada eleitoral. A oposição elegeu 16 dos 22 senadores. (Naquele tempo, os governadores eram eleitos indiretamente; a disputa pelo Senado era a maior eleição majoritária disponível.)

A ditadura foi ferida de morte. Numa análise grosseira, em 1974 o PIB votou na oposição, e o regime ficou com os grotões. Em 2022, o mapa foi semelhante, e em 2026 a escrita repetiu-se, aprofundando-se.

A ditadura foi surpreendida em 1974. Em 2026, o PT foi para a guilhotina com indolência. Em São Paulo, a vitória de Orestes Quércia era inimaginável em 1974, tanto que Ulysses Guimarães não quis disputar o Senado. Em 2026, depois de ter perdido a capital por uma margem de 1 milhão de votos, o PT marcou presença e lançou Fernando Haddad ao governo e foi derrotado com uma diferença de 6 milhões de votos (36%).

O PT e Lula surgiram e cresceram em São Paulo, e o estado deu-lhe agora uma humilhante derrota. Argumente-se que Tarcísio de Freitas é o governador. Mas o que explica que José Dirceu não tenha sido eleito deputado federal? O eleitorado paulista decapitou a nobiliarquia petista, arrastando Marina Silva, candidata ao Senado, e Rui Falcão, ex-presidente do partido, deputado estadual por quatro mandatos e federal desde 2019.

A eleição de 1974 mostrou que o eleitorado estava cansado da ditadura. A de 2022 sinalizou um certo cansaço do PT. O primeiro turno de domingo confirmou-o.

A onda conservadora de 2018 tinha fortes ingredientes para alavancá-la. A Operação Lava-Jato brilhava, Lula estava preso, e o PT mal tinha candidato. Desta vez, não há Lava-Jato, e o candidato é Lula, depois de exercer um terceiro mandato. Todas as pesquisas davam Lula à frente, mas essas mesmas pesquisas mostravam que seu governo era mal avaliado. Essa reprovação vinha de longe, e a campanha petista subestimou-a.

Em todo o arco de surpresas, saiu das urnas uma constante: foram derrotados quase todos os candidatos em que os eleitores tinham uma espécie de obrigação de votar. Em 1974, os paulistas deveriam eleger o ex-ministro e ex-governador Carvalho Pinto. Em 2026, deveriam eleger o ex-prefeito e ex-ministro Fernando Haddad. Marina Silva parecia ter direito a uma cadeira no Senado, perdeu para o politicamente incorreto Guilherme Derrite, assim como Eduardo Suplicy perdeu para o Major Olímpio em 2018.

Em 2022, Lula deu um salto espetacular atrás das linhas inimigas e entregou a Vice-Presidência a Geraldo Alckmin, seu adversário em 2006. Ele terá menos de um mês para dar outro salto. Para onde? A ver.

A diferença entre Flávio e Lula no domingo, 2,2 milhões de votos, foi superior à de Lula sobre seu pai no segundo turno em 2022.

Como era previsível, a direita que saiu das urnas em 2026 tem um único componente unificador: o antipetismo. O que vem a ser pouca coisa.

Tudo indica que a parada será decidida nos debates. Hoje, seriam três: Band, 11 de outubro, domingo; Record, 18 de outubro, domingo; e Globo, 23 de outubro, sexta-feira.

Se os dois candidatos forem aos três, esta pobre eleição será rica no confronto de ideias.

 

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