O Globo
Mercado espera reforma fiscalista, mas ênfase
da campanha, inclusive do início do segundo turno, é em ameaças ao STF e buscar
indulto a Jair e demais condenados
A euforia nos mercados depois do primeiro
turno em que Flávio Bolsonaro terminou na frente de Lula parte do princípio de
que, se o senador do PL vencer a eleição no próximo dia 25, haverá reformas
econômicas no período inicial do mandato, conhecido por representar uma lua de
mel entre o presidente eleito e o Congresso. Todas as indicações do candidato e
do comando de sua campanha, no entanto, deixam claro que essa está longe de ser
a prioridade.
Um dos primeiros atos de Rogério Marinho, coordenador da campanha e visto como homem forte de um possível governo Flávio, foi visitar o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, para deixar claro que o futuro governo não “se omitirá” em relação a ministros da Corte.
Não deveria ser surpresa para ninguém mais
esse recado. Flávio foi explícito durante toda a campanha. Quem resgatar a live
do dia em que não houve o debate da TV Globo, está tudo lá, na voz do
candidato, de seu novo melhor amigo Pablo Marçal, dos irmãos que entraram
remotamente, dos então candidatos a senador que se alternaram no microfone.
A promessa de enquadrar o STF, e não qualquer
plano econômico, é a chave para entender a lavada da direita no primeiro turno,
e não só no Senado, uma vez que esse argumento foi central também na propaganda
dos candidatos a deputados e governadores.
A outra prioridade, casada, será o indulto a
Jair Bolsonaro e aos demais condenados pela trama golpista, além da
“repatriação” dos investigados que se evadiram para os Estados Unidos. De novo,
não se trata de suposição. Flávio disse na mesma live, mais esclarecedora que
qualquer debate, que fará de tudo para que “pais abracem seus filhos” se for
eleito.
De onde vem, então, tanta fé por parte dos
agentes econômicos? Difícil entender, uma vez que não existe esse programa
escrito com começo, meio e fim. Mais: a prometida suspensão da imediata entrada
em vigor da reforma tributária significará, isso sim, a frustração de
concretização de uma das poucas reformas levadas a cabo pelo governo Lula.
Se o Senado estará ocupado com esses temas
que podem provocar um impasse institucional, o que esperar da Câmara eleita? A
consagração, como campeões de votos, justamente dos deputados com perfil de
forte presença digital, à esquerda e à direita, já permite cravar que a Casa
estará entregue a uma briga ideológica intestina e paralisante, com um grau de
virulência ainda maior do que aquela que se desdobra desde 2019 e que, nesta
legislatura, transformou comissões em picadeiros e o plenário em estúdio de gravações
para o Instagram.
Projetos da pauta de costumes passarão na
frente das discussões econômicas, porque são eles que atendem ao chamado com
que a bancada da selfie conseguiu angariar seus milhões de votos.
A disputa pela presidência das duas Casas
também promete canalizar as atenções na largada de 2027. A aproximação de Hugo
Motta e Davi Alcolumbre com Lula, aliada à perda de musculatura do Centrão mais
tradicional, dificulta os planos de ambos de continuar em suas cadeiras. Ainda
que Rogério Marinho prefira virar ministro a comandar o Senado, há uma lista de
outros nomes do PL mais bem postos que Alcolumbre na fila para pleitear o
cargo, crucial diante da centralidade que a Casa ganhou e que terá no embate
com o STF.
Essa é a crua realidade que espera o país em
2027. Em caso de uma inédita virada de Lula, o cenário de impasse não melhora,
uma vez que, além do impeachment dos ministros do STF, o dele próprio será uma
arma sacada das algibeiras do novo Parlamento, em que ele teria uma minoria
ainda mais evidente que a atual.
Espanta que, com uma história recente tão
didática em apontar exatamente como se comporta cada grupo político quando chega
ao poder, a análise de quem comanda as decisões de investimentos e os
indicadores de mercado seja tão rasa, quando não pautada por uma até pueril
vontade de acreditar.

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