sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A eleição invisível, por Bernardo Mello Franco

O Globo

No Senado, possível avanço da extrema direita eleva risco de crise institucional em 2027

Mais de 120 milhões de brasileiros devem ir às urnas no domingo. A maioria está preocupada com a disputa presidencial, mas ainda não sabe em quem votar para o Congresso.

De acordo com o Datafolha, 57% dos eleitores não escolheram candidato a deputado federal. Para o Senado, a incerteza também é regra: 59% não decidiram em quem votar, e outros 14% só definiram o primeiro dos dois votos a que têm direito.

Apesar da profusão de candidatos, a corrida para o Legislativo é uma espécie de eleição invisível. A campanha passa ao largo das conversas e do noticiário. Embora diga reprovar o desempenho do Congresso, o eleitor não parece se mobilizar para transformá-lo.

Em 2026, a mudança tende a ser ainda menor do que em eleições passadas. O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) projeta um índice de renovação entre 39% e 43%, abaixo da média histórica.

Dos 513 deputados, 438 tentam a reeleição, o que equivale a 85% dos atuais detentores de mandato. Eles largam na frente porque já são conhecidos e contam com a estrutura e as vantagens do cargo. Além disso, têm prioridade na partilha do fundo eleitoral.

Em 2026, a concorrência com os novatos deve ser ainda mais desigual. O Orçamento deste ano reservou cerca de R$ 40 milhões para cada deputado em emendas individuais. A maioria usa parte da dinheirama para fidelizar prefeitos e cabos eleitorais.

Na eleição para o Senado, estão em jogo 54 cadeiras. Dos atuais ocupantes, 32 tentam a reeleição. O Diap não arriscou previsões, e as pesquisas que circulam na praça devem ser interpretadas com cautela.

A última eleição que renovou dois terços da Casa, em 2018, foi marcada por grandes surpresas. Nos três maiores colégios eleitorais do país, os candidatos que apareciam em primeiro lugar perderam para azarões. Foi o caso de Eduardo Suplicy (SP), Dilma Rousseff (MG) e Cesar Maia (RJ).

Embora seja impossível antecipar o resultado das urnas, a maioria da classe política aposta num avanço da extrema direita. Os bolsonaristas investiram na bandeira do impeachment de ministros do Supremo e tendem a se beneficiar do clima de guerra na Corte. Se este cenário se confirmar, 2027 já pode começar com uma nova crise institucional.

 

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