O Globo
O Brasil chega à eleição depois de uma
campanha que discutiu muito pouco o país que o próximo presidente receberá. Há
uma situação fiscal que exige corte de gastos, problemas graves de segurança
pública e desafios impostos pela inteligência artificial e pela nova ordem
mundial ignorados pelos programas dos candidatos.
Lula tem contas a prestar. A responsabilidade fiscal nunca esteve entre suas preocupações centrais. A frente ampla que o ajudou a derrotar Jair Bolsonaro em 2022 foi tratada, depois da posse, como uma aliança eleitoral, e não como fundamento político de um prometido governo de união e reconstrução. E a promessa muito concreta — simbolizada pela picanha e pela cerveja — de que sua volta ao Planalto significaria prosperidade não se realizou, mesmo com a melhora dos indicadores de renda e emprego.
O antipetismo atávico — agravado depois de
casos de corrupção em seus governos e nos de Dilma Rousseff —, aliado à
frustração com estes últimos quatro anos, garantiu sobrevida ao bolsonarismo.
Flávio Bolsonaro não é apenas um candidato de
direita com um sobrenome conhecido. É o herdeiro de um movimento político que
tentou solapar a democracia por meio de um golpe de Estado. Jair Bolsonaro foi
condenado a 27 anos e três meses de prisão. Não se trata de interpretação sobre
suas intenções, mas de uma decisão judicial, tomada a partir de provas e
depoimentos de quem foi instado a participar do golpe.
O filho também chega à eleição com um passivo
que não foi inventado por seus adversários. O caso das rachadinhas em seu
gabinete na Assembleia do Rio acabou arquivado depois da anulação de provas,
mas revelou práticas que nunca foram explicadas. No escândalo do Master, que
tomou a campanha de assalto, é o único candidato a presidente pessoalmente
investigado por ter pedido e recebido de Daniel Vorcaro, a quem chamava de
“irmão”, pelo menos US$ 12 milhões cuja destinação não foi esclarecida por ele.
Todos esses casos vieram à luz pela imprensa.
Mas a força eleitoral do bolsonarismo, a despeito de tudo o que foi noticiado,
leva parte da esquerda a ressuscitar o discurso de que o jornalismo
profissional “normalizou” Flávio. O candidato do PL é senador, filiado ao
partido com maior bancada no Congresso e está elegível. Portanto, não cabe à
imprensa decidir se deve ter espaço no debate, e sim fazer a respeito dele e
dos demais candidatos uma cobertura crítica.
A tese desconsidera ainda um dado importante:
Lula e o PT torceram pela escolha de Flávio como candidato. Seria essa também
uma “normalização” que agora cobra um preço alto?
Só a defesa da democracia não foi suficiente
para reeditar a frente ampla de 2022. Culpar o eleitor ou a imprensa por isso
não é razoável. Se a esquerda não se renovou e não vê legitimidade na insatisfação
com o governo, a análise a respeito da resiliência do bolsonarismo fica
capenga.
Existe uma chance real de vitória de Flávio.
A lista do que ele ou seus aliados já disseram que farão obriga o eleitor a
redobrar sua atenção. Indulto ao pai e demais condenados pela tentativa de
golpe, caça às bruxas no Itamaraty, concessões aos Estados Unidos na negociação
de terras-raras e minerais críticos e o uso do Senado para promover um
confronto com o Supremo Tribunal Federal são promessas explícitas, que prenunciam
um mandato não de reformas e estabilidade, mas de confronto e impasse
institucional.
O eleitor chega às urnas depois de uma
campanha em que suspeitas envolvendo políticos, ministros e tribunais
substituíram a discussão sobre o futuro do país. A pesada interferência da
Justiça na reta final da campanha deixa um rastro de imprevisibilidade que terá
consequências futuras na crise institucional já em curso.
É desalentador que o brasileiro tenha
recebido tão poucas razões para votar movido por esperança e tantas para
escolher premido pelo medo. Agora, cabe exclusivamente ao eleitor decidir que
defeitos considera toleráveis num candidato e que riscos aceita correr. Aos
demais e às instituições, cabe aceitar sua decisão.

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