terça-feira, 20 de outubro de 2026

A ‘herança maldita’ em 2027, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Populismo de campanha vira tesouraço depois, mas Lula e Flávio escondem o jogo

Depois de confirmar que debate não é seu forte, como mostrou desde 1989 em todas as sete campanhas presidenciais que disputou, o presidente Lula manteve sua aposta nos anúncios populistas para tentar virar a eleição até o próximo domingo. O “vale-tudo” corre solto na sua campanha.

O desafio para que ele e Flávio Bolsonaro abram suas contas bancárias e a promessa de entregar os seus dados e de seus filhos ao TSE, ainda hoje, fazem parte do jogo. Mas antecipar o pagamento do Bolsa Família, a dias da eleição, não faz.

É o que se chama de “forçação de barra”, o uso da Presidência e dos recursos públicos para, inequivocamente, comprar votos e minimizar a abstenção, empurrando eleitores de baixa renda para as urnas no domingo.

A maior marca do governo neste 2026 é a gastança desenfreada que Lula assume sem o menor pudor, armando para o próximo presidente, seja Flávio, seja ele próprio, o que chamou de “herança maldita”, tanto ao suceder a Fernando Henrique quanto a Jair Bolsonaro.

É um anúncio atrás do outro, somando bilhões de reais de impacto no Orçamento por ano, num ambiente já de crise fiscal evidente, que a grande massa de eleitores não entende devidamente, mas empresários, economistas e os mais escolarizados compreendem, sim, e sabem no que dá.

Lula deu aumento real do Bolsa Família a dias do primeiro turno, antecipou o pagamento às vésperas do segundo e despejou dinheiro nos MEIs (microempreendedores individuais). E não só, mas a eleição passa e a conta fica. O discurso cor-de-rosa da campanha é jogado no lixo e vem a tesoura.

Sempre no alvo estão as receitas constitucionais com saúde e educação, aliás, temas fundamentais num país tão desigual, mas escandalosamente ignorados numa campanha em que o importante é quem ataca mais, mente mais e tem mais rejeição.

Lula não admitiu nem discutiu os graves problemas da economia e Flávio cria um mundo da fantasia, com um SUS padrão Einstein e um ministério com nome de filme infantil: da Prosperidade. Nada disso tem um pé na realidade.

Mais realista é a candidata a ministra da Economia Daniella Marques, que, ao citar a Argentina de Milei como referência, estragou o filme de ficção e entregou o jogo. Basta pesquisar como está a Argentina, não no discurso oficial, mas na vida real, no cotidiano.

Lula deixa a dívida, mas não se compromete com soluções, o que remete a um 2027 de tesouras e tesouraços, ganhe quem ganhar. A diferença é que áreas e setores da sociedade serão mais atingidos ou mais poupados. Nisso, a comparação de trajetórias e visões de mundo conta um bocado.

 

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